Governador do ES fala aos evangélicos e analisa o mandato

governo paulo hartung, governador

“A Igreja tem um papel importante na construção da família”

Economista por formação, o capixaba de Guaçuí Paulo Cesar Hartung Gomes, 60, caminha para o último ano do seu terceiro mandato como governador do Espírito Santo com a certeza de ter cumprido a missão de organizar as contas públicas e investir em áreas prioritárias.

Nesta entrevista, ele fala da importância da família na sociedade, do trabalho das igrejas e do papel dessas instituições perante os desafios, além de abordar assuntos como a corrupção que assola o país. Mesmo no cenário de incertezas e de escândalos políticos, ainda é possível ter esperança através do voto. Confira.

Como a Igreja pode tornar-se aliada do poder público para mitigar os desarranjos sociais?
As diversas igrejas têm importância na vida humana significativa. Além de cuidar da parte religiosa, muitas promovem diversos programas para enfrentar os desafios sociais. Há exemplos emblemáticos, como todo o envolvimento das igrejas em torno do combate à fome no país mobilizado pelo saudoso Betinho. Essa junção teve tanto resultado que acabou gerando a base para uma política pública. Em um país em que a desigualdade entre ricos e pobres é abismal, todas as forças se unem. Na questão das drogas, acompanho muitos grupos religiosos fazendo trabalhos qualificados no ponto de vista científico também. A gente precisa ter a capacidade de valorizar novamente as boas práticas, de jogar luz nos bons princípios, nos valores importantes, de trabalhar a ideia da solidariedade humana em contraposição a um individualismo que está muito exacerbado. A Igreja ajuda a gente a revigorar os valores caros da caminhada civilizatória. Eu acho que todos nós podemos fazer, e a religião e os religiosos podem ajudar.

Veja a primeira parte da entrevista

 

governo paulo hartung, governador

Todas as igrejas, por mais que tenham doutrinas diferentes, desejam defender princípios da família. Qual a importância da família na sociedade?
O núcleo familiar é importantíssimo na vida social. O que vem acontecendo é que os laços familiares se enfraqueceram. Essa não é uma constatação minha, mas sim de todos que prestam atenção na evolução da sociedade humana. E nós precisamos ir no sentido contrário, o de fortalecer esses laços. Muitos casais põem os filhos no mundo e acham que eles vão ser criados pela escola, pelo professor, até mesmo pela igreja. E isso não se sustenta. A vida está mostrando isso. A figura do pai e da mãe é fundamental na formação da criança, que chega ao mundo sem nada saber. Transmitir valores, transmitir a noção de vida em sociedade, que nada mais é que dar limites. Lei é limite. E o conhecimento da lei, no sentido amplo, tem muito a ver com a vida familiar. Quem coloca limite em filho são pai e mãe, na minha modesta visão. E, quando não fazem, depois ninguém consegue fazer. A escola não consegue fazer, fica sobrecarregada. Qual é o papel do professor? Substituir pai e mãe? Claro que não. O papel dele é ensinar. A família precisa funcionar, e a criança precisa ter a sua educação no sentido da formação de valores, a partir do seu lar. Eu trabalho muito nessa direção, numa visão muito ampla e respeitosa aos laços familiares. Precisamos nos responsabilizar pelos filhos que colocamos no mundo.

“As diversas igrejas têm uma importância significativa na vida humana. Além de cuidar da parte religiosa, muitas promovem diversos programas para enfrentar os desafios sociais”

Há quem diga que, quando a Igreja pratica ação e serviços sociais, está cumprindo suas obrigações cristãs. Outros dizem que ela está cooperando com as instituições públicas. Mas há também quem afirme que está tentando substituir uma ação que é do Estado. Como o senhor vê essa questão?

governo paulo hartung, governadorNeste mundo há críticas para tudo. O trabalho dos evangélicos na sociedade é maravilhoso. Não tem esse limite de ação do Estado. Digo sempre que instituições públicas e governos bons são os que sabem as suas limitações. Toda vez que os governos acham que podem tudo, levam a sociedade para o buraco. É o que aconteceu com o Brasil nesses últimos anos. Governo bom é aquele que vai atrás das igrejas, das diversas organizações da sociedade civil, dos empreendedores, para superar as situações que estão apresentadas. É isso que precisamos desenvolver no Brasil. Precisamos de um governo mais leve, ágil e flexível. Hoje o setor público é um “mastodonte”: caro, ineficiente e, muitas vezes, de costas para sociedade. Quem paga a conta disso tudo é o contribuinte com seus impostos.
Precisamos de muitas ações da sociedade de maneira complementar, em alguns casos até substituindo, porque a sociedade faz muito melhor que os governos. Vejo exemplos mundo afora nesse sentido. Os Estados Unidos são um deles. Os norte-americanos vivem em um país rico e poderoso, mas que tem um trabalho voluntário tão forte que vira exemplo para o mundo. Lá as pessoas estão acostumadas a doar duas ou três horas do seu tempo para melhorar a vida em sociedade. Isso faz parte dessa modernização que precisamos fazer no Brasil. Uma modernização cultural. Temos que estender nosso olhar um pouco e enxergar o que está acontecendo em nossa volta. Sob esse olhar, é muito bem-vindo todo trabalho social das igrejas.

“É importante também não ter preconceito com a política. Não é a política que é ruim, alguns atores da vida pública é que são muito ruins”

A Igreja deve ser a voz ativa contra a corrupção, exemplo de fé e santidade, mesmo em um mundo entregue às práticas corruptas. Ainda assim, os escândalos têm acontecido, ferindo o que realmente compete à instituição. Qual seria o caminho para combater esse mal?
Temos um conjunto de problemas, todos muito graves, e a corrupção é um deles. Precisamos enfrentar todos eles. O combate à corrupção ajuda, inclusive, a atrair investimentos. É importante a gente não parar esse processo de modernização do país, de combate à corrupção, de melhoria da educação, da infraestrutura e de reforma desse Estado paquidérmico, caro, ineficiente. Precisamos seguir em frente. Outros países já passaram por isso, então não fiquemos desesperados. Eles passaram por questões muito similares. E superaram, reformaram, modernizaram, deram a volta por cima. Tem caminho. O que nós precisamos é pegar o caminho certo para concretizar o nosso potencial em uma vida melhor.

Veja a segunda parte da entrevista

Estamos em um ano eleitoral. O senhor acredita que haverá aumento dos votos brancos e nulos nas próximas eleições, diante dessa insatisfação popular?
Há dois fatores a considerar. A democracia representativa, que foi inventada pelos gregos, em que você elege as pessoas para representá-lo, está em crise, principalmente pelo advento das novas tecnologias. Esse mundo, que está transformando as relações humanas, também interferiu na política. Ou seja, a população tem um déficit de representatividade. Na disputa presidencial na França, quase 50% dos eleitores não compareceram para votar. O mesmo aconteceu no Chile. E, além disso, você tem os problemas do Brasil, que vive uma crise ética. É muito provável que nas eleições de 2018, até porque o sistema político não foi reformado, tenhamos muitas abstenções e votos nulos.

“Digo sempre que instituições públicas e governos bons são os que sabem as suas limitações. Toda vez que os governos acham que podem tudo, eles levam a sociedade para o buraco”

Qual a orientação que o senhor daria às igrejas e às lideranças religiosas?
Que tenha muita tranquilidade. Eu tinha um professor que falava assim: “Indício é indicio, e prova é prova”. Nós estamos no mundo da comunicação integrada. Muitas vezes você tem um indício de que alguma pode estar acontecendo e é divulgado como se aquilo fosse uma prova, como se incriminasse uma pessoa. Passa um tempo, e vê-se que aquele indício não é comprovado e, quando prova-se que não é verdade, ganha uma linha no cantinho de página. Então, precisa manter a calma para a gente olhar as coisas como elas são. Conhecer as histórias das pessoas é sempre um bom caminho na hora de votar. É importante também não ter preconceito com a política. Não é a política que é ruim, alguns atores da vida pública é que são muito ruins. Vamos pensar na história da água suja e da criança. Não é a criança que temos que jogar fora; o que temos que jogar fora é a água suja. A criança é o nosso olhar para o futuro do Brasil. Se virarmos as costas para a política, vamos facilitar a vida dos espertalhões. Precisamos saber escolher. Vamos errar? Vamos errar. Meu pai falava comigo e meu irmão: “Só não erram na vida os omissos”. Minha visão desse valor que ele nos passou é que só não erram os que não botam a mão na massa, os que não têm que tomar decisão, os que não arriscam para fazer algo melhor. Vamos olhar, refletir e votar. Eu defendo o voto. Como eleitor, sempre procurei o melhor caminho para minha a cidade, para meu o Estado e para o meu país. O Brasil tem futuro, mas depende da gente. Se o entregarmos para um demagogo, nós vamos viver mais quatro anos de aventura. Não sei se o país aguenta esse tranco. Se a gente entregar o Brasil em boas mãos, para um bom projeto, o potencial do país vivará oportunidade para o brasileiro.

governo paulo hartung, governadorQuais seriam esses rumos errados que o país poderia tomar nessas eleições?
Os extremos. A gente cair na mão do radicalismo. Os norte-americanos colocaram na Presidência da República um bravateiro e estão pagando o preço, mas eles têm gordura para queimar, e nós não. O Brasil está em pele e osso. Precisamos cuidar dos nossos problemas. Um deles é a melhora da educação básica dos nossos jovens. Se o mundo está integrado e competitivo, não tem lugar ao sol quem não consegue fazer a sua juventude ser bem informada e bem instruída. O desafio número dois é melhorar a infraestrutura do país: rodovias, aeroportos, ferrovias, portos, transmissão de dados, energia… Porque os países precisam ter uma infraestrutura boa, para produzir e movimentar seus produtos. Além disso, muitas das nossas leis são pré-históricas, temos que modernizá-las. Ou seja, temos um baita dever de casa. Por isso, o país não pode se dar o luxo, em 2018, de mergulhar numa nova aventura. Temos que trilhar um caminho sólido, responsável. Nascemos ouvindo dizer que somos o país do futuro. E esse futuro nunca se realizou. Por que um país que possui tanto potencial não consegue chegar lá? Outros conseguiram. Há 60 anos, nós estávamos na frente da Coreia do Sul, hoje estamos atrás. Há 52 anos, Singapura conseguiu a independência da Malásia, e olha o avanço que obteve. Qual o segredo? As duas apostaram na educação e na formação dos seus jovens. Nós temos pistas pelo mundo afora do que temos que fazer. Precisamos de bom senso e equilíbrio para fazer aquilo que precisa ser feito para transformar o nosso país.


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