Somos todos forasteiros

Qual é o segredo das empresas centenárias?

Há alguns anos li um artigo que mostrava o resultado de uma pesquisa sobre o assunto. Dentre vários segredos, um deles dizia: “Forasteiros não fazem mudanças”. Isto dizia respeito a líderes que ocuparam posições de destaque, mas que depois que partiam não podiam garantir que as mudanças que haviam feito iriam permanecer. Quando li isto vi que se aplicava totalmente para igrejas e organizações cristãs.

O pastor, mesmo que fique vinte anos numa igreja é um forasteiro. Na hora que ele deixa a liderança, as pessoas dizem: “Ok, ele se foi, podem voltar tudo ao lugar normal”. Vejo pastores e líderes dando seu suor, lágrimas, gotas de sangue e comprometendo seu casamento, saúde e família por causa de estruturas.

Foi a partir da compreensão deste princípio que há alguns anos mudei minha filosofia de liderar. Eu faço qualquer coisa que seja necessária para estabelecer ou mudar completamente uma estrutura, mas já não dou minha vida por isto. Não quero matar ou perder minha família, ou ter uma esposa deprimida, ou mesmo parar num hospital por causa de estruturas ou de gente que não quer mudar.

No entanto, o mais importante, é a segunda parte do princípio “Forasteiros não fazem mudanças”. Ele diz: “Invista nas pessoas, elas mudarão a estrutura ou se mudarão para um lugar onde possam criar algo novo”. Foi o que passei a fazer e o resultado foi incrível. Quando se aplica isto na igreja, o investimento na vida das pessoas leva a relacionamentos, discipulado, vida transformada e a estrutura acaba mudando naturalmente.

Entretanto, não é o pastor ou líder que promove as mudanças, mas as pessoas que foram transformadas. Quando se investe na vida das pessoas elas não ganham apenas a visão de uma nova estrutura ou um novo modelo de ministério.

Elas passam a ter a visão de um novo modelo de vida abundante em Jesus, e a pergunta seguinte que fazem é: “O que Deus quer fazer neste lugar que ele deseja executar através de mim?” Com esta perspectiva elas promovem as mudanças estruturais ou organizacionais que permanecerão, ou ajudam um líder visionário a fazer isto.

Talvez a parte mais difícil disto para o pastor ou líder é semear e saber esperar. No entanto, isto em nada é diferente do plantio de uma arvore. Você planta a semente, espera meses até que os primeiros brotos surjam da terra, coloca adubo, rega, protege, tira as pestes e depois de alguns anos a árvore se torna tão grande que não pode ser derrubada facilmente.

A partir do momento que entendi este princípio comecei a investir em vidas. Nos últimos anos de ministério eu fiz parte de três organizações e igrejas. Elas já mudaram radicalmente suas estruturas, mas as pessoas em que investi estão literalmente espalhadas pelo mundo, fazendo coisas incríveis que eu jamais poderia imaginar quando as conheci.

Elas já discipularam centenas de pessoas, iniciaram novas igrejas e organizações, treinaram novos líderes, lançaram novas idéias, começaram novos projetos, mas o que eu percebo em todas elas é que também não estão brigando por estruturas, mas investindo em pessoas. Fiquei me perguntando porque não aprendi isto antes, mas não encontrei resposta. Então percebi que muita gente como eu poderia estar cega, dedicando sua vida e ministério para lutar por estruturas e decidi escrever este artigo para ajudar a acordar os apaixonados por estruturas para investir em pessoas.

Afinal, somos todos forasteiros onde estamos, e qualquer hora destas você não ocupará mais o cargo que tem, não será mais pastor dessa igreja e quando você partir as pessoas dirão: “Ele se foi, podem voltar tudo ao normal”. Então, o que terá ficado como seu legado? Estruturas ou pessoas transformadas que se multiplicarão?

Por Josué Campanhã, pastor, escritor e missionário da Sepal do Brasil