Filhos do amor

Foto ilustrativa

Filhos acolhidos por um casal, em adoção, são frutos de um amor talvez até maior do que aquele capaz de gerar uma vida.

Os filhos são a alegria de uma casa, o complemento do casamento e a bênção dos seus pais. Filhos acolhidos por um casal, em adoção, são frutos de um amor talvez até maior do que aquele capaz de gerar uma vida. Mas o ato de adotar não pode ser compreendido apenas como uma ação social responsável.

A Palavra de Deus nos mostra de forma clara a importância do ato de adotar. “Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo.

Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos”. (Gl 4.3-5). Deus nos enviou seu Filho, nos adotou como verdadeiro Pai e nos deu uma nova vida.

Quando Paulo diz que fomos feitos filhos de Deus através da adoção, temos uma lição do verdadeiro e puro amor, no qual devemos nos espelhar. Não seríamos salvos se não fôssemos filhos, essa é a verdade. E é também pela adoção de Deus que nos tornamos herdeiros da graça. “O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória” (Rm 8.16-17).

Há algum tempo, a adoção vem sendo mais discutida na sociedade, mas ainda é vista, muitas vezes, com preconceito e ressalvas. Alguns casais procuram adotar crianças por enfrentarem problemas de saúde, como a infertilidade, outros porque desejam ajudar crianças órfãs. Mas existem os receios que dividem as opiniões, como a geração de possíveis conflitos familiares, problemas em não saber a origem da criança adotada e a necessidade de partilhar o patrimônio familiar. Em tudo, porém, devemos garantir que seja Deus quem nos dirige e orienta.

Entre os cristãos havia ainda o receio de a criança trazer consigo as maldições da família à qual pertencia. “A única forma que temos para servir a Deus é servindo ao próximo. Se eu, como crente, não posso ajudar a um necessitado porque ele está sob maldição espiritual, então de que valem o meu Evangelho e a minha fé?”, questiona João Brito Costa Nogueira, pastor presidente da Igreja Evangélica Batista de Vitória (IEBV).

Responsabilidade Pessoal

A responsabilidade sobre os erros é pessoal. A criança não carregará consigo a maldição que for quebrada pela família cristã adotiva, mediante a fé. Já através do Antigo Testamento sabemos que “Aquele que pecar é que morrerá. O filho não levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada” (Ez 18.20).

Se estivermos preocupados apenas com a nossa salvação pessoal, nos esqueceremos de servir ao nosso próximo e o deixaremos em dificuldade. A fé, se não nos colocarmos a serviço de Deus, não causará transformação. Precisamos mostrar o amor de Deus para todo mundo. Isso se chama testemunho. “Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”, conforme está em Tiago 2.17.

Pastor Enoque de Castro Pereira, da Igreja Metodista Wesleyana de Maruípe, ressalta que o cuidado com órfãos faz parte do exercício da diaconia, da prestação de serviços ao próximo, estabelecida no livro de Atos (At 6.1-7). “O mais importante é que seja uma família estabilizada, com condições de criar o filho de maneira digna, de sustentar financeiramente e educar em amor”, destaca. Melhor ainda se esta família puder mostrar o caminho do verdadeiro Evangelho.

A Lei dos Homens

Até mesmo a lei dos homens nos exorta e nos explica como nos tornarmos pais íntegros para filhos que podemos adotar em amor. Todo o Capítulo III do Estatuto da Criança e do Adolescente, que pode ser lido na página oficial trata do direito da criança em manter convívio familiar e comunitário. No Estatuto também se pode conhecer o processo legal para a adoção. Mas o que realmente importa em toda essa reflexão é a vontade que nasce no coração da família em receber um novo ser em seu meio.

O processo de adoção pode ser comparado metaforicamente a uma gravidez, um processo de “gestação” durante o qual a família vai se adaptando e se preparando para o “nascimento” do novo filho. O primeiro passo é a visitação aos orfanatos e casas de passagem que abrigam crianças à espera de pais adotivos. O tempo do processo judicial, dependendo das exigências burocráticas e do casal, pode variar de poucos meses a anos de espera. Uma vez concluído, a criança nunca mais deixará de ser filha dos pais adotivos.

A adoção é um ato irrevogável. Mesmo que o adotante venha a morrer no decorrer do processo de adoção, isso não restabelece o vínculo da criança com sua família biológica. Em vista disso, os adotivos possuem juridicamente os mesmos direitos e as mesmas garantias que os filhos biológicos de um casal; inclusive, no que tange aos direitos sucessórios.

É pelo amor que recebemos do Pai que devemos, em gratidão, acolher e adotar filhos, para que estes também possam conhecer a Deus e sua misericórdia. Quanto mais generosamente abençoarmos, mais seremos abençoados.

“Pelo fato de ter sido muito amado pelos meus pais, e ensinado no caminho que devo andar, e sempre ciente de que eu era um filho gerado nos corações dos meus pais, e não no ventre da minha mãe, hoje sou um homem de 22 anos realizado, super feliz. Sem nenhuma seqüela pelo fato de ter sido adotado, pois, na verdade, foi Deus que me chamou e escolheu primeiro, e eu apenas disse sim”, afirma Hiarley Rosendo Mendes, membro da Igreja Batista da Restauração, em Jardim da Penha.

Direitos Legais

A mãe adotiva possui o direito da licença-maternidade. E todas as seguradas da previdência social que obtiverem a guarda judicial para fins de adoção, ou que adotarem, tem também direito ao salário-maternidade, por período variável de acordo com a idade da criança. Será concedida licença de 120 (cento e vinte) dias, se a criança tiver até 1 (um) ano, 60 (sessenta) dias, se a criança tiver entre 1 (um) e 4 (quatro) anos, e 30 (trinta) dias, se a criança tiver de 4 (quatro) a 8 (oito) anos (Lei 10.421, de 15.4.2002).

Filhos preparados por Deus

Embora ainda existam famílias que buscam por um perfil predeterminado de criança, a escolha geralmente se define pelo contato, pela conversa olho no olho. Alguns pais adotivos contam que não escolheram seus filhos, mas foram escolhidos por eles.

Assim parece ter acontecido com Joelma de Souza e Jossimar Luiz, membros da Igreja Presbiteriana do Brasil em José de Anchieta. Eles afirmam que suas crianças foram preparadas por Deus para pertencer à família. No princípio, Ramon, único filho biológico do casal, que na época tinha 11 anos, teve ciúmes dos irmãos adotivos, que, hoje, quatro anos depois, são muito amados por ele.

“A gravidez da qual nasceu Ramon foi muito difícil. Tenho problema de pressão arterial e tive diversas gestações, sem sucesso. Até que começamos a visitar uma casa de passagem fazendo um trabalho voluntário. Em 2002, quando começamos a ter contato com as crianças do abrigo, nós começamos a orar. Sabíamos que Deus iria nos mostrar a nossa criança. E eu procurei qual aquela que encontrava mais dificuldade para ser adotada, e conheci o menino. E ainda tivemos o privilégio de adotar a menina”, conta Joelma.

“Para mim não existe nenhuma diferença entre os meus filhos. Faço tudo o que posso por eles. Mas aprendi com Ramon a ser uma mãe melhor. Aquilo que eu que achava ter errado com o Ramon, procurei não errar na criação dos meus outros filhos”, diz Joelma, alertando que a família disposta a adotar deve saber que as dificuldades existem, mas podem ser superadas através da bênção de Deus. Ele, que nos capacita para sermos pais biológicos, também nos ensina a sermos pais adotivos.

Apesar de o processo de adoção ser sigiloso, Joelma e Jossimar foram surpreendidos com a presença da mãe biológica de seus filhos adotivos, logo um mês após a adoção. Desde que descobriu onde estão as crianças, ela vem causando problemas com aparições violentas. Mas isso não desanima o casal, que afirma que jamais desistirá das crianças. “Se eu soubesse que seria assim, talvez nós tivéssemos nos preocupado com outros detalhes, tomado atitudes diferentes, repensando nossa vida – como uma possível mudança de local de moradia, por exemplo. Mas não o amor, isso não muda. Nada disso é motivo para desistir”, insiste Joelma.

Por dificuldades como essa é que crianças menores de dois anos ainda são as mais esperadas nas filas de adoção. A maioria crê que nessa faixa etária ainda não criaram nenhum grande vínculo com a família de origem. Quando a adoção acontece mais tarde, as dificuldades de adaptação podem ser maiores. Mas, conforme lembra o pastor Enoque, com o direcionamento de Deus tudo é possível. Todos os problemas podem ser superados, e é nisso que também acreditam Joelma e Jossimar.

Numa primeira visita ao Juizado a pessoa que deseja adotar uma criança deve comparecer com:

    • Carteira de Identidade
    • Certidão de Casamento (se houver)
    • Comprovante de Renda
    • Comprovante de Residência
    • Atestado de Antecedentes Criminais
    • Atestado de Sanidade Física e Mental dos interessados
  • Atestado de idoneidade moral

Caso quem deseja adotar já tenha uma criança, é preciso levar a respectiva Certidão de Nascimento e o atestado escolar (caso a criança já esteja na escola).

O próximo passo é uma entrevista com psicólogos e assistentes sociais, na qual os pais podem apontar um perfil desejado de criança que desejam adotar.

Irmãos em amor

A família Hertel adotou há vinte anos um menino de nove anos, que havia sofrido na primeira infância de paralisia cerebral, resultado de subnutrição e de uma meningite mal tratada. Como seqüelas o garoto chamado Luzimar tinha, além das dificuldades mentais, problemas para se movimentar. Mas tudo foi superado com amor e tratamento médico. Hoje com 28 anos, Luzimar trabalha com a família na empresa que o irmão, Fábio Hertel dirige: a Hortifruti.

A mãe de Fábio e Fernanda, dona Maria da Penha, que adotou Luzimar, faleceu há dois meses, e os irmãos dividem agora a atenção e o cuidado com o jovem. Desde o princípio, Fábio conta que o irmão adotivo foi recebido com muito amor, e não aconteceram dificuldades de relacionamento. “Ele é muito amável, muito carinhoso, logo foi conquistando a família toda”, alegra-se Fábio.

Luzimar congrega com os irmãos na Missão Evangélica da Praia da Costa, em Vila Velha, e continua animando a família, após a perda da mãe. “É gratificante acompanhar o crescimento do Luzimar. Ele é divertidíssimo, está sempre pra cima. Esse ano ainda brincou que queria ganhar brinquedo de presente no Dia das Crianças”, diverte-se Fábio.

Igreja em ação

Para o pastor João Brito, da IEBV, não podemos nos esquecer do ato de amor ao próximo, do exercício de amor cristão que a adoção representa. Entretanto, o sustento das crianças também não pode ser esquecido. A IEBV “adotou” essa causa. Hoje, a igreja mantém, através de doações e trabalhos voluntários, dois lares para crianças órfãs ou que foram, por algum motivo, afastadas de suas famílias pela Justiça. Aliás, todas as crianças mantidas na instituição foram encaminhadas para lá por Varas de Infância e Adolescência, estando em situação regular e legalmente aptas para a adoção.

A Casa Lar, como é chamado o projeto da IEBV, possui duas casas montadas com a estrutura de um lar real, com pais sociais, funcionários e voluntários que colaboram com o trabalho. As crianças recebem alimentação, educação e cuidados médicos, além de serem encaminhadas, se possível, para a adoção. Hoje, na Casa Lar dos Meninos, estão dezesseis meninos. O caçulinha tem quatro anos e o mais velho, 17 anos. Na Casa Lar das Meninas vivem 18 garotas, dos seis aos 17 anos.

Marli Pimentel Aguiar cuida das meninas. Há 12 anos ela tem como ministério o cuidado com crianças órfãs e abandonadas, e diz que o que de mais importante eles podem dar na Casa para as crianças são a educação e o testemunho do verdadeiro amor cristão.

Tanto pastores quanto voluntários e pais que se abriram para essa experiência sabem como é importante o testemunho cristão dado pela adoção de uma criança. Mais do que uma ação de boa vontade, é a oportunidade que muitas famílias possuem de crescer em número e multiplicar em amor. “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo” (Tg 1.27).

Por mais que o auxílio signifique uma missão diaconial, adotar um filho é um ato de generosidade, no qual o pai e a mãe assumem para sempre um laço de fidelidade filial. “A partir do momento em que a família leva a criança para casa, não pode se esquecer de que está levando uma vida, abrindo um leque de esperança para essa criança, fazendo-a acreditar que a vida dela está começando de novo, que ela está ganhando um lar”, ensina Joelma de Souza.

Deus constitui a família e, às vezes, não entendemos claramente a vontade do Pai. A oração e orientação de Deus, conforme explica o pastor Enoque, é que devem guiar a escolha ou não pela adoção de um filho. Para Joelma, que passou e passa por muitas dificuldades, não há como fechar os olhos para o amor que surge entre pais e filhos, mesmo que adotivos. “Minha família é constituída por Deus. Eu vejo que Ele usou o ventre daquela mãe para trazer essas crianças até mim. Eles são meus, Deus os colocou no mundo para mim, só não usou o meu ventre”, encerra.

Cadastro de famílias em Vitória (ES)

Interessados em acolher temporariamente crianças e/ou adolescentes que tenham sido vítimas de violência intra-familiar na família de origem podem se cadastrar, informando nome e telefone, na Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), pelo número 3382-6160 ou pelo email familia_acolhedora@yahoo.com.br.

Para participar, os interessados devem ter acima de 25 anos, ser moradores de Vitória e não ter pendências judiciais. Em contrapartida, para cada criança acolhida, a família recebe uma bolsa auxílio no valor de 60% do salário mínimo.

As famílias ou pessoas selecionadas passarão por quatro fases: visitas domiciliares; entrevista; preenchimento de relatório psicossocial e capacitação na área de criança e adolescente. Só então poderão acolher meninos e/ou meninas, por um período que varia entre seis e dezoito meses. A concessão da guarda à família acolhedora por tempo determinado é concedida pela Vara da Infância e da Juventude de Vitória e tem consentimento do Conselho Tutelar.

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

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