Feliz é a Nação…

O papel do crente é fazer diferença. Quando assistimos políticos ‘evangélicos’ envolvidos nos escândalos de corrupção, fica evidente que o dinheiro é uma grande tentação na política.

Você se lembra das antigas aulas de “educação moral e cívica” que aconteciam nas escolas públicas e privadas anos atrás? Momentos cívicos eram comuns, todos se reuniam a cada data especial do calendário, a criançada da escola cantava o Hino Nacional e hasteava a bandeira… Tremulando no mastro, ela nos enchia de orgulho e nos dava a noção de estarmos inseridos num gigante chamado Pátria. “Entre outras mil és tu Brasil, ó Pátria amada!”

Bem pequenos éramos apresentados aos símbolos nacionais, fazíamos parte de um Brasil colorido de verde e amarelo, muito musical. Brasil de Dom Pedro, Duque de Caxias, Tiradentes… Se você é jovem, só viveu um momento semelhante em dia de jogo da Seleção Brasileira de futebol ou vôlei. Não é bonito escutar aquele trecho inicial do nosso hino e ouvir a torcida continuar cantando a música após expirar o tempo oficial de execução?

No momento cívico, compartilhávamos sentimentos que nos identificavam como brasileiros. Hoje, vivemos um tempo de indiferença aos símbolos nacionais e, até mesmo, de desrespeito aos princípios patrióticos em geral. Fruto de um período árido de ditadura militar, que instalou um mal-estar na relação do povo com seus símbolos. É hora do resgate!

As eleições se aproximam. É importante nos reafirmarmos como cidadãos brasileiros, possuidores de direitos e deveres com esse país que nos foi dado por Deus como pátria. Se Deus nos deu o livre arbítrio e legitima as autoridades escolhidas, como o cristão pode influenciar na vida do seu país?

Cidadão do céu e da terra

Quando nascemos para o céu, ou seja, quando nos convertemos, adquirimos uma nova cidadania que não nos tira da nossa pátria na Terra, mas amplia nossa vida e nos dá outras atribuições como cidadãos. Tendo a consciência de que somos parte da nação, que nos foi dada por Deus, temos que participar da vida social, política e cultural deste povo e da nação na qual estamos inseridos: o Brasil.

“Todo crente tem cidadania dupla. Como ‘sua pátria está nos céus’, sua lealdade primeira é com o Reino de Deus. É dele que recebe a direção de sua atuação na sociedade para engajar-se pelo bem-estar dos seus semelhantes, pela justiça”, é o que diz o pastor Martin Waengartner, pastor da IECLB – Igreja Evangélica de Confissão Luterana – e diretor da Faculdade de Teologia Evangélica em Curitiba.

Crente vota só em crente? Eis a questão que mais se discute nesse período entre os evangélicos em geral. Fica difícil avaliar a sensação que paira sobre eles atualmente, depois dos sucessivos escândalos que se abateram sobre os eleitores que escolheram homens cristãos como lideranças políticas.

Alguns se defendem alegando que não estão envolvidos e vão comprovar isso durante o processo, outros se calam, outros buscam explicação nas “perseguições” que estão sofrendo por serem cristãos. Em quem acreditar? Somente a apuração dos fatos e a conclusão dos processos dirão.

Os líderes afirmam que o lema é utilizado por aqueles que não têm propostas para apresentar e acabam direcionando sua candidatura apenas para o fato de serem evangélicos e com isso se elegerem. “Candidato que afirma que ‘crente vota em crente’ ou ‘católico vota em católico’, ou qualquer um que seja, não tem programa nem proposta. Tenho minhas obrigações como cidadão, mas acredito que o cristão não deva se candidatar a cargos que o tirem do serviço maior que tem aqui, que é o serviço a Deus”, explica o pastor Mário Luiz de Moraes, da Igreja Cristã Maranata.

Para Martin Waengartner, temos de nos preocupar com algo além do fato de a pessoa ser ou não evangélica para votarmos nela. “O lema ‘crente deve votar em crente’ é ingênuo, porque deixa de perguntar pelo caráter. Uma boa parcela dos ‘sanguessugas’ se elegeram dessa forma. Verdade seja dita, é muito difícil avaliar a seriedade de nossos homens públicos, mas é a nossa tarefa tentar escolher quem nos parece íntegro”, afirma. É preciso conhecer a história política do candidato e avaliar suas propostas.

“O papel do crente é fazer diferença. Quando assistimos políticos ‘evangélicos’ envolvidos nos escândalos de corrupção, fica evidente que o dinheiro é uma grande tentação na política. Com facilidade ele coopta até mesmo quem lá entrou com boas intenções”, explica Waengartner, contando que o político luterano sueco Dag Hammarskjöld (1905-61), que foi secretário da ONU de 1953 a 1961, escreveu em seu diário que, para não sermos corrompidos pelo poder da política, é preciso estarmos dispostos a morrer pela Verdade, do contrário seremos cooptados.

Para Wilson de Souza, deveria ser mesmo assim, porque não deveríamos dar nosso voto a alguém ímpio. “Deveria ser de fato ‘crente votar em crente’, pois não deveríamos dar nosso voto a um macumbeiro, por exemplo. Porém, o importante é buscar a direção do Espírito Santo, pois Deus também usa o ímpio. Não nos esqueçamos de que o Senhor chamou Nabucodonosor, um rei ímpio, para chicotear o seu povo rebelde”, exemplifica ele, que é escritor, exerceu pastorado e dedicou muitos anos ao vice-consulado do Brasil em países da América do Sul, África e Europa.

Dever do cidadão cristão

Ser cidadão cristão significa que devemos agir como somos instruídos pela Bíblia. Ser bom cidadão inclui ser íntegro, falar e viver a verdade, e ser honesto. Wilson Souza lembra também que devemos orar pelas nossas autoridades, conforme somos admoestados em I Tm 2.1-3 “Exorto, pois, antes de tudo, que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e sossegada, em toda a piedade e honestidade”.

Wilson lembra ainda que, de acordo com a Bíblia, devemos respeitar todas as autoridades, mesmo as más. Deus nos ensina que devemos ser exemplo para os gentios, por isso nos sujeitando às autoridades terrestres.

Amados, exorto-vos, como a peregrinos e forasteiros, que vos abstenhais das concupiscências da carne, as quais combatem contra a alma;
tendo o vosso procedimento correto entre os gentios, para que naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, observando as vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.
Sujeitai-vos a toda autoridade humana por amor do Senhor, quer ao rei, como soberano,
quer aos governadores, como por ele enviados para castigo dos malfeitores, e para louvor dos que fazem o bem.
Porque assim é a vontade de Deus, que, fazendo o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos,
como livres, e não tendo a liberdade como capa da malícia, mas como servos de Deus.
Honrai a todos. Amai aos irmãos. Temei a Deus. Honrai ao rei.

I Pe 2:11-17

No livro de Romanos, dos versículos 1 a 7, recebemos uma lição de como devemos nos portar diante das autoridades. E o ensinamento se encerra da seguinte forma: “Dai a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”.

Isso significa que devemos nos calar diante dos erros dos governantes?

Segundo Wilson Souza, não. “Quando estiver algo errado, além de orar (Atos 12), devemos exortar, tanto quanto possível com mansidão e submissão, ao que estiver errado”, completa.

Temos muitos homens na Bíblia que foram verdadeiros exemplos de como deve se portar um político cristão. São, portanto, exemplos para nós, crentes que vivemos o atual momento político. “Na política atual o crente deve procurar a direção do Espírito Santo, para agir sob Sua orientação, como instrumento de Deus. Existem muitos exemplos na Bíblia: José do Egito; Moisés, Davi. Gosto muito da rainha Ester. É um belo exemplo de como a igreja deve agir na política. Mordecai (simboliza a igreja) preparou Ester para ser o instrumento de Deus para salvar o seu povo. Ela jejuou três dias, e depois agiu com sabedoria, mas submissa ao rei”, explica.

Mas, e se o governante, a autoridade, erra? “Não podemos ser coniventes com o erro, seja até de um irmão em Cristo. Mas devemos ser misericordiosos e, sobretudo, interceder pelos irmãos que erram. Cuidando para também não cairmos nas astutas ciladas do diabo. Lembrem-se do que diz 1 Coríntios 10, no versículo 12: ‘Aquele, pois, que pensa estar em pé, veja que não caia'”, ressalta Wilson.

O que é Cidadania?

A origem da palavra cidadania vem do latim “civitas”, que quer dizer cidade. A palavra cidadania foi usada na Roma antiga para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer. Segundo Dalmo Dallari:

“A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade dentro do grupo social”.

(DALLARI, Direitos Humanos e Cidadania. São Paulo: Moderna, 1998. p.14)

Sal da terra e luz do mundo

Mas afinal, o cristão deve ou não se envolver nas questões políticas? Para o pastor Mário, devemos ser o tempero desta terra, mas de forma reservada, deixando o controle das instituições públicas para aqueles que são deste mundo. Ele acredita que o cristão não deva se colocar na disputa por um cargo público político. “O cristão não deve confundir a vida política com a vida espiritual. Temos de deixar as coisas deste mundo para serem resolvidas por quem é deste mundo. O cristão deve cumprir a sua cidadania votando de maneira consciente. Escolhendo pessoas que sejam íntegras, não se colocando à disposição para ser um político. Devemos nos preocupar com um bem maior”, esclarece, afirmando ainda que não existe nenhum embasamento bíblico para que haja um engajamento político.

“Na época de Jesus havia um ativismo político muito grande, ele foi cobrado pelo povo para que agisse como um líder político e se negou. Ele não aceitou nenhuma dessas aclamações, e disse: ‘O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui’, conforme está em João 18.36”, emenda pastor Mário.

Já o pastor Alcemir Pantaleão, da Comunidade Evangélica Peniel e presidente do Fórum Político Evangélico de Vila Velha, diz ser importante o cristão se colocar inclusive à disposição do povo nas eleições. “O que impede que eu seja sal e luz exercendo um cargo político?”, questiona. Para ele, existe uma diferença básica: cristão não se envolve em politicagem. “Crente não tem que ser eleito para defender bandeira desta ou daquela denominação. Crente tem de ser eleito para defender princípios”, lembra o pastor.

Para Alcemir, uma questão que demonstra essa importância está nas discussões de assuntos polêmicos que geralmente envolvem os políticos. Nesses casos, um político cristão pode ser definitivo. “Casamento homossexual, por exemplo. Um político cristão não tem como se abster, é uma questão absoluta e, sob qualquer pena, ele deve lutar para defender os princípios cristãos. Não existe isso, não é bíblico”, afirma.

Tanto num caso, se colocando à disposição para assumir um cargo, quanto no outro, não agindo ligado de forma direta à política, numa coisa os dois concordam: dentro da igreja não se faz política, nem campanha, não se fala em candidatura, não se pede votos. “Política não pode acontecer na igreja. Entretanto, não há impedimento para que alguém ligado à igreja esteja ligado à vida política. Sobre política se faz reunião, se realizam conversas entre amigos, mas tudo isso do lado de fora da igreja”, diz o pastor Alcemir.

Todos somos responsáveis pelos rumos tomados pela sociedade em que estamos inseridos e é impossível, pelas leis terrenas, às quais estamos também sujeitos, mantermo-nos à margem da discussão aberta e franca sobre o assunto. Mesmo a postura de se abster de votar interfere no processo eleitoral de alguma forma.

Se cidadania se aprende no convívio social e público, mais ainda no exercício dos direitos e deveres de cidadão. Nas próximas eleições, temos de cumprir um dever duplo: escolher nossos dirigentes políticos aqui no Brasil e no Estado do Espírito Santo, fazendo isso de forma sábia e consciente de que estamos escolhendo um líder para governar toda a nação que Deus nos deu em amor. Deveremos ser exemplo de seriedade e amor cristão, honrando nosso país e nosso povo, o povo de Deus e o brasileiro. Pense bem. É hora de fazermos diferença.

Dica de leitura

O poder da nação que ora
Stormie Omartian e Omar de Souza
Editora Mundo Cristão

 

 

História da Cidadania
Organizadores:
Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky
Editora Contexto

 

 

 


Matéria publicada na edição nº 109 da Revista Comunhão

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