Família em perigo!

O modelo de família está sucumbindo às pressões dos tempos modernos. Como blindar sua casa desses ataques?

Nas últimas décadas, com o novo e agressivo modelo socioeconômico global, mesmo que involuntariamente, gerou-se um agudo movimento de desagregação familiar que toma a cada geração proporções “atômicas”,, de uma grande máquina de moer relacionamentos. Vivemos o chamado modelo doméstico molecular de pais e filhos que sofre efeitos parecidos com os de uma bomba atômica, cuja energia espalha os vários átomos de uma molécula. Se assim compararmos, ocorre uma “fissão atômica” dentro das moléculas familiares, espalhando e empurrando cada um dos seus membros para longe um do outro.

O resultado são pais e filhos distantes, morando na mesma casa,  e que mal se conhecem.
É evidente que com o mercado de trabalho – com a mulher saindo das prendas domésticas para a carreira profissional –, a tecnologia – com o tempo excessivamente gasto na internet (antes era a televisão) – e a quebra dos vínculos comunitários, nem a Igreja tem conseguido a contento manter um senso adequado de sociedade.

Segundo Claudete Coutinho Costa, pedagoga e treinadora do curso Paternidade, da Universidade da Família – UDF, as demandas individuais ganharam prioridades no cenário contemporâneo e têm provocado mudanças nos relacionamentos em casa. Como consequência desse estilo de vida pós-moderno, as estruturas nos lares estão sucumbindo às pressões impostas externamente, e os relacionamentos superficiais, se tornado comuns.

“Temos vivido um tempo conceituado pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman  de modernidade líquida, que é de relações frágeis, da troca de valores (maior apreciação do que é externo em detrimento dos princípios internalizados), do imediatismo
(a geração do agora), da efemeridade (tudo é passageiro, a verdade de hoje não é a mesma de amanhã) e do hedonismo (satisfação pessoal, a qualquer preço)”, diz Claudete.
Todos esses são fatores complicadores da situação das famílias pós-modernas fizeram com que as pessoas, mesmo morando na mesma casa, se afastassem. Sem tempo e sem diálogo, o que se percebe, além do distanciamento dos membros da família, são muitos desencontros e discussões por falta de comunicação.

Os pais praticamente não conhecem mais seus filhos e falam de uma maneira que eles não entendem, e vice-versa. Os filhos não têm tempo para ouvir os pais, nem para ficar com eles. Os pais estão perdendo o coração de seus filhos e terceirizando a tarefa de
criá-los. Nesse conflito, muitas conversas giram em torno da ironia e da desvalorização.
Qual a solução? O mais provável é que não exista uma única saída. Numa situação de tamanha complexidade será necessária uma rede de ações e atitudes que visem a restaurar o relacionamento.

O gestor de Comunicação Fábio Hertel aponta para o aspecto espiritual: “A fragilidade e a desunião das famílias refletem a fragilidade da relação individual com Deus. As aparentes questões sociológicas das famílias são na verdade de fundo espiritual. Os modelos precisam ser corajosamente revistos”, explica.

A instrução bíblica é: “Guardem sempre no coração as leis que eu lhes estou dando hoje e não deixem de ensiná-las aos seus filhos. Repitam essas leis em casa e fora de casa, quando se deitarem e quando se levantarem” (Dt 6: 6-7).  Uma boa dica, acrescenta, é restaurar os encontros à mesa.  “A refeição familiar é talvez a melhor oportunidade de os membros se encontrarem para um diálogo gostoso e conciliador.”

Quem experimentou isso e gostou foi a dona de casa Mayana Rigo, de Vitória, doutorando em Engenharia Ambiental. “Há um ano temos podido ter mais tempo em família durante as refeições. E por causa disso as crianças estão tendo uma alimentação mais saudável. Devido ao prazer do momento, o alimento vira um coadjuvante, as crianças trocam o ‘mais saboroso’ pelo mais saudável, porque este vem regado de elogios e motivação da família. Outro bom incentivo é que nos presenciam comendo bem. E ainda temos um bate-papo gostoso que compõe nosso tempo de qualidade, construindo memórias saudáveis que elas se lembrarão para sempre. Nas suas lembranças estarão nossas trocas de olhares, risadas e orações de gratidão.  É claro que temos pagado um alto preço para vivermos esses momentos. Renunciamos o compromissos e a mais horas de sono; contudo temos essa é compensatória.”

O assunto é tão relevante que há uma promessa de que um dia Deus interviria no ambiente familiar e promoveria conversão.  Não das pessoas a Ele, mas de pais em relação aos filhos e de filhos em relação aos pais (Malaquias 4.6). Para Claudete Coutinho, o grande desafio de manter a família unida é o sacrifício de querer se doar, pensar menos em si e mais no outro. “A família saudável é aquela em que os membros se relacionam de maneira interdependente, na qual há o compromisso mútuo,  o sonho de um passa a ser compromisso de todos, criando um sentimento de satisfação, proteção e unidade. A família que age assim se estabelece num ambiente de atitude de ‘nós-ismo’, ao invés de uma atitude egoísta do ‘eu-ismo’ que leva a independência solitária”.

O pastor Jerry Trevisan, da Igreja Batista, de Vila Velha (ES), ensina que o segredo é buscar a reconciliação, curar as feridas existentes entre pai e filho, buscar o perdão e o reconhecimento dos erros, para reiniciar um bom relacionamentos entre a família.

Dados alarmantes
Uma pesquisa realizada pelo escritor George Barna com mil participantes de 561 igrejas de seis diferentes denominações indica o quanto pais e mães conversam com seus filhos sobre questões de vida e fé, de forma regular.

O resultado é assombroso: 12% conversam com a mãe e apenas 5% com o pai. Menos de 10% dos pais que frequentam a igreja oram ou leem a Bíblia com seus filhos. George Barna também publicou uma pesquisa no livro “A Fé Começa em Casa”, de Mark Holmen, na qual mostra que, numa lista de 28 influências espirituais, pai e mãe ocupam as primeiras posições. A obra narra que no passado, a fé, transmitida de geração a geração, era o foco central das famílias e que hoje, a realidade para muitas é que ela não representa mais que uma hora de cristianismo em que os pais deixam os filhos na porta da igreja.
Baseado nessa pesquisa, o Pr. Dinart Barradas faz um alerta: “Se é verdade que os pais são a maior influência na vida dos filhos, estamos perdendo a grande oportunidade de influenciá-los em duas das principais questões da vida que são a fé e a comunicação em família. E a primeira constatação a ser feita é que essa não é uma luta atual. A unidade da família sempre foi um grande desafio em todas as épocas”, afirma.

Para ele, a falta de tempo e a indisponibilidade da família que está desunida são álibis mentais e comportamentais que fazem parte do arcabouço social, gerando conformidade com o distanciamento, o esfriamento e, por fim, a desagregação familiar.

Dados divulgados pelo IBGE/2014 mostra que o número de divórcios no país cresceu mais de 160% na última década. No Espírito Santo, a taxa em 2015 foi a quinta maior do Brasil, com 8.953 casos.

Diante desse cenário sócio-familiar, Dinart lança o desafio: “Alguém tem que encabeçar um poderoso movimento de restauração da paternidade bíblica. E isso não passa por liturgia, retiros, pregadores carismáticos.  O conserto passa por levar o Evangelho para dentro de casa a partir de uma revisitação teológica do sentido de família”.

Ele afirma que ao empoderar a família com recursos divinos, tanto de fé como de prática, as ações nocivas pouco a pouco cederão lugar ao novo de Deus. “Mas não podemos começar muito tarde, no fim da infância,  no início da adolescência, mas na estruturação do casamento, na capacitação para o exercício dos papéis de cada cônjuge dentro da família.” Na adolescência é comum um afastamento natural, para que os filhos possam testar a sua autonomia. Também é nesse momento que as preocupações dos pais aumentam e as relações ficam mais difíceis.

Pensando nisso, o músico e escritor Asaph Borba escreveu o livro “De um Pai para Seus Filhos”, demonstrando como é possível evitar o distanciamento.  O autor narra que é dos pais a responsabilidade de escolher os princípios que querem passar para seus filhos, sobre os quais eles construirão seus próprios caminhos.

Fábio Hertel alerta que a família moderna sofre pressão para trabalhar demais, bater metas demais e não investir nos relacionamentos dentro de casa. Segundo ele, esse comportamento atinge também as mulheres.  “Por questões financeiras as mulheres estão igualmente trabalhando demais, ficam cheias de culpa e não cumprem o fantástico papel de ativar e promover os relacionamentos entre os membros da família.”

Dinart acrescenta que a mulher sofre pressão para deixar o lar. “Toda vez que uma mulher diz pra outra ‘você vai abandonar seu emprego por causa de filho?’, não intencionalmente ela está lançando a semente da situação presente. O que essa mulher faz?  Tão logo passa a licença-maternidade, o bebê vai pra onde? Ficar aos cuidados de quem?
No caso do pai, enfatizamos tanto o provedor, que preterimos o protetor. Colocamos tanta demanda de consumo e investimentos em conforto e educação que condicionamos o papel do pai a mero pagador de contas.

Na outra ponta esse pai ouve: ‘Você precisa fazer alguma coisa com seus filhos’.
Fazer o quê, se esse homem foi moldado para ser uma coisa diferente daquela que hoje é demandada a ele?”, questiona. Na visão do Pr. Jerry Trevisan, a saída da mulher para o mercado de trabalho em busca de complementos salariais e suas realizações deixou uma lacuna na vida familiar. Distanciamento ou vínculos não acontecem de uma hora para outra. São construídos e levam tempo.

Geração do asterisco
Dados do Conselho Nacional de Justiça informam que, de cada quatro crianças nascidas no Brasil, uma não tem o nome do pai na certidão. É desconhecido. Tal proporção aponta para o crescimento da “geração do asterisco” – símbolo gráfico que indica a ausência do nome do genitor da certidão de nascimento – agravado pela consequente síndrome das famílias sem história.

Pedagoga e treinadora do Curso de Paternidade, da Universidade da Família – UDF, Claudete explica que esse cenário se dá com uma geração formada em meio à pressa e à correria, ao isolamento e ao silêncio, que não tem tempo para estabelecer vínculos fortes, para contar suas histórias, conhecer as gerações passadas e ter elementos necessários para construção de uma história familiar.

“Penso que se faz necessária a retomada de alguns valores e hábitos familiares perdidos ao longo do tempo, como a valorização da presença física  e do toque. Em vez de mandar  aquelas figurinhas on-line com expressões humanas, os emoticons de abraço, o melhor é realmente abraçá-las com afeto. Ao invés de expressar seus sentimentos com mensagens de texto ou áudios, declarar abertamente o quanto essas pessoas são importantes na sua vida. Em vez de rever os históricos de conversa do aplicativo, atentar-se mais à construção do destino que sua família vem realizando.”

Claudete afirma que não foram poucas as vezes que ao descrever o comportamento de um filho aos pais, ouviu a frase: “Penso que você não está falando de meu filho”. Os filhos, por falta de confiança, comportavam-se de modo diferente fora de casa e de maneira mentirosa perto dos pais.

“Imagine uma criança que tem medo de fracassar diante do pai, por sentir que ele não  ficará contente ou não a amará tanto quanto se for bem-sucedida. Reagir ao fracasso deles com palavras negativas, sarcásticas ou que os machuquem não irá encorajá-los nem construir a confiança entre vocês. Precisamos ganhar o coração dos nossos filhos”, adverte.
Os filhos têm um mundo particular que está constantemente se desenvolvendo. Há um fenômeno que acontece com eles chamado de “janela aberta”, que frequentemente passa despercebido pelos pais por serem  muito ocupados.  “As janelas abertas são momentos em que seus filhos o convidarão para entrar em seu mundo particular. Esses momentos podem acontece, enquanto vocês caminham, colocam o filho na cama para dormir, sentados à mesa ou simplesmente tendo um tempo de conversa. Inesperadamente, os filhos abrem essa janela dispostos a compartilhar os assuntos do seu coração.

Se você puder provar que é digno de confiança durante os momentos vulneráveis dos primeiros anos, seus filhos virão até você, quando forem mais velhos”, diz.
Para haver essa comunicação íntima, é necessário um ambiente de aceitação, pois a capacidade de se expor esbarra no obstáculo do temor; medo de abrir seu coração e ser mal-entendido ou rejeitado.