Faca cega e fé amolada

No ano 2000, estava eu com minha banda, em Curitiba, dirigindo o momento de louvor congregacional no maior evento para músicos da época, o Louvação. Reunidos ali estavam mais de 3 mil ministros de música vindos dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal.

Recordo-me que em dado momento, o Espírito Santo me levou a orar especificamente pelas mãos dos músicos: “Deus, em nome de Jesus, livra todos esses músicos de qualquer problema nas mãos. Livra-os de cortes, decepamentos, enfermidades nos ossos, doenças degenerativas, artrites, Mal de Parkinson ou qualquer outra doença que os impeça de tocar os seus instrumentos”. Os músicos, claro, diziam “amém”, com muita alegria e fé.

Terminada aquela oração, desci do altar e fui “gentilmente” convidado a seguir para uma sala reservada, e lá alguns teólogos de plantão me repreenderam, dizendo que eu não podia orar pelas mãos das pessoas. “Como não?”, retruquei. “Em vez de orar pelo corpo todo, ou por uma dor de cabeça, orei especificamente pelas mãos. Que mal há nisso?” E dá-lhe debate noite adentro!

Minha atitude, naquele dia, não foi algo de momento. Essa já era uma prática antiga em nossa casa, sobretudo, por parte da minha esposa, que sempre ora pelas minhas mãos de músico. Além disso, é costume nosso tomarmos algumas precauções, tais como, não ter em casa facas afiadíssimas ou equipamentos perigosos, além de evitarmos qualquer trabalho que ponha em risco as minhas mãos. Inclusive, sabendo que nossos filhos também precisariam um dia das mãos para tocar algum instrumento, sempre que os disciplinávamos com a varinha ou com a cinta, a primeira providência que tomávamos era proteger-lhes as mãos. Muita gente não sabe, mas elas possuem nervos supersensíveis que não podem ser agredidos em hipótese alguma.

Aquela oração pelas mãos foi simbólica, pois músicos não usam apenas as mãos. Usam os braços, as pernas e os pés, usam os lábios, o rosto e a voz, enfim, dependem de todo o corpo. Ser músico ou dotado de qualquer outra arte é um privilégio recebido do Céu. Os artistas são presentes de Deus para a humanidade, e foi por essa razão que, recentemente, confrontei um conhecido produtor de vídeos: “Você tem noção de quem você é e da abrangência das suas obras?” Meio acanhado, ele respondeu que talvez soubesse. Completei: “Não sabe. Se soubesse, você não andaria de moto em alta velocidade, como normalmente faz, se arriscando neste trânsito louco”.

Infelizmente, não são poucas as histórias de artistas que apreciam a alta velocidade. Dois exemplos clássicos da MPB são Gonzaguinha e Jessé, ambos famosos por dirigir em alta velocidade, atitude que acabou lhes ceifando a vida prematuramente. Será que eles tinham ciência do quanto significavam para o Brasil? Jessé conhecia a Bíblia, então, por certo, já havia lido 1Coríntios 6.19: “Não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” Não me chame de exagerado, mas por causa desse versículo, costumeiramente alerto os artistas que eles devem ser zelosos com os seus corpos: não fumando, não bebendo, não se prostituindo, cuidando da saúde física e mental e zelando da voz. Para quê tanta precaução? Para que possam durar mais tempo sobre a Terra. O melhor de um artista nem sempre é quando ele está no auge do sucesso. Se ele se cuidar bem, quem sabe, poderá brindar a sua geração com obras produzidas no auge da idade avançada e da maturidade artística.

Enfim, por essas e outras razões, continuo me cuidando e orando pelos artistas – por partes de seus corpos e também por seus corpos inteiros – ignorando, assim, alguns remanescentes teólogos ditadores. Milton Nascimento cantou “fé cega, faca amolada”. Comigo é diferente. É “faca cega e fé amolada”, cuidando com responsabilidade dos presentes que Deus me deu: o meu corpo e a minha arte.

Pr. Atilano Muradas

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.