Eu, exemplo?

Jesus Cristo ensinou muito mais pelos exemplos do que pelas Suas próprias palavras, e o homem da casa pode fazer a diferença se for bom ouvinte e aconselhador através das atitudes

O que o filho espera de um pai? Neste mundo moderno, as informações correm com uma velocidade fenomenal, mas a relação entre essas duas figuras familiares precisa se manter amigável, sempre com a atuação da parte adulta como aconselhadora, ouvinte, interessada, atenta, alerta e presente. A correria do dia a dia tem tornado esse convívio muitas vezes distante, afastando crianças, adolescentes e jovens do projeto de Deus para suas vidas. Afinal, o exemplo paterno é sempre um grande espelho.

E como não se lembrar dos personagens descritos na Bíblia? Homens que muitas vezes falharam, mas em outras tentaram acertar, como foi o caso de Jacó, Abraão e Manoá; ou erraram de maneira tão profunda a ponto de levar sua prole à derrocada, como ocorreu com Eli.

Um dos cuidados que se deve ter no lar refere-se à demonstração de predileção por algum dos herdeiros em detrimento de outro. Abraão teve dois filhos. Ismael, o que nasceu primeiro, foi deixado com sua mãe, a serva Agar, no deserto. Já Isaque, o caçula, foi criado perto do patriarca, com todos os conselhos e regalias. O resultado foi a revolta do mais velho, que lhe conferiu um caráter duvidoso.

Outro episódio simbólico para esse tema aconteceu com Davi, que teve Absalão e Salomão, com clara preferência por este último. Tamanha diferença de tratamento despertou o desejo em Absalão de matar o próprio pai, de tramar contra ele, entre outras atitudes nefastas.

E o que dizer de Eli, um pai preguiçoso, ausente e irresponsável? O sacerdote descrito no livro de 1 Samuel não tinha postura de educador, negando-se a impor limites, ignorando a existência dos filhos, um desprezo que os levou a morrer.

“Ocorre-me dentro do aspecto negativo, com frutos também negativos, a figura de Davi, que se mostra um pai ausente na educação de Absalão. Essa história é clássica para os pais que tratam seus filhos fazendo todos os seus gostos, sem disciplina. O resultado será um filho rebelde e sem limites, com grande probabilidade de replicar em sua descendência o mesmo conceito de instrução, obtendo os mesmos frutos indesejáveis. A leitura de 1 Reis mostra os soberanos, suas descendências, e como eles pagaram o preço de seus erros nas gerações seguintes.

Isso se deveu em muito à educação equivocada. No aspecto positivo, poderíamos pinçar a figura de Jó, muito conhecido, aliás, pelo sofrimento que viveu e pela fé que demonstrou. Mas a Bíblia relata que ele foi um pai exemplar. Um verdadeiro sacerdote em seu lar. Jó era intercessor e estava atento ao bem-estar espiritual de seus filhos, orava por eles constantemente. Essa atitude mostra o cuidado paterno, tão importante entre nós. O texto bíblico nos diz: ‘Chamava Jó a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles (…) Assim o fazia Jó continuamente’ (Jó 1:5). Pais que em sua luta de instrurir seus filhos se comportam como sacerdotes, entregando-os a Deus, intercedendo por eles e educando-os segundo os princípios da Palavra de Deus, muito provavelmente verão os frutos desse cuidado no futuro de seus filhos”, explica o pastor Miguel Uchôa, escritor da editora Mundo Cristão

Muitas vezes os pais se empenham em dar aos filhos a instrução correta, dentro dos princípios bíblicos, com a preocupação de passar à “cria” aquilo que Deus tem para sua vida. No entanto, as escolhas devem ser respeitadas, e os responsáveis necessitam saber que aquilo que se plantou não será perdido. Foi assim com Manoá. Quando o anjo lhe trouxe a notícia de que sua mulher, ate então estéril, iria dar à luz um menino, a primeira pergunta feita pelo futuro pai ao mensageiro divino referia-se ao modo de vida que Deus estabelecera para o garoto que viria a nascer, Sansão. As orientações para que ele fosse um nazireu foram seguidas à risca pelo pai, mas Sansão sucumbiu, não por culpa dele. “O segredo não está nas mãos da pessoa que aconselha você, mas em quem segue o conselho. Absalão e Salomão tiveram o mesmo pai. Salomão tornou-se um rei, e Absalão, um grande tolo.

A Bíblia fala de um homem chamado Demas, que foi discípulo do apóstolo Paulo, seu pai espiritual, e depois se desviou. Judas e João tiveram o mesmo pai espiritual. Judas se matou, e João foi honrado. Quem recebe o conselho tem em suas mãos o poder e a determinação de segui-lo ou não”, explica o pastor Hudson Lima, autor do livro “Pais Espirituais Geram Filhos Espirituais”, da Editora AD Santos.

E hoje?
Esses são casos clássicos, de pais que há séculos estão permeando nossas vidas através da Palavra de Deus. Mas como adaptar as atitudes deles ao momento que estamos vivendo, tecnológico, com filhos que estão cada vez mais cheios de si e que a autoridade paterna tem mudado.

Para o pastor Fabrini Viguier, autor do livro “Ser Homem”, da editora Thomas Nelson Brasil, o conceito de caráter que se deve passar à prole, com base bíblica, não deve ser mudado;  o que se altera é a necessidade de um diálogo maior, respeitando individualidades e transmitindo para eles o que é preciso para se manterem fiéis.

“Muitas pessoas acham que imposição de limites é capaz de traumatizar uma criança e pode afetar seu crescimento, mas na verdade o que traumatiza uma pessoa nos seus anos formativos é a incoerência, isso que gera revolta e perplexidade. Se for colocada com amor e respeito, com objetivo de preservar a segurança física e emocional do filho, nunca vai afetar e destruir uma pessoa, mas a incoerência que ela encontra entre o discurso religioso e uma prática profana é que pode levar ao inverso do que se espera”, frisa. Ele acrescenta que respeitar a individualidade e saber orientar conforme cada fase vai tornar esse diálogo mais fácil e coerente. Como exemplo, fala sobre as crianças até 8 ou 9 anos de idade, em que se pode usar uma palavra mais impositiva, mas quando se tornam adolescentes, de 16, esse comportamento não cabe mais, porque eles se sentem infantilizados com o comando arbitrário sobre sua vontade.

“Quando falamos em jovens de 22 anos, que ainda estão sob nossa tutela em virtude dos estudos, é outra abordagem. Não é autoritarismo, mas é preciso passar amor com firmeza, tentando compreender seus filhos e liberando-os para as consequências das suas escolhas. Um caminho libertador é quando os pais conseguem desvincular suas vontades das vontades e das escolhas dos filhos. Quando dizem que, por mais que os pais não gostem, essa é a decisão deles, por mais que fiquem tristes, é o jovem quem vai sofrer. Isso pode parecer duro demais, rude demais, mas em última instância, se não fizermos isso, nossos filhos não vão crescer, porque não vão assumir o peso de suas próprias dores, não vão chorar suas próprias lágrimas e nós vamos envelhecer mais cedo, porque além de levarmos os nossos próprios fardos, vamos levar por muitos anos os fardos dos nossos filhos. Isso não é maturidade e não é sabedoria de gente experiente e adulta. Então, temos que deixar que eles façam suas opções na esperança de que vão escolher de acordo com aquilo que semeamos no coração deles”, enfatiza.

A diferença do exemplo
É isso que tem percebido Vander Borges, membro da Igreja Batista. Com a filha Beatriz, de 4 anos, seus atos tem prevalecido diante de qualquer coisa que diga. Mesmo tão pequena, ele tem notado que a menina o observa e repete aquilo que vê. “Por diversas vezes ela alinha aquilo que eu falo e ensino com aquilo que temos praticado em casa. As crianças aprendem com a vida e na vida, que é o verdadeiro discipulado. Em nosso lar buscamos ensinar os princípios para a Bia dentro do contexto da nossa vida. Assim, ensinamos no momento de devocional e no culto do lar que fazemos juntos, ao brincar com ela nas atividades que gosta e em situações de convivência. A linguagem precisa alcançar aquilo que ela conhece. Então ensinamos que Deus a ama incondicionalmente, que o perdão é a melhor forma de viver distribuindo amor. Isso gera no coração dela que a melhor opção é sempre perdoar, pois Deus nos perdoou”, conta.

Antonio Marcos Rocha, membro da Igreja Cristã Maranata, pai de Pedro (6) e Benjamin (2), percebe que, principalmente com o mais velho, as influências externas podem atrapalhar os conselhos recebidos em casa. “Não é fácil! como eles ainda estão em formação das suas personalidades ficam muito confusos, porque veem a maioria das crianças de sua idade fazendo o contrário de muitas das coisas que orientamos em casa. Na verdade, é muito difícil ensinar e orientar nossos filhos em tempos tão trabalhosos, em que lares estão desestruturados. Não existe referência, sem contar a libertinagem desenfreada que dá acesso fácil às crianças de coisas que ferem sua inocência como sexualidade e violência”, conta ele.

Para aconselhar seus filhos, Antônio usa quatro princípios que tenta colocar como cerco ou escudo para que os meninos aprendam e não sejam levados pelas coisas desta vida. O primeiro deles é ensinar que existe um único Deus. “À medida que meus filhos crescem, sei que muitos deuses lhes serão apresentados, muitas histórias desses deuses serão contadas para eles e muitas ofertas vão passar diante dos olhos ingênuos e puros deles. Mas, se aprenderem hoje que só existe um Deus, sei que não serão enganados. Outra questão é a verdade incontestável. Num mundo de tantas coisas relativas, meias verdades, tudo tem um ponto de vista, tudo tem sombra de variação, é difícil estabelecer uma direção ou um limite para as coisas.

O que é certo vira errado e o que é errado vira verdade, e por aí o homem vai se perdendo e não acha mais seu destino certo. ‘Santifica-os na Tua verdade; a Tua palavra é a verdade’ (João 17:17). Desta forma sempre tento orientar meus filhos dentro da Palavra de Deus, que considero uma verdade incontestável. Isso é o meu legado, a herança maior que posso deixar para eles”, explica. A terceiro orientação diz respeito à vida eterna em Jesus. Na existência terrena eles terão objetivos com estudos, vida profissional, vida amorosa, projetos e sonhos. Mas, para o pai, o maior desejo do homem tem que ser a eternidade com Jesus.

“É o principal, nossa salvação! E, por fim, a frase ‘Sê homem meu filho’ – ‘Eu vou pelo caminho de toda a terra; esforça-te, pois, e sê homem’ (1 Reis 2:2). Essa colocação feita pelo rei Davi a seu filho Salomão antes da transição do reino foi para passar toda orientação para continuidade da bênção do Senhor sobre sua casa. ‘Para que o Senhor confirme a palavra, que falou de mim, dizendo: Se teus filhos guardarem o seu caminho, para andarem perante a minha face fielmente, com todo o seu coração e com toda a sua alma, nunca, disse, te faltará sucessor ao trono de Israel’ (1 Reis 2:4). Então, para continuidade da bênção de Deus na vida do homem e para garantia da coroa de glória que o Senhor Jesus preparou para os fiéis, de igual modo é necessário sempre revermos nossa postura diante de Deus. Essa conversa que Davi teve com Salomão é a que todo pai deveria ter com seus filhos sempre que possível, lembrando que eles são servos de Deus e, portanto, devem conduzir suas vidas segundo Suas orientações”, finalizou.