A ética e a opção na orientação sexual

Duas citações que saíram no passado em jornais aqui em São Paulo indicam uma tentativa de buscar outros rumos para o estabelecimento do tema deste artigo.

A primeira foi a de um ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), que afirmou ser o órgão sexual “um plus, um bônus, um regalo da natureza. Não é um ônus, um peso, um estorvo, menos ainda a reprimenda dos deuses”.

Quando se fala que o órgão sexual é um plus da natureza, há consciente rejeição de fatos científicos consagrados, como a integralidade do corpo – o corpo é o que é. Nada é um plus da natureza, porque simplesmente tudo o que nosso corpo possui constitui a sua própria natureza. Dizer que o órgão sexual é um plus da natureza seria o mesmo que se sossegar diante da cegueira que seria facilmente justificável com a afirmação paralela de que os olhos são um plus da natureza. O mesmo sobre a fala, a audição. Além disso, ninguém justificaria o desejo de ficar com os olhos fechados o resto da vida, em silêncio ou mesmo colocando um tampão nos ouvidos afirmando que os órgãos destes sentidos sejam um plus da natureza. O que o ex-ministro do STF fez foi apenas um joguete inconsequente de palavras cientificamente insustentável.

A outra afirmativa veio de um defensor do neoconceito de orientação sexual e identidade de gênero como opções possíveis para cada um que queira rejeitar a natureza biológica corporal como indicativa da natureza sexual. O autor afirma que a identidade de gênero ou orientação sexual devem ser objeto de decisão de cada um sem a influência da sociedade, e que a heterossexualidade não é proveniente da orientação corporal, mas uma imposição da sociedade sobre a vontade pessoal. Como resultado, somos heterossexuais como vítimas compulsórias dessa imposição e seres inferiores.

Temos aqui um argumento (o do ministro do STF) corroborando a cultura como fonte de verdade e o outro argumento rejeitando a cultura [produzida pela sociedade] nesse papel, mas este último acaba sendo vítima de sua própria hipótese, pois se, de um lado, rejeita a pressão da cultura sobre a busca da identidade de gênero e orientação sexual, acaba sendo fruto da própria semeadura do imperativo da cultura sobre as opiniões, pois na verdade o articulista nada mais faz do que buscar comprovação do que é culturalmente hoje disseminado.

Além disso, essas duas hipóteses são fruto do imperativo da autonomia humana semeada pela chamada pós-modernidade (hipermodernidade), que elimina qualquer princípio ético que possa ser aceito como universal de modo a sustentar a sobrevivência de todos por meio de valores éticos mínimos. Assim, vivemos num mundo em que cada um faz o que quer e o pior, o que seu coração e seus impulsos irresistivelmente ordenam. O resultado disso já é perceptível ao observarmos a banalização da sexualidade que acaba sendo reduzida à mera satisfação de impulsos imediatistas e deixa de ser parte constituinte de relacionamento histórico e íntimo durável. A sexualidade se banalizou. O mesmo pode-se dizer a respeito do aumento da violência e de sua sofisticação. Esses dois exemplos indicam o imperativo da vontade própria e autônoma em busca da satisfação pessoal imediata, custe o que custar.

Se o uso desses estratagemas continuarem, logo teremos a defesa da pedofilia, da poligamia, do homicídio. Onde vamos parar? Qual será o limite?

Lourenço Stélio Rega é teólogo, eticista e educador. Diretor da faculdade Teológica Batista de São Paulo. Mestre em Teologia e em Educação e doutor em Ciências da Religião