Esquecemos o céu?

Líderes, pastores e pregadores estão silenciando os púlpitos com a mensagem sobre o céu. Por que nas igrejas se fala tão pouco sobre a eternidade? Para onde caminhamos?

O empresário Roberto estava numa aula de Cálculo, nos Estados Unidos, quando olhou o relógio do colega coreano ao lado e logo lhe avisou que o aparelho estava adiantado uma hora. A resposta do estudante oriental foi surpreendente. “Na verdade está adiantado 13 horas, porque este é o horário de Seul, minha casa”, afirmou, demonstrando estar mentalmente ligado às coisas de seu país. Ele morava nos EUA temporariamente, mas estava ansioso para voltar à sua terra natal, sua casa, seu lar. É isso que Paulo, em Colossenses 3:2, também nos ensina: devemos acertar o nosso “relógio” com o horário lá do céu, pensando nas coisas de lá, acumulando riquezas lá, desejando intensamente chegar lá.

Essa mensagem primitiva a respeito da importância de se pensar na nossa “última morada” passou por várias transformações, chegando a ser assunto quase que exclusivo dos púlpitos até aproximadamente os anos 1960, a ponto de se ignorar as necessidades da vida terrena do cristão. De um extremo ao outro, o céu, nas últimas décadas, não só deixou de ser o tema central no meio eclesiástico, como também sofreu uma espécie de ruptura. Parece que não há mais lugar para ele na Igreja contemporânea. Quase não se fala nem se cantam hinos como “Céu, Lindo Céu”.

Se a eternidade com Deus é algo de tirar o fôlego, se não podemos perceber sua dimensão usando os cinco sentidos, se vamos viver perpetuamente nos céus, por que falamos tão pouco sobre o paraíso celestial? Por que são raras as igrejas que anunciam a vida futura do crente? O que há no plano terreno mais forte que a promessa da pere­nidade com Deus? Por que os “terráqueos” de agora não pensam mais sobre o lugar onde o tempo não passa, onde as pessoas não enve­lhecem e onde não existem morte e dor?

“Dada a ênfase dos púlpitos de hoje, até parece que nós vamos viver eternamente aqui. Nós vamos.” – Roberto Oliveira Costa, empresário e presbítero da igreja Presbiteriana

Roberto Oliveira, o empresário brasileiro que estava na aula de Cálculo com o colega coreano em território norte-americano, também hoje presbítero no Paraná, questiona: “Dada a atual ênfase dos púlpitos em como viver a vida cristã (o que é válido), até parece que nós vamos estar eternamente aqui. Não vamos. Nossa vida aqui é muito curta, é só preparatória para a eternidade nos céus. Se vamos viver eternamente nos céus, por que falamos tão pouco de lá? Como vamos ‘acumular tesouros nos céus’ se não focamos aquela existência para parametrizar a atual aqui e agora?”.

O termo “céu” aparece 583 vezes nas Escrituras nos seus diversos sentidos, e isso sem considerar outras referências como as “moradas” da casa do Pai. Desde a revelação no Pentateuco, registrada por Moisés, até as últimas palavras de Apocalipse, surge de forma muito concreta nas Escrituras. Mateus era um cobrador de impostos, ativi­dade bem terrena, mas só no livro desse apóstolo a realidade dos céus é mencionada 76 vezes pelo próprio Jesus. Aquele que “veio dos céus” fala sobre essa nova esfera de realidade, dando a ênfase de viver esta vida aqui desde a perspectiva da vida lá. Mesmo assim, a Igreja que Ele mesmo fundou parece lutar para não perder a esperança ou o senso de entendimento de que este deve ser o alvo sua caminhada.

“Não existe ‘lugar’ para o céu no paradigma da igreja contemporânea. Seu ensino e sua pregação focam o homem aqui e agora” – Lécio Dornas, pastor Batista

A resposta para a ausência de ensino específico sobre o que nos espera em breve vem do pastor batista Lécio Dornas, que vive em Windermere, nos EUA. “O alvo é melhorar, o quanto possível, o aqui e o agora. Com o púlpito comprometido com o pragmatismo imposto pela conjuntura socioideológica vigente, com a psicologia aplicada, com o oferecimento insistente de fórmulas e passos para tornar a vida aqui e agora mais prazerosa e confortável, a hermenêutica e a exegese bíblicas foram definitivamente jogadas às traças, e os holo­fotes vigorosamente ficaram acesos e focados nas ‘respostas’ da Bíblia para os problemas do dia a dia do homem secularizado de hoje e, naturalmente, desfocados de suas perguntas”, explica.

Por outro lado, enquanto pregadores e líderes muitas vezes “desprezam” essa temática, a professora aposen­tada Rita de Cássia Crevatin, de São Bernardo do Campo, São Paulo, faz uma pergunta que ela mesma responde, com uma dose especial de esperança nas palavras: “Vida eterna? Será que a vida eterna só começa depois da morte física? Tudo isso é maravi­lhoso, é um grande mistério para mim. Envolve muito mais do que eu possa imaginar. Penso que, como nascemos e nada sabemos do antes, assim também isso tudo fica nos muitos segredos da vida que Deus nos prepara”.

O COQUETEL

Existe hoje uma espécie de “coquetel” constituído por três ingre­dientes nocivos à fé cristã: secularização, analfabetismo bíblico e ausência de temor. A Igreja contemporânea está enferma, entorpecida por essa combinação. Não existe “lugar” para o céu nesse contexto. Seu ensino e sua pregação focam o homem de uma maneira imediatista. Por mais triste que seja, a constatação é que o povo de Deus não recebe mais hoje o que “diz o Senhor”, mas sim as falácias dos profetas engolidos pelo mundo.

Lécio Dornas aponta para uma outra lacuna. “Por saber pouco ou quase nada acerca do que está por vir, por ignorar a natureza, função e finalidade da vida eterna, a Igreja encanta-se facilmente pelos sedu­tores do homem de hoje e de sempre: prazer, poder e riquezas. O encantamento converte-se em paixão e faz os filhos da luz terem os mesmos sonhos e propósitos daqueles que jazem nas trevas, sem Deus e sem perdão.”

O pastor André Vieira, da Igreja Assembleia (ES), diz que muitos pregadores omitem o céu em suas mensagens porque focalizam bens terrenos, esquecendo-se de que aqui somos peregrinos e forasteiros e que nossa pátria está nos céus” (Filipenses 3.2). Para ele, o materialismo tem afastado o homem do centro da vontade de Deus. “O céu é real e precisamos pensar mais nele.

Roberto defende que a vida aqui é para ser vivida “em toda a sua plenitude” (João 10:10), mas isso pode não signi­ficar vida prazerosa. “Pelo contrário, vários versículos nos estimulam ao sacrifício e nos avisam de que teremos tribulações. Essa é a realidade da vida cristã. A Igreja primitiva (e muitas hoje) sofreu perseguições terrí­veis por causa de sua fé, mas se manteve firme. Portanto, fórmulas pseudobíblicas de vida mais prazerosa usadas para seduzir fiéis não fazem nenhum sentido. Os cristãos primitivos enfrentaram agruras aqui para desfrutar um céu prazeroso, e não contrário.

Essas seduções mentirosas são artimanha do inimigo para nos fazer viver para o aqui e o agora, e não para a eternidade com Deus.”  O norte-americano Randy Alcorn descreve, na eletrizante saga do seu livro “Heaven”, o céu como um lugar cheio de luz e paisagens paradisíacas, onde vamos ter experiências fantásticas, corpos atlé­ticos capazes de passar por portas sem abri-las (como Jesus) e mentes prodi­giosas. Em todo o tempo, detalha, haverá novidades vindas do próprio Deus. “As flores não murcham, a grama não morre, o céu azul não tem poluição, pessoas vivem a sorrir e alegres, sem raiva, não deprimidas ou vazias.” Essa obra vai ao encontro do que diz a Bíblia nos trechos que ressaltam um lugar de glória e alegria jamais experimentadas pelo homem, onde todas as lágrimas serão enxugadas e toda dor, tristeza e sofrimento serão eliminados para sempre.

Alguns acham que crer nesse destino é algo ingênuo e sem sentido. Porém, na reve­lação do Apocalipse a João, encontramos o Senhor Jesus Cristo convidando o apóstolo a subir e a entrar pela porta no céu para ver o que o Senhor lhe mostraria (Ap 4:1). Na experiência, ele é arrebatado em espírito, vislumbrando o trono divino, o Cordeiro, a multidão dos salvos e tantas outras coisas. Conforme os ensinamentos bíblicos, não há dúvida de que se trata da morada de Deus e de todos os que receberam a promessa da vida eterna por Jesus Cristo, para que por meio do Filho fôssemos reconciliados com o Pai. Toda dor, angústia ou sofrimento em nome de Jesus devem ser considerados um privilégio, pois a nossa morada eterna não poderá ser compa­rada com nada que aqui conhecermos.

 O SILÊNCIO

Quando o relógio marca o início do culto, o pregador toma seu lugar à frente e ao microfone transmite o recado de Deus. Mas o que a igreja ouve nem sempre corresponde à esperança trazida por Aquele que deixou Sua mensagem com os discípulos – “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Vou preparar-vos lugar. Vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também” (João 14:2,3). “Esse silêncio sobre o céu atinge os púlpitos evangélicos do Brasil deste início de século 21, mas não se restringe a esse assunto.

Abraça também o pecado, o juízo, a santificação, o testemunho, o jejum, a confissão e outros temas que também andam escassos na Igreja do nosso tempo”, explica Lécio Dornas. “Há espe­rança? Com certeza! Só depende de os homens e mulheres chamados pelo Altíssimo para a tarefa ‘kerigmática’ (vocábulo grego para proclamação do Evangelho) se quebrantarem e, com humildade e urgência, retornarem à exposição da Bíblia a partir de uma hermenêutica sã (interpretação dos textos, do sentido das palavras), reassumindo a postura profé­tica, recuperando a credibilidade e o respeito para dizer, como o fizeram os profetas do passado: ‘Assim diz o Senhor’. E a Igreja cantará outra vez o ‘Maranata’ (expressão aramaica para ‘Vem Senhor!’.”

Autoridade reconhecida sobre o juda­ísmo, o renomado palestrante e rabino Bentzion Kravitz diz que a religião da qual é um representante gira mais em torno da vida presente do que da vida após a morte. Ainda assim, ele observa: “No céu a alma vivencia o maior prazer possível – ela obtém um entendimento mais amplo e se sente mais próxima de Deus do que antes”.  Biblicamente, fé somente para as coisas deste mundo nos faria os mais miseráveis dos homens(1 Coríntios 15:19). Por isso, Roberto acredita que a raridade de ensino sobre o paraíso celestial contrasta com a abundância de abordagem sobre o tema nas Escrituras, uma discrepância de equívoco gritante. “Duas são as principais razões para isso: o trabalho do inimigo, que batalha ferozmente para não termos nenhum interesse na maravilha do nosso futuro (Apocalipse 13:6), e o pouco desenvolvimento da teologia do céu após a Reforma”, indica.

QUEM VAI MORAR NO CÉU?

Além do próprio Deus, Seus anjos e arcanjos, teremos pessoas que foram ladrões, adúlteros, mentirosos, assassinos, ganan­ciosos e imundos de toda sorte de impurezas e que “lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro: Jesus” (Apocalipse 7:14). “Felizes as pessoas que lavam as suas roupas, pois assim terão o direito de comer a fruta da árvore da vida e de entrar na cidade pelos seus portões” (Apocalipse 22:14). Como as Escrituras deixam bem claro, isso acontece somente pela graça de Deus mediante a fé, e não baseado nos méritos inexistentes de algum ser humano. É pura graça de Deus. Jesus fez isso na cruz de maneira cabal para todos aqueles que nEle creem.

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