Escola Bíblica: falta de tempo afasta membros

A correria e o cansaço do dia a dia têm cada vez mais reduzido o número de pessoas que frequentam as aulas. Foi o que constatou a Pesquisa Comunhão 2014.

O movimento para atrair membros à Escola Bíblica (EB) é constante nas igrejas. A Pesquisa Comunhão 2014 mostra que 64,1% dos entrevistados disseram frequentar essa atividade semanal, e 35,9% admitiram não comparecer. Pelo visto, incentivar a membrezia a participar dessas aulas tem sido uma tarefa árdua. Dos que não vão, 60% alegam falta de tempo, outros 16,7% falta de adequação com o horário, e 14,8% relatam não ter Escola Bíblica em suas igrejas. A maioria (57,1%) avalia a EB da sua igreja como ótima, 39,1% como boa, e 2,6% como regular. Quem a frequenta o faz por conta da educação cristã (49,6%), pelo crescimento espiritual (24,5%) e pela comunhão (12,2%).  Assim pensa a cabeleireira Luciane Ferreira Rodrigues, da Igreja Batista de Jardim América, Cariacica, que está entre o percentual dos que vão à EB assiduamente. Ela disse que tal disposição está ligada à necessidade de crescimento espiritual. “Ao fazermos a leitura da Palavra sozinho nem sempre conseguimos entender o que Deus quer dizer. Na Escola Bíblica é o momento de tirar todas as dúvidas e aprender mais”, conta. Mas a mudança de horário para as 18 horas contribui muito para que possa estar presente também, porque pela manhã seria complicado devido aos afazeres de casa. “Participo da Escola Bíblica e depois continuo na igreja para culto”, ressalta.

Entre os motivos apresentados por quem deixou de participar, como o arte-finalista Fábio Barbosa, está a falta de engajamento dos membros nas questões mais polêmicas. “As pessoas não costumam gostar de ouvir a verdade e é o que só ouvimos na Escola Bíblica. Fiquei triste em ver algumas pessoas sabotando as aulas. Acredito que devem existir mudanças na metodologia, principalmente para os jovens, mas mudar horários, dias? Não sei! É da natureza humana dificultar algo que julgamos menos importante. O que nos resta é colocar Deus no topo de prioridades em nossas vidas e ver a Escola Bíblica com os olhos espirituais”, destacou. Vice-presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ) no Espírito Santo, o reverendo Wesley Coutinho acredita que o percentual de quem frequenta assiduamente a escola pode ser ainda menor do que o apresentado pela pesquisa. “Em nossas igrejas a média é de 30% a 40% dos membros presentes na Escola Bíblica. As pessoas reclamam porque querem comodidade. Estamos no horário de verão e alegam que é muito cedo, que domingo é dia de descansar, mas esquecem que Jesus disse para que primeiro busquemos o reino de Deus e que as demais coisas serão acrescentadas. As pessoas têm disposição de levantar às 6 horas para ir à praia, mas não têm coragem de levantar às 7 ou 8 horas para ir à Escola Bíblica Dominical”, ressalta.
Para ele, as lideranças também são responsáveis pela redução dos membros, porque muitos deles também não participam das aulas. “É inadmissível um pastor ou líder de ministério não participar de Escola Bíblica. Como alguém pode cobrar se ele mesmo não comparece? Também não sou a favor de mudança de horário para a tarde, porque vão deixar de ir ao culto alegando que estão cansados da aula de Escola Bíblica, que foi antes. Então corremos o risco de diminuir o número de membros no culto à noite. Dá para todo mundo ir à Escola Bíblica de manhã e depois ir à praia”, afirmou.

Iniciativa
A Primeira Igreja Batista de Jardim Camburi, Vitória, promoveu mudanças exatamente para atrair o público. A Escola Bíblica foi adptada para cursos com o objetivo de tentar atender às necessidades dos seus membros, driblando essa falta de tempo.
O resultado foi a manutenção do número de fiéis, evitando que mais pessoas deixassem de frequentar a igreja. “Trabalhamos com estudos bíblicos de temas variados, desde ética cristã até noivos, casados, gestantes, capacitação de lideranças e voltados para a juventude. Todos são realizados em horários diversos, tudo para tentar driblar a questão da falta de tempo, a dificuldade das pessoas que dispõem de pouco tempo”, explicou a coordenadora do Ministério de Ensino, Vanessa Muricy. Ela disse que as mudanças foram implementadas gradativamente, há quatro anos. “A cada passo que dávamos e percebíamos que funcionava, fazíamos uma nova mudança, até que chegamos aonde estamos. Nosso objetivo é de que pelo uma vez por ano todos os membros façam um curso”, destacou.

Autor do livro “Pedagogia da Transformação”, o pastor Altair Germano congrega na Igreja Assembleia de Deus e acredita que, se as perguntas da pesquisa também fossem feitas por pastores, superintendentes ou professores de Escola Bíblica aos ex-alunos ou alunos em potencial, muita coisa boa poderia acontecer. Para ele,  na verdade, os membros não acham as aulas tão boas como expressaram na pesquisa. “Digo, sem medo de errar, que em nome do argumento equivocado da não remoção dos marcos antigos, muitas Escolas Bíblicas caminham de mal a pior. Muitos líderes insistem na ideia de que o aluno sempre tem que se adequar à Escola Bíblica Dominical (horário, dia, estrutura, etc.), e nunca a Escola Bíblica se adequar ao aluno. Mudar o próprio dia da Escola Bíblica Dominical,  ou criar dias alternativos além do domingo, é para muitos um “sacrilégio”, uma “blasfêmia”, um “pecado”, mas nunca tentam fazer, pelo menos, como uma experiência, para ver se haverá um resultado satisfatório. Inovar na prática docente e pedagógica é outro grande desafio. Boa parte dos alunos, principalmente crianças, adolescentes e jovens, passa a semana experimentando aulas interessantes e inovadoras em suas escolas, para no domingo sofrer diante de um professor despreparado, fossilizado e mumificado, que parou no tempo e no espaço. De quem é a culpa? Do professor que não busca a qualificação, ou da escola que não investe nele?”, declara.

Ele milita por uma Escola Bíblica Inclusiva, que não apenas convide as pessoas para serem alunos, mas dê a elas condições necessárias para que tenham o acesso garantido e nela se mantenham.  “A Escola Dominical nos novos tempos precisa perceber os excluídos como gente que foi salva por Jesus, que também precisam do acesso a uma educação cristã de qualidade, que lhes proporcione o crescimento na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2 Pe 3.18)”, explica. Germano acrescenta que é preciso orar e buscar na ajuda divina a direção, a sabedoria e a provisão. No entanto, ressalta, Deus não tem que fazer tudo pelos homens. É preciso interesse e empenho em melhorar para se buscar métodos que aprimorem aquilo que é feito para Deus.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita. 
Compartilhe