Escola Bíblica em crise

Como enfrentar o “esvaziamento” que assola essa ferramenta tão importante no desenvolvimento da vida cristã?

Ensinar a Palavra de Deus aos Seus filhos e promover o despertamento para o serviço cristão para honra e glória do Pai.  Com esses objetivos, a Escola Bíblica, atuante no Brasil desde a fundação da primeira Igreja evangélica no país, no século XIX, está presente na maioria dos templos aos domingos pela manhã. Seja ensinando os membros a viverem segundo princípios bíblicos, dando suporte aos novos convertidos e aos antigos membros sobre o estudo da Bíblia ou preparando o cristão acerca do Ide, a Escola Bíblica responde pela transmissão, geração após geração, do conhecimento das Escrituras.  Adquirindo um aspecto cada vez mais especializado, ganhou nas diferentes denominações literaturas customizadas e conteúdo bíblico específico para determinadas faixas etárias.

Contudo, suas transformações através dos tempos para se adequar à sociedade impõem a cobrança de um alto preço. As mudanças sociais nas últimas décadas impactaram a Igreja e, consequentemente, a Escola Bíblica. Da conquista do mercado de trabalho pela mulher, passando pela quantidade de atividades e distrações contemporâneas, e finalmente chegando à queda no currículo apresentado, as mudanças que o mundo moderno está vivendo acabaram por esvaziar as Escolas Bíblicas (EBs).

A superficialidade na forma com que as EBs podem estar sendo conduzidas no país resulta em uma crise, com queda da qualidade do que é passado e aprendido? Como encontrar uma nova maneira de se transmitir um conteúdo tão essencial? Para o pastor Sócrates de Oliveira, diretor-executivo da Convenção Batista Brasileira, a Escola Bíblica é uma das mais eficazes estratégias de crescimento cristão, já que leva o participante a fazer o estudo da Bíblia de forma sistematizada. De acordo com ele, tem havido uma falta de compreensão de muitos líderes sobre a questão de desenvolvimento cristão. “Isso pode ser percebido claramente na falta de conhecimento da Bíblia que muitos da atual geração têm: exatamente por não estarem participando de um programa de estudo sistematizado da Bíblia. O que tem acontecido é que muitas igrejas deixaram de lado a EB, mas não colocaram nada em seu lugar que seja eficiente em termos de estudos bíblicos. O esvaziamento da EB hoje é fruto desse equívoco”, enfatizou.

O pastor César Moisés, chefe de Educação Cristã da CPAD, tem 15 anos de experiência em Escola Bíblica, somados os períodos em que foi professor e superintendente, até iniciar o tempo em que ministrou cursos de formação, reciclagem e aperfeiçoamento de professores e gestores de EB. Para ele, o “esvaziamento” é sintomático. “Depende do contexto, da denominação e de como funciona a Escola Dominical. Na maioria das vezes, o ‘esvaziamento’ é efeito ou sinal de que algo bem mais sério está acontecendo.

Com a carga de informação que a pessoa recebe diariamente, um ensino pífio ou superficial não poderá impedir que a mentalidade da pessoa seja formada ou que se transforme”, enfatizou. Para o pastor Heleénder de Oliveira, da Igreja Evangélica Batista de Vitória, a crise é localizada e relacionada a uma falha no planejamento. “É algo presente em congregações incapazes de introduzir ações que possibilitem promover a contento o processo de ensino/aprendizagem das Sagradas Escrituras. Mas, acredito que nos locais onde está havendo um esvaziamento da EB, deva haver inexistência de planejamento, ausência de ações inovadoras e, sobretudo, falta de investimento em estrutura física e qualificação do corpo docente”, frisou ele.

Currículo e exemplos que deram certo

Com a situação de esvaziamento sendo uma realidade nas EBs, o que as igrejas podem fazer para ampliar o ensino bíblico? Mexer no conteúdo, alterar horário e até o dia (deixando, por exemplo, de ser dominical) da Escola podem ser soluções?

Para o pastor César Moisés, da CPAD, a Escola Dominical existe por causa dos alunos, e não o contrário. “Não é o aluno que tem de se adaptar a ela, e sim o oposto! Se ela ocorrer outro dia, não há necessidade nem de mudar o adjetivo ‘dominical’, pois este, como explico em minha obra ‘Marketing para a Escola Dominical’, vem do correspondente substantivo “dominus” que significa “Senhor” (p.247), logo, a Escola Dominical não deve ter esse título por ser no domingo e sim por ser do Senhor! Isso muda toda a dinâmica e a visão da EBD. Existem coisas ou instituições bem mais antigas e tradicionais que a EBD e ninguém está pensando em substituí-las simplesmente por isso. A questão é que a Escola Dominical é um grande programa que normalmente é mal praticado. O tom de sacralidade que alguns dão às coisas às vezes torna-se um prejuízo. Escola é escola, não culto. Assim, as crianças devem aprender da mesma forma que brincam e os adultos e jovens da mesma maneira com que se distraem informalmente. Há pessoas que confundem seriedade com tortura e aprendizagem com enrijecimento”, falou.

O pastor Sócrates Oliveira afirma que o homem parece rejeitar tudo o que é tradicional, mas  é preciso lembrar que nada é tão tradicional como a Bíblia. “Precisamos buscar alternativas que atendam às expectativas da nova geração, mas sem abandonar o programa de formação cristã através do estudo bíblico.

Não podemos e nem devemos ter medo das mudanças, mas fazer as mudanças necessárias sem perder o conteúdo. Precisamos até mesmo adotar muitas vezes um vocabulário novo, para que a compreensão seja perfeita”, explicou. De acordo com Oliveira, a forma de se analisar o ensino precisa mudar. “Se temos um conteúdo de qualidade, é preciso que a forma de transmitir acompanhe essa qualidade. Temos que ser realmente criativos. Há algum tempo eu resolvi na minha igreja substituir a expressão ‘abra a sua Bíblia’ por ‘acesse a sua Biblia’. E o resultado foi imediato: todos os que não levavam um exemplar em papel da Bíblia passaram a fazer as leituras dos textos bíblicos em seus equipamentos tais como telefone e tablets. Com isso, temos hoje um grupo significativo, que acompanha todos os textos bíblicos durante o culto usando esses equipamentos. E estão ampliando a leitura da Bíblia”, frisou.

A coordenadora do Ministério de Educação Cristã da Convenção Batista do Espírito Santo (Mecri), Penha Azevedo, acredita que o mundo esta mudando e as formas de atuação das Escolas Bíblicas devem evoluir e se adaptar às mudanças. “A reunião formal na igreja em um dia da semana é apenas uma maneira de se fazer Escolas Bíblicas. Hoje, muitas outras técnicas e ferramentas estão sendo utilizadas para o ensino da Bíblia. As redes sociais são instrumentos e podem ser utilizadas como meio de atuação das Escolas Bíblicas junto aos jovens da geração da internet. Os núcleos familiares também são outras formas de atuação das Escolas Bíblicas”, disse.

Daniel Dias, superintendente da Escola Bíblica Dominical da Assembleia de Deus em Barcelona, na Serra, acredita que a EBD deixou de ser tratada com a devida importância e que é essa visão que precisa mudar. “Jesus deixou-nos a missão não apenas de ganhar almas, mas também de ensiná-las a guardar Seus mandamentos (Mt 28.19,20). O que tem ocorrido é que o ensino bíblico de modo geral deixou de ser prioridade em muitas igrejas e a Escola Bíblica é diretamente afetada por isso. Para ficar em um único exemplo, basta olharmos para o ‘marketing’ que é feito para os cultos de domingo ou campanhas. O anúncio da Escola Bíblica, quando existe, é feito ao final do culto junto com outros tantos avisos. É fato que a igreja precisa se movimentar para tornar o estudo da Palavra de Deus algo comum na vida do cristão, e as estratégias para isso podem passar por alteração de horário, dia e local são alguns exemplos. Porém, acredito que a melhor tática seja investir na qualidade do ensino”, destacou.

Daniel acredita que criatividade e ensino podem caminhar juntos na educação religiosa. “O uso de pensamentos e ideias através de analogias e metáforas, o incentivo aos alunos para usar a imaginação com hipóteses, a utilização de recursos como vídeos, músicas, livros, jornais, apresentações em Power Point e outros objetos, com intuito de reforçar o que está sendo ensinado. A realização de mesas-redondas, encontros nas salas de aula e fora delas. Enfim, é possível e necessário usar a criatividade para ganhar e manter o interesse dos alunos pelo aprendizado da Palavra de Deus”, falou ele.

A formação de novos professores

Investimentos na qualidade do ensino bíblico geram professores capacitados e inspirados e alunos motivados. E é algo que tem continuidade, uma vez que no futuro esses alunos se tornam os professores da geração seguinte. É o que aconteceu com Daniel, que foi aluno, professor e hoje superintendente de EB. No que se refere à qualidade dos professores, ele diz que a maioria deles possui um grande conhecimento bíblico, porém falta a didática do ensino e isso tem um peso muito grande tanto na educação como no interesse pela Escola Bíblica. “A qualidade no ensino, com isso, acaba sendo prejudicada. É comum vermos professores, que são excelentes pregadores, usarem a sala de aula como um púlpito. Não deixa de ser uma forma de transmitir a verdade, porém fica muito aquém dos ganhos proporcionados por uma verdadeira aula”, refletiu.

Para Penha Azevedo, nada substitui a figura e o papel do professor. “Ele é fundamental para fazer do estudo da Bíblia um momento prazeroso e criativo. Vale a pena ressaltar que o conhecimento do conteúdo e o testemunho de vida são fatores primordiais para autoridade daquele que ensina. Quem comissiona e capacita é Cristo. Os professores, de ontem ou de hoje, precisam antes de tudo buscar uma experiência genuína com Ele”, apontou.

O pastor Sócrates Oliveira vê como fundamental o investimento na formação dessa liderança na Escola Bíblica. “É preciso usar tempo preparando professores para essa tarefa de ensino bíblico. Não estou falando de cursos de Teologia ou de Educação Religiosa, e sim de Formação de Líderes para ensinar a Bíblia. Grande parte do desencanto dos alunos da EBD está na forma como muitos professores ensinam. Não é possível ter um professor que repete o texto de uma revista, para isso não precisa de professor. Faz-se necessário o uso de recursos mais eficientes, de estratégias atraentes, de uma forma mais interativa entre o líder e o liderado”, enfatizou ele.

O futuro da Escola Bíblica

A Escola Bíblica vai continuar existindo, com este ou com outro nome, pois sem estudo bíblico não existe Igreja. É essa a previsão que o diretor-executivo da CBB, pastor Sócrates, faz a respeito do futuro das EBs no país. “Creio que talvez o sistema de grupo de estudo por faixa etária deva ser restruturado por um sistema de grupos de interesse, sem perder a dinâmica de estudar toda a Bíblia durante um determinado período. O grande desafio é aplicar todos os meios atuais de comunicação e as dinâmicas para levar todos a estudarem a Bíblia”, disse.

Já o pastor César Moisés acredita que o futuro da EB depende de como se é praticado o programa de Educação Cristã da igreja local. “Ela valoriza o ensino? Valorizar significa investir. Se isso for uma realidade, a Escola Dominical enfrentará somente aqueles desafios gerais que todo o mundo enfrenta: mudanças rápidas em um tempo em que as coisas já saem com o prazo de validade vencido. Do contrário ela ficará respondendo a perguntas que as pessoas já não mais fazem, correndo o risco de tornar-se uma forte candidata à extinção. Tudo depende de quem faz e é a EBD: líderes, gestores, professores e alunos”, analisou.

Um instrumento da igreja para o desenvolvimento do cristão, a ferramenta capaz de integrar departamentos, com ensino de valores morais e éticos à luz da Bíblia, esclarecimento de dúvidas que abalam a fé e combate a hábitos mundanos que afastam o cristão do único e verdadeiro caminho. Essas são apenas são alguns exemplos de como Escola Bíblica contribui para a formação do caráter cristão. Para os especialistas, independentes da denominação, o que fica é a opinião de que a Escola Bíblica é o ambiente propício para que toda a família estude a Palavra de Deus e cresça no Seu Reino.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita

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