Novelas: entretenimento ou apologia ao mal?

Cenas de novelas exibidas pela TV nos últimos anos têm preocupado líderes religiosos que rejeitam as apologias contra os princípios cristãos. Eles temem que o drama passe da ficção para a realidade

A postura da TV brasileira em tentar se aproximar da população para comunicar, por meio da ficção da teledramaturgia, o que ocorre na vida real de milhares de famílias e da própria cidade nunca gerou tanta polêmica, confusão e – por que não dizer – divisão nos lares. A grande preocupação tem sido quando o caminho é inverso, ou seja, quando a ficção vira realidade.

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As emissoras têm sido alvo de acusações por fazer, supostamente, apologia ao delito, ao adultério, aos jogos e ao tráfico de drogas e a promoção da ideologia de gênero, principalmente nas novelas exibidas de segunda a sexta-feira, além da glamourização do crime, levando telespectadores a idolatrar o bandido que é bem-sucedido.

A discussão está nas rodas de conversa, nas redes sociais e nas instituições educacionais e religiosas. As tramas “invadem” um espaço em que podem estar presentes pessoas de todas as faixas etárias: dentro de casa. E parece estar dando certo. A emissora líder no mercado fala todos os dias com mais de 100 milhões de brasileiros. Isso significa que, no prazo de um mês, alcança o Brasil inteiro. Seria legítima e sensata a adoção por parte da Igreja de uma postura de enfrentamento à imposição da mídia sobre as famílias? Deve-se rebater, por exemplo, a caracterização estereotipada de cristãos conservadores como machistas e preconceituosos?

Josenildo-Muller
“A luz não prevalece pelo embate com
as trevas, mas simplesmente brilhando” Josenildo Muller, pastor

Pastor e missionário em campo transcultural da Agência Sepal e coordenador do Actos Network, Josenildo Muller alerta que a Igreja não deve se iludir. “A TV é um meio de comunicação que vive de vender produtos, seus e dos outros, e para tal precisa de audiência. Essa é uma regra simples e vale para qualquer negócio. Dessa forma, a TV, precisando alcançar e atrair seu público, desenha seus programas com base em premissas comerciais em que vale tudo para atingir metas. As apologias estão intrínsecas na estratégia comercial e, é lógico, mescladas com ideologias e valores daqueles que fazem a gestão das emissoras.”

Há quem diga que a verdade está aprisionada e que a Igreja sente-se acuada diante da quase obrigação de pensar como eles ou de não confrontá-los. Para Muller, essa é uma teoria oriunda da síndrome do caos generalizado que se estabeleceu no meio evangélico e serve para justificar a sua pouca relevância social. Ele ensina que o confronto é uma arma que não funciona.

“Quando Jesus esteve aqui, viveu num contexto extremamente corrompido e profundamente antagônico aos valores que hoje chamamos de cristãos. Entretanto, Ele não fez manifestação contra Roma e seu sistema nem questionou nenhuma corrente de influência da época. O que Ele fez? Ele era a Luz do mundo e viveu como tal! E foi exatamente isso o que instruiu aos Seus discípulos: “Vocês são a Luz do mundo – uma cidade sobre um monte, brilhando durante a noite para ser vista por todos. Não escondam a Luz de vocês!” (Mt 5:14-16).

Fisicamente, a luz não é engolida pelas trevas, mas o contrário. Se as trevas prevalecem, não é mérito delas, mas da deficiência da luz. Como disse o poeta: “Quando cala a luz, fala a escuridão”. A luz não prevalece pelo embate com as trevas, mas simplesmente brilhando.

Depois de testemunhar em 10 países da América do Sul e 16 da África, Muller está convicto de que o segredo é sempre o mesmo: ter a postura de Cristo. “Na verdade, Jesus confrontou, sim, e duramente, aqueles que deveriam brilhar, mas não brilhavam: os religiosos. Em síntese, não adianta fazer manifesto contra qualquer emissora de TV ou outra influência das trevas. Não se calam as trevas pelo antagonismo ideológico, mas simplesmente brilhando para influenciar os que nelas estão”, observa.

educacao-infantilA inutilidade do confronto

A falta de diálogo, a intolerância religiosa e o preconceito tornam o cristão um estranho no meio secular. É por isso que o pastor Tiago Lopes, da Igreja Batista de Campo Grande, em Cariacica (ES), estimula o debate, e não o confronto direto: “Precisamos em todo ambiente (escolas, igrejas, faculdades, associações comunitárias…) promover o debate saudável. Não há ser humano no mundo que detenha todo o conhecimento. Precisamos aprender uns com os outros.”

Essa tese do diálogo faz sentido quando se considera o avanço das cenas polêmicas transmitidas pela TV brasileira que nunca se renderam ao confronto. Antes dos anos 1970,  a televisão já mostrava um retrato aproximado da população do nosso país, incluindo nos roteiros as favelas, os subúrbios e os pequenos bairros e cidades de interior. “Beto Rockfeller” foi uma telenovela nacional produzida pela Rede Tupi e exibida em 1969, às 20 horas. Foi criada por Cassiano Gabus Mendes. De lá para cá, os folhetins vêm ganhando requintes de realismo, o que divide opiniões e, em alguns casos, choca o país.

Em 2017, uma novela reuniu em seu enredo diversos problemas sociais. Vício em jogo, adultério, transexualismo e dia a dia da Polícia Militar. Mesmo em meio a tanta polêmica, um assunto causou muita controvérsia: a relação de um casal formado por um traficante e uma estudante de Direito. Inicialmente apresentada como uma mulher honesta, a personagem acaba tomando providências ilegais para proteger o marido contra os problemas com a polícia e a Justiça.  Dentre elas, abriu mão de morar em sua casa para se refugiar na favela e colocou fogo no restaurante em que o companheiro trabalhou para destruir as provas contra ele que seriam encontradas no computador da empresa, o que tempos depois a levou para a prisão.

Antes de a protagonista se arrepender e retomar o trabalho honesto, seus pequenos encantamentos com o mundo da marginalidade resultaram em uma “dona do morro” deslumbrada, deitada em uma pilha de milhões reais, tirando fotos. Ao “nadar” no dinheiro, fez um paralelo com a glamourização do crime na vida real. A cena causou muita controvérsia quando foi ao ar, gerando diversos questionamentos à autora acerca da apologia ao crime.

O pastor Tiago afirma que “a Igreja não tem o direito de proibir seus membros de assistir ao que quer que seja, porém, tem o dever de adverti-la, exortá-la em amor e expor aquilo que vem como mensagem contrária ao que cremos, ensinando a examinar e reter o que é bom (I Ts 5:21) e alertar para que compare o que está sendo anunciado com o que diz a Palavra de Deus (At 17:10-11)”.

Mãe de três filhas, a empresária Vânia Oliveira conta como age dentro de casa. “Sem querer ter um parâmetro moralista, o que vemos na TV influencia a nossa visão e a maneira de pensar. Houve uma decadência muito grande na qualidade dos filmes e novelas. Minha premissa sempre foi remir o tempo, e a TV não é a melhor opção”, diz.

Em meio a esse embate, dois nomes são reconhecidos nacionalmente como principais opositores aos avanços de ideologias consideradas contrárias à família: os pastores Marcos Feliciano, que classificou novela como “curso para bandido” em um vídeo na sua página de Facebook, e Silas Malafaia, que denuncia diariamente o que classifica como campanha de degradação dos lares brasileiros.

Fontes: Redação Comunhão
O silêncio dos bons

A preocupação com conteúdo impróprio entrando nos lares pelas telas da TV levou o pastor Tiago Lopes a defender que a Igreja se posicione diante dessa ameaça. Ele acredita que o cristão disposto a viver para glorificar a Deus (1 Co 10:31), abstendo-se daquilo que não convém ou que não edifica (1 Co 10:23), não deve também se furtar do dever de se posicionar.

“Faço minhas as palavras de Martin Luther King: ‘O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons’. Precisamos assumir uma postura, levantar a voz e exclamar que não vamos engolir qualquer coisa oferecida pela mídia. Não por força ou violência, mas porque todos temos o direito ao contraditório, que significa ‘ouvir o outro lado’. Já que temos o direito, precisamos nos pronunciar e nos posicionar de maneira mais contundente”.

Pastora-Raquel-Oliveira
“Na TV aberta, o que mais vemos são os princípios da Palavra de Deus sendo feridos de forma escancarada” – Raquel Castro, pastora

A pastora Raquel Oliveira Castro, na Igreja em Vila Velha (ES), ressalta que “hoje na televisão aberta os princípios da Palavra de Deus estão sendo feridos de forma escancarada. Não conseguimos mais sentar-nos à sala com nossos filhos para assistir a uma programação sem ter aquele momento de constrangimento com determinadas cenas fazendo apologia ao sexo ilícito, crime, prostituição e tudo mais que fere a família tradicional brasileira”.

Segundo ela, o que falta hoje na Igreja de Cristo são a metanoia (mudança de mente) e a renovação do entendimento (Rm 12:2). “Muitos cristãos estão mergulhados em eventos do próprio Reino e da própria denominação. São tantos que as vidas estão se perdendo, e os eventos estão impecáveis”, afirma.

Pais despreparados

Toda influência, de qualquer natureza, afetará os processos educacionais. Cada geração enfrenta seus próprios desafios. Essa é a avaliação do pastor Muller, que questiona a postura de determinados pais. “O que faz a diferença é a gestão da influência. Infelizmente, a maioria dos pais, por razões diversas, não se prepara para desenvolver seus filhos para que ganhem habilidades de gestão da influência. Para a maioria deles, as únicas ferramentas que sabem usar é o ‘não’ ou o ‘sim’, sem didática ou critérios lógicos para a criança, o que provoca grande prejuízo no processo de desenvolvimento dela. Se tudo o que o pai tem para o filho é ‘levá-lo para a igreja’, tenha certeza que logo as trevas irão brilhar na sua suposta luz”, alerta.

A principal missão dos pais em relação aos seus filhos é transformá-los em flechas em direção aos alvos (Sl 127:4). Será preciso treinamento e ousadia para navegar nas trevas com segurança e transformá-la. Para isso, é preciso buscar conhecimento, para não se tornar cativo de tantas distorções que a mídia tenta introduzir nos lares, todos os dias (Is 5:13).

A defesa

A reação acalorada do público em diversas cenas de novelas desperta quem as defende como sendo crônicas contemporâneas que pretendem mostrar, em cada capítulo, as questões sociais mais urgentes, com personagens moldados à luz dos últimos acontecimentos sociais e comportamentais.

Doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela Universidade de São Paulo (USP), Mauro Alencar afirma que “do ponto de vista dramático, há a necessidade de que, para ser crível, a história mostre o fascínio que resulta de determinadas situações, antes de mostrar o mal que causam. No caso do casal que representou o tráfico e o crime, o ‘romantizar’ da trama foi necessário, para explicar o porquê do envolvimento dos personagens com o crime. Em hipótese alguma enxergo ‘romantização’ do crime”, declarou o especialista a jornais de grande circulação, quando as críticas à novela começaram a surgir.

No entanto, artistas famosos também se posicionaram contrários à “campanha” de degradação da família brasileira, nos últimos 30 anos. Numa analogia de que tudo isso faz parte de algo bem maior, o cantor Cazuza escreveu nos anos 1980: “Transformam o país inteiro num prostíbulo, pois assim se ganha mais dinheiro”.

Porém, nada pode obrigar alguém a seguir determinado padrão.  A liberdade de expressão é direito constitucional de todo brasileiro. Esse raciocínio é embasado pelo pastor Tiago. “Porque vós fostes chamados à liberdade (Gl 5:13). Não somos escravos de padrões impostos pela mídia. Somos livres para fazermos nossas próprias escolhas.”


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