“Sexo é o calcanhar de aquiles da igreja contemporânea”, diz pastor

O pastor Emerson Mafessoni ministra palestras voltadas para o público masculino. Foto: Jackson Gonçalves

Masculinidade, sexualidade, pornografia, relacionamento, feminismo, divórcio e paternidade. Saiba mais sobre esses assuntos com o terapeuta familiar e coach em sexualidade, pastor Emerson Mafessoni

Bacharel em Teologia, Emerson Mafessoni iniciou o ministério pastoral há uma década. Casado e pai de um casal, é casado há 25 anos. Pós-graduado em Clínica Pastoral com formação em Sexologia Clínica e Sexualidade Humana, ele é mestrando em Saúde Coletiva com Ênfase em Sexualidade, em que pesquisa sobre a pornografia. Pr. Emerson acumula as especializações em Adictologista em Pornografia; Terapia Familiar; Coach de Sexualidade e de Paternidade. Confira a entrevista:

Como iniciou o seu ministério voltado para o público masculino? Como surgiu a necessidade em se especializar na área?

O meu ministério voltado para ao público masculino surgiu pelo fato de observar a ausência de trabalhos consistentes para este grupo. A necessidade surgiu a partir de sentir um chamado específico para trabalhar com os homens. A partir daí, procurei me qualificar com cursos, me aprofundar na área da sexualidade e, atualmente faço mestrado acadêmico pesquisando sobre a pornografia.

Como funciona o Instituto Homens Livres?

O Instituto vem preencher uma lacuna existente na sociedade. O homem tornou-se o vilão, está no centro do debate. Os pilares de atuação são: Combate à pornografia adulto e infantil, atendimento e reeducação de homens adictos em pornografia, combate à violência sexual contra crianças e adolescentes, combate à violência contra a mulher, implantação de grupos reflexivos de homens enquadrados na Lei Maria da Penha com reeducação, conscientização, visando à restauração desse agressor e, consequentemente a restauração familiar. Além de prestar atendimento psicológico às vitimas de violência sexual e física.

Qual tem sido a maior ameaça à masculinidade nos nossos tempos?

Estamos na quarta Revolução Industrial, na quarta Onda Feminista, na segunda Revolução Sexual. Vivenciamos um empoderamento feminino em todas as áreas e, principalmente, a ascensão das mulheres no mercado de trabalho. Resultado disso: um homem perdido e acuado que, muitas vezes, para se impor, apela à truculência e à violência. O homem moderno patina em três crises: de identidade, de masculinidade e responsabilidade.

Qual tema considera de maior relevância nas suas ministrações?

Minhas conferencias tem o pilar bíblico. Falo muito sobre a responsabilidade desse indivíduo em assumir sua responsabilidade com o protagonismo bíblico que lhe é peculiar. O cabeça da mulher que lidera com amor, entrega, cuidado e respeito à sua esposa e filhos, alinhado em Cristo e tendo em Cristo sua fonte de graça e poder para vencer as dificuldades de uma sociedade à deriva.

É vergonhoso para o homem que a mulher ajude a sustentar o lar?

Ao meu juízo não. Casamento é parceria. O vergonhoso ao meu juízo é o individuo que contraiu o matrimonio e se esquiva das responsabilidades do mesmo. Agora, quando ambos sabem onde querem chegar, têm metas e, de comum acordo, trabalham em prol do bem da família. Não vejo isso como vergonhoso.

O feminismo é contraditório ao Evangelho?

O feminismo prega, dentre outras coisas, uma independência e autonomia total da mulher em todas as áreas. Rejeitam o fato de ter sido um homem o responsável pela maior revolução feminista da história, que foi Jesus. Esse Jesus devolveu à mulher um protagonismo ímpar. Além de atribuir ao homem inúmeras responsabilidades como honra, cuidado e proteção a essa mulher.  Então, vejo algumas iniciativas válidas, como o combate à violência doméstica e sexual, a luta pela igualdade no mercado de trabalho e consequentemente a valorização salarial. A mulher foi dotada e capacitada por Deus para uma sublime e mui importante missão de ser mulher.

É mito ou verdade que o homem tende a viciar mais em sexo do que a mulher?

Nosso país é uma nação erotizada e sensualizada. Viver uma vida de pureza e retidão sexual é um desafio para todos, homens, mulheres, solteiros ou casados. Vivenciamos uma epidemia de homens literalmente viciados em pornografia. Estatísticas falam em 6 para 10 homens no Brasil hoje. Temos mais de 220 milhões de linhas com acesso à internet habilitadas, um prato cheio de cardápio variado no campo do erotismo. Embora o homem predomine no consumo e nos acessos à sites pornográficos, também se percebe uma crescente por parte do público feminino. Vale também ressaltar, que o que ecoa aos quatro cantos é a busca pelo prazer independentemente das consequências que a busca pode trazer. Então, mais do que nunca, é tempo de ministrar a educação sexual para os nossos jovens, terapia sexual para os casais e uma melhor e mais concisa abordagem por parte das igrejas. Eu, particularmente, sou procurados todos os dias por homens pedindo socorro para deixar a pornografia, o cyber sexo, as salas de bate papo, principalmente obreiros, pastores, componentes de ministério de louvor e também não-evangélicos. Sexo é o calcanhar de aquiles da igreja contemporânea.

O senhor é pai de um casal. O senhor percebe nas igrejas a falta de educação sexual adequada para os filhos homens no sentido de respeitar as garotas e também de guardar-se para o casamento?

Falar de educação sexual em igrejas ainda é um tabu. Cerca de 85% do conhecimento sobre sexo dos adolescentes e jovens são adquiridos nas rodas entre amigos. No convívio familiar pouco, ou quase nada, se fala ou se instrui até mesmo pela falta de conhecimento dos pais e dos líderes. A sexualidade e a intimidade sexual são, na essência, uma dádiva de Deus. Acredito que tudo que é muito protegido, escondido ou demonizado acaba aguçando ainda mais a imaginação e senso de descoberta que, na maioria das vezes, vem através da pornografia, da fornicação. A consequência disso é culpa, traumas e complexos.

Como explicar o alto índice de divórcio entre cristãos? A igreja passou a aceitar? Deixou de ser radical como era?

Casamento é a união física e espiritual entre um homem e uma mulher que, na maioria das vezes, trazem uma bagagem pesada adquirida ao longo da vida. A igreja não passou a aceitar, vejo inclusive muitos ministérios investindo em cursos, terapias e disponibilizando ferramentas para ajudar casais em crise. Agora, desde que o casamento passou a ser por amor, muitos alegam que quando acaba o amor devem se separar. Nós, como cristãos, cremos no poder do Evangelho que fala em renúncia, amor e no poder de Deus para mudar situações.

Qual o caminho para um cristão se livrar do vício da pornografia? Deve pedir ajuda ou oração resolve?

Primeiro lugar reconhecer e buscar ajuda principalmente de pessoas que conheçam o assunto e sejam confiáveis. O processo de libertação para o vício, muitas vezes, é árduo e demorado. Tenho atendido muitos jovens, homens e até pais de família que se enveredaram nesse caminho e hoje sofrem e muito. O caminho é o aconselhamento, a renúncia à pratica, a santificação pelo poder da Palavra de Deus e a oração. Também vale ressaltar que, geralmente, já se traz um histórico de perversão sexual. Por isso, a importância de se aconselhar com quem tenha conhecimento sobre o assunto, em questões de sexualidade, e não podemos nos esquecer das implicações espirituais.

A Comunhão publicou recentemente uma matéria especial sobre a sujeição bíblica como justificativa para a violência contra a mulher. O senhor acha que os homens cristãos, em geral, são machistas?

Aproximadamente 40% das mulheres agredidas no Brasil são evangélicas, segundo uma pesquisa divulgada há poucos meses por uma respeitada instituição de ensino. Nos grupos reflexivos de homens de uma organização de São Paulo em que conversava com seu idealizador, quase 50% dos homens agressores eram evangélicos. Por isso que trabalho com homens. Um homem de verdade tem a mulher como digna de respeito, proteção, honra e todo o respeito. Isso ficou bem explicito na orientação Paulina de que todo homem deve amar e dispensar a sua mulher a mesma honra e amor que Cristo dispensa à sua igreja. O Brasil e o Espírito Santo figuram entre os que mais agridem e matam mulheres no mundo. É tempo de investirmos fortemente na educação  e discipulado para quebrar essa maldição transgeracional de violência e abuso. O homem tem um papel fundamental nessa mudança. Ele deve ser o primeiro a proteger, amar e cuidar. Isso sim é liderança. Isso sim é ser o cabeça. Tanto homem e mulher tem papeis bíblicos definidos, mas de maneira alguma dá ao homem o direito de agressão e maus tratos.

Como a ausência de um pai pode afetar a vida de um homem no futuro?

Filho é benção, custa caro e dá trabalho, quem ao quer assumir responsabilidades não deve colocar filhos no mundo. Essa é a frase que abro minha conferencia “Paternidade Integral”. O Brasil passa por muitas crises mas, ao meu juízo, a paterna é a mais severa, pois causa prejuízos geracionais muito fortes. A figura presente do pai além do vínculo emocional e afetivo, gera nos filhos direção, limites e ordem. É matéria já noticiada filhos buscando na justiça reparação por abandono afetivo.

Deus escolhe com quem devemos nos casar ou essa escolha é nossa?

Creio que uma vida de obediência e intimidade com o Pai Celestial no torna sensíveis à sua voz, assim como nos reveste de discernimento para escolhermos com quem nos envolvemos. O que é fácil de se observar, é o crescente número de pessoas buscando no casamento uma possível solução para seus problemas afetivos e emocionais sem antes, buscar cura, restauração e acertar as pendências pretéritas que cerceiam suas vidas.

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