Em que momento eles se perdem…

Débora Fonseca

Tenho recebido muitos adolescentes e pré-adolescentes para acompanhamento em aconselhamento.
São os filhos do cristianismo…Perdidos, porém, no curso do mundo: homossexualidade, pornografia, masturbação, drogas, confusões total, além é claro das comorbidades: ansiedade generalizada, depressão, pensamentos mórbidos, (alguns suicidas), transtornos diversos.

Fica claro que a homossexualidade, motivo pelo qual os assustados pais os levam até a mim, não é a questão central, mas apenas uma das periféricas que assolam a vida destes meninos, sendo a pior delas, a meu ver, o completo desconhecimento de Deus, e a absurda ausência de relacionamento com Cristo.

Falo de meninos e meninas criados no evangelho, membros atuantes da igreja. Os filhos do cristianismo! Em que momento eles começaram a se perder?

Em que momento distanciaram tanto dos braços do pai, do seio da mãe, do companheirismo dos irmãos, até se tornarem completos desconhecidos dentro do próprio lar? Encastelados em seus quartos. Mundos paralelos. Realidades virtuais. Máscaras ambulantes. Atores sociais.

De sua escuta muito se pode inferir e mais uma vez constatar que embora a família, tal como a igreja, sejam projetos divinos, não são entes perfeitos.

Nós falhamos! Em algum momento teremos que lidar com esse estado de culpa!

Façamos um parêntese, porém, para nos acautelarmos das culpas falsas. A bíblia bem nos adverte sobre a existência de dois tipos de culpas, a verdadeira, provocada pelo Espírito Santo que visa o benefício do arrependimento (esperança) e a culpa falsa provocada pelo diabo, ou por nossa alma ferida que visa apenas o movimento circular da tristeza (morte).

Prosseguindo, falhamos quando colaboramos para esse distanciamento através de nossa ação ou omissão, violenta, abusiva, irônica, mordaz, negligente, ausente, e até indiferente. Quando permitimos que o cansaço, distrações e outras prioridades (inclusive eclesiásticas) tomem conta de nossa vida e não abastecemos o coração de nossos filhos com atitudes de amor, atenção, afetividade e respeito.

Falhamos. Somos falhos. Precisamos de arrependimento e conversão. Conversão emocional. Não apenas espiritual. Aquela que faz mudar a rota de nossa caminhada para longe do coração de nossos filhos e retornar para eles…

Malaquias fala sobre esse tipo de conversão:
“…ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” 4.6

O que percebo muitas vezes nestes meninos e meninas que são trazidos até mim, (muitos “obrigados”), que alguns deles, ultrapassada a fase do emburramento para com minha pessoa, (já que num primeiro momento sou considerada amiga dos pais e, portanto, inimiga deles), se tornam verdadeiros disparadores do processo de restauração no lar.

Este é sem dúvida um dos grandes paradoxos do evangelho. O filho feio[1] vem a se tornar o agente de cura no lar. No momento em que finalmente permite que sua alma ferida seja acessada e curada pelo Espírito Santo, ele se interpõe como agente de restauração no lar e na sociedade e contribui para que uma pequena porção da terra em que ele habita não seja mais ferida com maldição.

Queridos, infelizmente nossa igreja e sociedade têm sofrido com as mazelas de nossos lares. A profecia do “amor esfriará” tem se iniciado lamentavelmente nas famílias, entre elas as evangélicas.

Precisamos voltar ao primeiro amor: com Cristo, uns com os outros, conosco. Amor que respeita que investe tempo, energia, que incentiva, cuida e se doa uns pelos outros. Nossa sociedade não tem essas características. Há violência e opressão em nosso meio. A terra está ferida de maldição.

Oremos pela conversão de nossos corações uns aos outros. É certo que o distanciamento que envolve crescimento, desenvolvimento e o deixar[2] pais e mães é bíblico. Mas o distanciamento afetivo, este é doentio e não podemos colaborar para que ele aconteça.

O distanciamento afetivo, sobretudo relacional, é palco para muitas moléstias da alma e comportamentos pecaminosos. Vícios sexuais, promiscuidades e variados relacionamentos destrutivos, artificiais e abusivos começam daí[3].

Que o Senhor nos capacite como pais a fechar as brechas para que eles não se percam… DE NÓS. Que sejamos humildes e corajosos para percebermos se temos colaborado para este processo e com o apoio do Espírito Santo, mudar a rota do nosso coração para nossos filhos e abençoá-los com atenção, afetividade e palavras de afirmação e aceitação.

Nunca é tarde para amar!

Que Cristo nos capacite a valorizar nossa herança.[4] Não devemos descuidar ou dilapidar o que Deus nos deu. Antes vamos cuidar e investir nessa herança; entesourá-la mais e mais para que em momento oportuno ela abençoe nações!

Deus nos abençoe!

Débora Fonseca é graduada em direito e psicologia, membro da Igreja Presbiteriana em Jardim Camburi e coordenadora do Ministério Luz na Noite.

Referências
[1] Alusão ao livreto infantil O patinho feio.
[2] Gênesis 2. 24
[3] Leia mais no livro Aconselhando cristãos em luta com a Homossexualidade. Ed. Abba Press.
[4] Salmos 127.3