Discipulando através das Artes e Entretenimento

Uma das artes de Van Gogh que demonstrava seus sentimentos sobre a igreja: um lugar frio, sombrio e intolerante. Foto: Reprodução Web

A vida de Van Gogh poderia ter sido diferente se a igreja o tivesse encorajado a ser o que Deus obviamente o criou para ser: um artista.

É difícil não se admirar diante dos belos quadros impressionistas do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890). Ele foi pioneiro em ligar as tendências impressionistas às aspirações modernistas e sua influência foi reconhecida em várias frentes artísticas do século XX. Obras como as da série Girassóis, a Noite Estrelada, o Auto Retrato com a orelha cortada, entre outras, elevaram o nome de Van Gogh ao patamar de um dos maiores artistas de sua época.

No entanto, poucas pessoas conhecem a biografia do pintor, que era filho de pastor e desejava a carreira eclesiástica.

Apesar do seu empenho em seguir os passos do pai, Vincent não era bom aluno e não falava bem em público – um grande obstáculo para um pregador em potencial. Por causa de sua dedicação, uma organização protestante deu a ele a oportunidade de servir como evangelista numa comunidade pobre de mineiros, ao sul da Bélgica. Van Gogh foi para lá e ficou profundamente sensibilizado com a situação das pessoas.

Ele começou a fazer desenhos que descreviam as atividades cotidianas e a desesperança estampada no rosto de cada um. Após seis meses em experiência, Van Gogh não foi indicado ao pastorado, sob a alegação de deficiência na comunicação com o público. Tentou continuar mesmo sem apoio, mas em pouco tempo passou a viver em pobreza quase absoluta.

Amargurado e desapontado, o futuro gênio da pintura desistiu do sonho de se tornar pastor e nunca mais colocou os pés na igreja novamente. Passou o resto da vida sob extrema desordem emocional, relacional e financeira, o que o levou ao suicídio aos 37 anos de idade. Duas de suas obras – Noite Estrelada e Igreja de Auvers – demonstram claramente seus sentimentos acerca da igreja: um lugar frio, sombrio e intolerante.

É quase impossível não pensar em como a vida de Van Gogh poderia ter sido diferente se a igreja o tivesse encorajado a ser o que Deus obviamente o criou para ser: um artista. Se em vez de insistirem para que ele fosse um pregador, o apoiassem em sua habilidade de desenhar e pintar, como aconteceu com Bezalel. O livro de Êxodo relata o chamado de Deus para esse israelita da tribo de Judá.

“Disse então Moisés aos israelitas: ‘O Senhor escolheu Bezalel, filho de Uri, neto de Hur, da tribo de Judá, e o encheu do Espírito de Deus, dando-lhe destreza, habilidade e plena capacidade artística, para desenhar e executar trabalhos em ouro, prata e bronze, para talhar e lapidar pedras e entalhar madeira para todo tipo de obra artesanal” (Ex 35:30-33). Por que não servir a Deus com a arte?

Artes e Entretenimento são uma das sete áreas de influência da sociedade que mais possibilitam discipular o mundo. A sociedade contemporânea idolatra apresentadores de programas de TV, jogadores de futebol e “estrelas” da música. Eles se tornaram os “novos filósofos” deste tempo e o mundo espera com expectativa por suas opiniões sobre qualquer assunto, de religião à política. Eles ditam a moda, o estilo musical, a estética, o que é belo, a forma perfeita, as novas tendências, as cores da estação, enfim, muito do que se vive hoje passa pelo crivo artístico.

Não é por acaso o sucesso de vendas que têm as revistas que se propõem a escrever sobre a vida dos artistas e as ‘modinhas’ que sempre acompanham as telenovelas. Se um artista falou, independentemente do que tenha dito, sua fala tem peso e encontra ressonância na vida de multidões. Se uma gíria é lançada na novela, em pouco tempo já está na boca do povo. É incontestável o poder da influência da Arte na vida das pessoas.

Porém, quando se pára para observar o conteúdo que tem sido passado, observa-se o quanto este é preocupante. Filmes e novelas de grande alcance difundem maciçamente valores contrários àqueles defendidos pelo Cristianismo, reforçando princípios hedonistas, secularistas e humanistas. A moda de hoje segue os passos da sensualidade; a música, da violência e da pornografia. E os livros parecem mais um atentado à moral e à ética do que obras literárias. Quem não se espanta com a forma incisiva e agressiva com que programas de TV têm tentado inserir o conceito de homossexualidade como algo normal dentro das famílias brasileiras?

No entanto, mesmo diante de todas essas mazelas, a Arte e o Entretenimento foram criados por Deus. E criados para a Sua glória. Ainda que sua expressão tenha sido deformada e usurpada, ela precisa voltar ao plano original, que é revelar o caráter do Senhor de todas as coisas.

O Senhor do belo

Tudo o que Deus criou é bonito. Nada no Universo é sem cor, forma ou estilo. Ele transforma cinzas em beleza. Ele é o Cântico dos Cânticos, o Oleiro, o Senhor da Beleza. Ele é belo! As artes revelam o Criador através da música, das palavras, das cores, do design, do equilíbrio, do movimento, da harmonia, do ritmo. E os atributos de Deus revelados através das artes são beleza, descanso ou contemplação e celebração.

O difícil de ser concebido por alguns é que a arte, criada por Deus, é neutra e pode ser usada para adorá-Lo ou não, o que não invalida sua beleza. “Tudo é criação de Deus. Qualquer coisa que Deus tenha feito pode ser usada para reverenciar Satanás, mas também pode servir para revelar Deus… Qualquer coisa, incluindo tipos de música, notas musicais ou instrumentos, podem ser utilizados para o bem ou para o mal. Não existe algo como notas musicais demoníacas, ritmos ou instrumentos demoníacos. Satanás não é dono de nada disso”, escreveu Landa Cope em seu livro ‘Modelo Social do Antigo Testamento – Redescobrindo Princípios de Deus para Discipular as Nações’ (pg. 140).

Ela defende também que a beleza em si, revelada em muitas obras de arte, produzidas por cristãos ou não-cristãos, já é um atributo de Deus, tentando assim auxiliar muitos artistas cristãos que têm dificuldade em compreender o propósito de Deus para os seus talentos. Por exemplo, se uma obra não fala diretamente sobre Jesus, ela ainda tem algum valor? “Colocar um adesivo escrito ‘Jesus’ sobre as coisas não as torna mais bonitas… Podemos ter arte e beleza nas igrejas, mas a arte não tem de estar diretamente relacionada com uma expressão eclesiástica para poder revelar Deus”, enfatiza Landa.

De mesma opinião compartilha Luiz Monaro Soares. Ao introduzir uma entrevista postada no blog Avante Cultura, da W4 Editora, Luiz questiona o porquê de muito do que vem do meio artístico não ser valorizado apenas porque não é produzido pela igreja. “Só porque não são da igreja, não são bons? Não se pode tirar nada de bom de suas músicas? E como ficam, por exemplo, a pintura, a fotografia, as letras? Se não são da igreja, não devemos apreciá-las?”, questionou.

Há uma certa discriminação até mesmo quanto ao conteúdo produzido pela igreja. Se um compositor faz uma música de adoração, ele é apreciado. Mas se, com a mesma inspiração, escreve uma canção de amor, sua obra é, muitas vezes, questionada ou desvalorizada.

As Escrituras registram pelo menos três temas de músicas: adoração, canções nacionais ou políticas e canções de amor. Uma canção de amor ganhou um livro inteiro (Cantares ou Cântico dos Cânticos) e em Deuteronômio 32, Moisés entoou uma canção que bem poderia ser considerada o hino nacional de Israel, uma ópera sobre a história da nação.

Hoje, as músicas tocadas nas rádios estão cheias de apologia à violência, à degradação e à lascívia mas, ao mesmo tempo, a Bíblia dá exemplos de como a arte musical conseguiu inspirar o amor humano e retratar feitos políticos. Há uma diferença entre a arte que é produzida dentro da igreja, como nos inúmeros festivais de bandas gospel e de ministérios de dança, e a igreja que influencia a arte como um todo. Mas, como isso seria possível?

A arte que discipula o mundo

Simpatizante ou não de esporte, não há quem não conheça o jovem Kaká. Seja por seu belo futebol, seja por seu íntegro testemunho, Kaká tem deixado sua marca no esporte e na sua geração. O temperamento manso, a escolha por se casar virgem, sua postura irrepreensível, a dedicação à arte do futebol, têm gerado milhões de seguidores. O sonho de muitos adolescentes é seguir os mesmos passos que Kaká e alcançar tudo o que ele já alcançou. E isso inclui seguir o mesmo estilo de vida, a mesma crença, a mesma fé. Kaká tem feito discípulos de Cristo entre as nações. A sua vida dá testemunho dos valores do Reino de Deus, ainda que lhe sejam poucas as oportunidades de falar de Jesus Cristo. Ele discipula jovens de várias nações, mesmo não estando entre as quatro paredes eclesiásticas.

“A arte é um meio de comunicação. Baseando-se nesse critério é que venho trabalhando de forma a difundir os valores e princípios divinos na sociedade”, disse Derkian Mendes, da Igreja Presbiteriana do Brasil em José de Anchieta, na Serra. Ele dirige uma companhia de espetáculos circenses chamada Verité (do francês, significando Verdade) e através dela tem conseguido alcançar cristãos e não-cristãos.

Formado em circo e estudante de Jornalismo, Derkian disse que o objetivo da companhia é atuar como voz dentro da sociedade através de espetáculos temáticos. “Trabalhamos primeiramente num formato de pesquisa, ou seja, fazemos um levantamento geral sobre a comunidade adotada e montamos os espetáculos com base nos resultados apurados. Nosso produto final é um espetáculo circense que é apresentado a essa comunidade com o intuito de levá-la a refletir sobre a sua realidade e instruí-la sobre como lidar com determinadas situações”, disse o estudante.

Um dos espetáculos da companhia, “Cânticos”, que se baseia no livro de Cantares, da Bíblia, surgiu depois que Derkian percebeu uma certa deficiência na área de apreciação da poesia culta. “Pensando nisso, decidimos criar um espetáculo que agregasse poesia e artes circenses e assim transmitisse mensagens do livro de Cânticos, como amor verdadeiro e pureza”, disse Derkian. O espetáculo foi apresentado no evento chamado Domingo nos Parques, no Parque Moscoso, em Vitória.

“O retorno do público acerca do circo e da poesia foi ótimo, porém, muitas vezes me perguntaram se eu tinha feito as poesias ou se eram de Carlos Drummond de Andrade. Ninguém fazia a menor idéia que era um livro da Bíblia e quando eu revelava isso, logo sinalizavam surpresa. Acredito ser essa a chave que fez muitos pensarem sobre o que é a Bíblia na verdade e como é esse amor verdadeiro e puro”, contou Derkian.

“A arte é para todos, Deus é o Grande Criador e um grande artista. Se nós, artistas, que recebemos o dom de criação do próprio Criador, nos estagnarmos entre quatro paredes, estaremos negligenciando um presente de Deus e até dizendo a Ele que a inspiração divina é mesquinha, quando na verdade mesquinha é a nossa forma de pensar na arte apenas como entretenimento, e não como meio de comunicação questionador e potencialmente transformador de indivíduos e sociedades”, concluiu.

Na Índia, as artes têm sido um poderoso instrumento para glorificar a Jesus. Missionários descobriram que a dança é para os indianos algo profundo e sagrado, muito ligado à adoração. Então, eles têm redimido a cultura através da dança. Mudam a letra das músicas, dançam e glorificam ao único Deus verdadeiro em lugar dos milhares de deuses hindus. Os missionários, com isso, estão levando os indianos cada vez mais para perto de Deus.

Hoje, o desafio de milhares de artistas cristãos é de levar sua arte para fora das quatro paredes, com os valores e princípios do Reino de Deus. Trata-se de uma atitude desafiadora diante de tantos gigantes que já existem, mas também uma forma importante, às vezes, a única, de levar muitos a conhecerem o Senhor da beleza, o Criador de todos os dons.

Modelo Social do Antigo Testamento – Redescobrindo Princípios de Deus para Discipular as Nações
Landa Cope
Jocum

A Vida do Artista
Rory Noland
W4 Editora

Viciados em Mediocridade – Cristianismo Contemporâneo e as Artes
Frank Schaeffer
W4 Editora

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