Descasados: Como a igreja trata os separados?

Jesus foi muito claro quando respondeu aos fariseus acerca da separação de casais, autorizada por Moisés no Velho Testamento. “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério”(Mateus 19:9). Ou seja, foi enfático afirmando que só aceita essa situação em caso de infidelidade conjugal. Por essa razão, por muito tempo nas igrejas evangélicas a separação não era nem sequer cogitada.

O Espírito Santo é o sexto estado no país com mais divórcios, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma demonstração inegável nos dias de hoje, tempos de dissolução de casamento em alta, de que os ministérios têm passado pela necessidade de enfrentar o divórcio e buscar a melhor forma para lidar com a situação, ajudando a reerguer as pessoas e fazendo com que elas possam reconstituir sua ligação com Deus.

A Pesquisa Comunhão 2014 mostra que 24,6% dos entrevistados viram divórcios acontecendo este ano em suas igrejas. Desses, 72,9% afirmam que as separações se deram por conta de traição; 14,6%, devido a discussões e desavenças entre o casal; e outros, por causa de parceiros não convertidos ou uma das pessoas ter abandonado a obra de Deus, por alcoolismo ou por maus-tratos.
Em I Coríntios 7:14 e 15 Paulo diz: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz”.

Segundo o pastor da Igreja Presbiteriana e autor do livro “Casamento, Divórcio e Novo Casamento”, Hernandes Dias Lopes, essa é mais uma das hipóteses para que Deus aceite a separação. “Só nesses dois casos o casamento dissolvido é legítimo, conforme a Palavra. No caso de Coríntios, Paulo deixa claro que se o cônjuge não é cristão e não deseja manter a união, aquele que é crente não deve insistir e brigar, porque pode provocar a ira do que quer se separar. O que não podemos é generalizar, por qualquer motivo abandonar o casamento e achar que Deus vai apoiar essa decisão, porque não vai”, explica.

Pastor Hernandes relembra que Deus abomina o divórcio, como descrito em Malaquias 2:14 e 15: “Ainda fazeis isto outra vez, cobrindo o altar do Senhor de lágrimas, com choro e com gemidos; de sorte que ele não olha mais para a oferta, nem a aceitará com prazer da vossa mão. E dizeis: Por quê? Porque o Senhor foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira, e a mulher da tua aliança”.

Essa aliança também é lembrada pelo pastor Marcelo Gatt Staut, da Universidade da Família. “Existe a misericórdia de Deus sobre a vida das pessoas que se separam, mas das consequências desse ato não se tem como fugir, porque casamento não é um contrato, é uma aliança feita diante das leis humanas e de Deus. A herança deixada para os filhos, de uma família dissolvida e de uma vida desestruturada, não tem como negar. Incentivamos sempre o restauro do lar como solução e somos testemunhas de várias famílias que conseguiram ser reconstituídas, tendo hoje seus filhos mantidos na fé em Cristo”, afirma.

Iniciativas
Pastor da Nova Igreja da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Carlos Fernando, o Café, responsável junto com a esposa, pastora Luciana Leal, pelo Ministério Nova Mente, que reúne solteiros separados, divorciados e viúvos da igreja, acredita que as pessoas se casam sem saber a verdade e o significado dessa união com todas as suas implicações espirituais, mas nem por isso, a igreja deve abandonar aqueles que rompem o matrimônio.
“As pessoas se casam pelos mais diversos motivos, sejam eles emocionais, naturais, oportunos ou por pressão da família ou da sociedade. São poucos os que se casam conhecendo e entendendo os princípios espirituais de Deus para o casamento. A maioria se casa pensando no chavão secular: se não der certo, separa e arruma outro. Como se isso não trouxesse consequência para eles, para os filhos e para a sociedade como um todo, pois uma sociedade com os princípios de família enfraquecidos é uma sociedade enfraquecida. Família é a nossa base”, ressalta.

Ele relembra o versículo 19 do Evangelho de Mateus, enfatizando que o casamento foi instituído por Deus para ser eterno, mas caso o divórcio aconteça, não existe prova de que Ele não perdoe. “Adulterar é mudar, modificar algo de forma ilegal, e neste contexto é ir contra os princípios da Palavra de Deus, ou de forma mais ampla, é pecar. Quem adultera está cometendo pecado”, declara.

Ainda assim, o pastor alerta que é preciso cuidar daqueles que se separaram. “A forma de tratar o separado ou divorciado é amando e respeitando como a qualquer um outro, entendendo as dificuldades que foram geradas por conta desta separação e ajudando no que for possível. Não somos juízes, e sim pastores. Não devemos julgar, e sim servir e amar, porque nosso exemplo é Jesus”, observa.

Pastor Café salienta que as igrejas têm se preocupado com as crianças, os casais, os jovens, entre outros grupos, mas os solteiros os separados, os divorciados e os viúvos ficam meio sem espaço e normalmente não existe um movimento tentando envolvê-los de alguma forma. “Acredito ser muito necessário o despertamento para esse grupo de pessoas que ficam em sua maioria muito solitárias dentro da igreja. Por conta de sua situação, são mais suscetíveis a esfriarem na fé ou a se isolarem. Iniciamos o Nova Mente em nossa igreja no ano passado, e esse grupo tem como principal objetivo dar a oportunidade de relacionamentos, e não estamos falando em namoro, mas em geral passeios, festas, reuniões e pregações voltadas para realidade deles, com o objetivo de criar uma turma de pessoas que vivem uma situação parecida”, conta.

O Grupo Evangélico de Descasados e Solteiros (GEDS) foi criado em Minas Gerais para atender aqueles que passam pela separação e integrá-los à igreja. “Esse assunto, muitas vezes, não é visto com bons olhos no meio evangélico, mas é necessário pensarmos nas pessoas descasadas como parte do Corpo de Cristo. Posso dizer que a igreja não teve mudanças com relação ao tratamento dos descasados. Infelizmente a grande maioria se sente marginalizada, mesmo porque são raríssimas as igrejas que têm um ministério específico para esse público. As pessoas se sentem muito sós, sem apoio dos pastores. Quando a forma certa de tratar é a bíblica (amar ao próximo como a nós mesmos), quando amamos o nosso próximo, desejamos o melhor para ele e com certeza vamos tratá-lo bem. Tratar bem é acolher, chorar junto, oferecer o nosso ombro para ele chorar, oferecer a nossa ajuda em tudo o que ele precisar, estar por perto, na medida do possível.
Amar ao próximo é não fazer distinção por causa do seu estado civil. Todos nós somos iguais diante de Deus”, explica Eliane Condinho, fundadora do GEDS. Ela acrescenta: “Há posições diferentes quanto a um novo casamento. Há igrejas que são radicais e não permitem uma segunda chance e há igrejas que fazem casamentos de divorciados que estão dentro das duas circunstâncias permitidas pela Palavra”, explica.

Aqueles que se separam e tiveram uma oportunidade de manter sua fé, servir a Deus comemoram a possibilidade de estar entre aqueles que buscam salvação. É o caso de Cleto Carlos da Silva, hoje pastor da Assembleia de Deus. No passado, mesmo tendo a família na Igreja Batista, ele não seguia o Evangelho, vivendo no alcoolismo, o que levou a primeira esposa a pedir a separação. Depois de algum tempo de divórcio, resolveu se casar novamente. Passados alguns anos, ele e a atual mulher se converteram.

“Como eu me separei não tendo conhecimento da Palavra, sem saber o que fazia, tive a oportunidade de servir a Deus com minha nova esposa e hoje estou pastor há quatro anos. A igreja nos aceitou e hoje sigo a Bíblia, oriento as pessoas a manterem seus casamentos, porque é assim que Deus quer”, conta ele.

Portanto, conforme o pastor Hernandes, as pessoas precisam estar atentas porque fazem uma aliança e, muitas vezes, quebram-na sem qualquer constrangimento. “Hoje, o véu das noivas está ficando cada vez mais longo e os casamentos cada vez mais curtos. Há pessoas que se vangloriam de ter passado por vários casamentos. Mas quando o divórcio é permitido? O divórcio nunca é ordenado. Deus não instituiu o divórcio, e sim o casamento. O divórcio só é permitido por causa da dureza do coração, ou seja, pela incapacidade de perdoar. O divórcio só é permitido em dois casos: infidelidade conjugal (Mt 19.9) ou abandono irremediável (1Co 7.15)”, finalizou.

A matéria acima é uma republicação da Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.