Descanso

O remédio para qualidade de vida espiritual e social
Como podemos diminuir nosso ritmo de vida para voltarmos a ter tempo para nossa comunhão com Deus e uns com os outros? Simples, seguindo um mandamento bíblico e dedicando um dia da semana ao descanso.

As pessoas nunca estiveram tão ocupadas. Esta tem sido uma época em que mal conseguimos respirar e a justificativa para não irmos regularmente ao médico, ao culto semanal da igreja, passearmos com os filhos, fazermos algum conserto doméstico, geralmente, é falta de tempo.

Mas há uma receita para termos uma vida de qualidade, tendo tempo para atividades sociais e espirituais: guardar um dia da semana para o descanso. Esse dia é tão importante que Deus incluiu-o entre os Dez Mandamentos (Ex 20:8-11). Devemos santificar o dia de repouso, ou seja, separá-lo, fazê-lo especial para nós, nossa família e Deus.

Comunhão não deseja polemizar na discussão teológica sobre a “guarda” do sábado ou do domingo. Mas mostrar que, como fomos criados à imagem e semelhança de Deus, se Ele descansou e orientou que fizéssemos o mesmo, convém que Seus servos sigam Sua orientação.

Quando não obedecemos aos princípios bíblicos, sofremos as conseqüências. O cansaço gera fracasso no lar, na igreja, no trabalho, desgaste emocional e físico. Por outro lado, há bênção reservada para quem guarda o dia de descanso (Is 58:13,14).

Segundo o pastor Geraldo Batista Neto, da Primeira Igreja Presbiteriana de Campo Grande, Cariacica, as conseqüências não passam pela condenação eterna, mas vêm para nós mesmos em forma de cansaço físico, mental e desânimo espiritual. “Ao trabalharmos a semana toda, nosso organismo clama por uma pausa. Após o descanso, retomamos o trabalho com vigor e motivação. No campo espiritual, esse descanso representa crescimento com o investimento na comunhão e na prática das boas obras”.

O princípio do descanso

A vacina para o ativismo está na capacidade de descansar. Quem dá o exemplo é Deus. Depois de seis dias agindo em toda a Criação, Ele descansou (Gn 2:2-3). A terra cultivada também deveria descansar. Durante seis anos era cultivada e, no sétimo, descansava, enquanto servia de mantimento para os necessitados (Ex 23:11). O descanso deveria se estender aos empregados, visitantes e animais (Ex 23:12).

“Há muita sabedoria de Deus nisso. Também prova o caráter de Deus, na confiança de que Ele vai suprir nossas necessidades. Ele cuida dos seus amados enquanto eles dormem”, disse o pastor Aroldo dos Santos, líder da Igreja Evangélica Quadrangular do Estado.

Olhando para o Êxodo, vemos que o conjunto de orientações (leis) inaugurou, segundo a narrativa, um novo momento e uma nova compreensão da vida para o povo hebreu. Esse povo vinha de uma rotina de escravidão. Eles trabalhavam intensa e arduamente no Egito (5-6).

Aquele povo não conseguia se ver sem cumprir tarefas. Não se viam como pessoas com direito ao descanso. Por isto, o mandamento do descanso semanal (o shabath) era de vital importância na estruturação de uma nova consciência de vida: a consciência de liberdade, de dignidade, humanidade e a consciência de direitos. Sem nos esquecer de que essa nova consciência incluía a adoração ao Deus promotor da liberdade e da dignificação deste povo.

Deus estava desejando, com esse mandamento, mostrar que é importante trabalhar, mas é mais importante viver bem com as pessoas e com a Criação. É importante trabalhar, mas é mais importante ser grato pela vida livre concedida pelo Deus libertador.

O dia do descanso era separado semanalmente para que cada adorador e adoradora dedicassem um culto voluntário a Deus. Era um dia reservado para celebrar a grandeza deste Deus em todas as suas obras, um dia de gratidão.

Ligação semanal com a obra

O dia do descanso é uma oportunidade semanal para desenvolvermos nossa relação com Deus. Quando Jesus viveu na Terra, Ele aproveitava cada oportunidade para manter Sua comunhão com Seu Pai. Ele se beneficiava do descanso específico em um dia da semana para adorar a Deus (Lc1:16).

Jesus ressaltou que Deus havia criado o dia de descanso para benefício das pessoas (Mt 12:1-12). Nosso Salvador desejava que Seus discípulos e os que fossem convertidos por meio deles continuassem a praticar o que Ele os havia ensinado (Jo 15:15,16). Jesus queria que experimentassem tanto o descanso proveniente da salvação quanto o descanso semanal. Os discípulos continuaram a observar o dia, mesmo depois da morte de Cristo (Lc 23:54-56; At 13:14; 16:13; 17:2; 18:1-4).

No dia de descanso podemos nos dedicar à prática da comunhão, visitando um amigo enfermo ou que precise de um apoio espiritual. O apóstolo Paulo nos encoraja: “Exercita-te na piedade, pois o exercício espiritual, diferentemente do exercício físico, tem valor e traz benefícios tanto para a presente vida, quanto para a vida futura (I Tm 4.8).

“Os relacionamentos precisam de tempo de qualidade para se fortalecer. Amizade, casamento, família, irmãos em Cristo… Devotar um dia para esse fim nos permite crescimento espiritual e qualidade de vida”, completa o pastor Aroldo dos Santos.

Ainda segundo o pastor, nenhum crente consegue sobreviver espiritualmente sem exercícios devocionais. São eles que ligam a criatura ao Criador, o pecador ao Deus Santo, o ignorante ao Pai (Tg 1.17), o arrependido ao Perdoador (Sl 99.8), o salvo ao Salvador, o redimido ao Redentor, o aflito àquele que é auxílio sempre presente na angústia (Sl 46.1).

Muitas vezes o mesmo ativismo que nos consome fora da igreja está presente dentro dela. São reuniões, ensaios e os membros que possuem vários cargos na igreja mal têm tempo de ir em casa almoçar, pois logo está na hora de voltar para uma reunião aqui e acolá.

Dedicar-se às atividades da igreja é agradável aos olhos do Senhor. Entretanto, isso deve ser feito com equilíbrio. Na visão do pastor Aroldo dos Santos, é importante a liderança da igreja reservar dias da semana livres de atividades para que as famílias possam investir em tempo juntos, bem como observar a sobrecarga de atividades no dia de descanso.
“É bom não haver pessoas com grande acúmulo de cargos na igreja. Há pessoas nas igrejas evangélicas que absorvem quatro ou cinco cargos ao mesmo tempo. Se a pessoa trabalha fora, como poderá programar uma agenda para a família e para si mesma?”

Conforme o pastor adventista Gedeon Reis, o convívio na igreja promove a comunhão, muito importante para o crescimento espiritual do Corpo de Cristo. “Seguimos a orientação bíblica de nos abstermos do trabalho corriqueiro e dedicamos o dia ao Senhor. Temos atividades pela manhã e à tarde. Em dois dias da semana temos atividades à noite. À exceção desses dias, os membros têm tempo para se dedicar à família e à sua vida pessoal”.

Para o pastor Izilmar Finco, da Igreja Batista em Eldorado, Serra, dedicar-se à obra de Deus é um compromisso do crente. “Quando as atividades da igreja absorvem demais uma pessoa, algo está errado. Isso não deve acontecer e demonstra falta de sabedoria. Penso que, além do descanso, o homem deve aproveitar para buscar adorar aquele que fez todas as coisas. É possível ao homem estar na igreja servindo a Deus e ainda ter tempo para si e sua família”.

Dia de recomposição física, família e lazer

A vida não foi feita por causa do trabalho. O trabalho é que foi feito para benefício do ser humano. A rotina profissional faz parte da vida, assim como a família, a igreja, os amigos, estudo, o descanso e o lazer.

Para quem trabalha muito, o dia do descanso é uma placa de “pare” para jovens e adultos estressados. É quando temos a oportunidade de concentrar ações na comunhão com Deus, na família, no bem-estar físico e emocional.

A família precisa de atenção especial, principalmente nos dias atuais, em que os valores têm sido denegridos da forma mais absurda possível. O diálogo é essencial para uma boa convivência. O lar é o melhor ambiente para conversar sobre os ideais, sobre os anseios e tristezas, vitórias e alegrias, vida cristã, as experiências do dia-a-dia, vida escolar, profissional, o que se vê e o que se ouve.

A troca de experiências é uma necessidade não só dos filhos. É aí que o momento de lazer e distração torna-se fundamental para uma melhor integração. A família precisa desfrutar junta de momentos de passeios, bate-papo e comunhão com Deus.

“Nós, cristãos, somos chamados a fazer do nosso lar um lugar onde o Espírito Santo tenha a primazia em nossas vidas, e que todos os membros da família trabalhem pela felicidade um do outro, harmoniosamente, agradando a Deus”, ressalta o pastor Aroldo dos Santos.

O exercício da fé e a obediência à Deus devem ser uma constante na vida do cristão, seja num dia de descanso ou de trabalho. Aquele que segue os ensinamentos do Senhor verá se cumprir em sua vida o que o salmista fala no capítulo 128:

“Bem-aventurado aquele que teme ao Senhor e anda nos Seus caminhos! Pois comerás do trabalho das tuas mãos, feliz serás, e te irá bem. A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos, como plantas de oliveira, à roda da tua mesa. Eis que assim será abençoado o homem que teme ao Senhor! O Senhor te abençoará desde Sião, e tu verás o bem de Jerusalém em todos os dias da tua vida. E verás os filhos de teus filhos e a paz sobre Israel”.

Reflexão

Como tenho lidado com o trabalho?
Tenho tido uma vida de qualidade?
Tenho utilizado bem o meu dia de descanso?
Tenho pensado nas necessidades daqueles que eu amo?
Tenho me preocupado com a Criação de Deus e cuidado dela?
Quais os motivos que tenho para adorar a Deus?
Qual meu envolvimento com as atividades da minha igreja?

Referências ao dia do descanso

* Velho Testamento
Ex 20:8-11/16:23-30/31:13-16/35:2-3; Gn 2:3; Lv 19:3,30; Dt 5:12-15; Jr 17:21-27; Ez 20:12

* Novo Testamento
Mc 2:27-28/1:21; Lc 4:16/13:10.