Descansar não é brincadeira. É questão de sobrevivência! 

Líder de quatro ministérios na igreja, o jornalista Luiz Carlos Pereira, 72 anos, dá uma pausa de um mês nas tarefas.

Milhares de pessoas têm adoecido ou morrido por negligenciar o tempo para repouso e lazer

Por Priscilla Cerqueira e Tais Hirschmann

A Palavra de Deus é clara em Mateus 11:28: “Vinde a mim todos que estão cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”. Apesar da mensagem e do convite reconfortante de Cristo, pastores, líderes espirituais e comunidade cristã de forma geral vêm sofrendo por encarar hoje uma longa rotina de intenso trabalho, marca do século 21.

O fato é que, mesmo estando de folga, há quem nunca pare de se dedicar ao serviço. A ânsia de cumprir “compromissos inadiáveis”, tarefas que precisam ser executadas com urgência, acaba levando à estafa. E o descanso, algo extremamente importante para sua saúde e bem-estar, é deixado de lado.

Médico psiquiatra e professor universitário, Rodrigo Eustáquio Teles Vieira destaca que, assim como a alimentação saudável e a prática frequente de atividades físicas, o sono adequado é essencial para manter a mente equilibrada e o organismo saudável. “O repouso fortalece o sistema imunitário e pode acrescentar anos à sua vida. Se não dormir o suficiente, a energia para o dia a dia será tirada das suas reservas”, alerta.

Rodrigo Eustáquio Teles Vieira, médico psiquiatra e professor universitário

O especialista adverte, ainda, para uma consequência ainda mais severa: “Se o descanso não acontece habitualmente, é de se esperar uma resistência mínima às doenças e aparecimento de outras. A privação do sono causa estresse, ansiedade e mau humor, aumenta as chances de engordar e ainda acelera o envelhecimento. O descanso é uma necessidade física e psíquica. É o momento em que recarregamos nossas energias”.

Entregar-se exageradamente ao campo profissional, abrindo mão dos períodos de recreação, pode causar esgotamento físico e mental, também conhecido como síndrome de bornout. Daí a necessidade de ficar atento aos sintomas que antecedem quadros mais graves, sinais como ansiedade, desânimo, irritabilidade, baixa autoestima, dificuldade de dormir, palpitação e fadiga.

Os pastores

Pastor há 22 anos da Segunda Igreja Batista em Panambi (RS), Daniel Mauro Wachter conta que já passou por momentos difíceis e chegou a adoecer pelo excesso de trabalho. “É horrível, a gente perde força, aí vêm a tristeza, o desânimo e o sentimento de culpa, porque nós, pastores, nos cobramos muito e, quando pensamos que não alcançamos o nosso melhor, isso gera culpa”, relata.

Pastores e pastoras hoje, salvo exceções, são pessoas sobrecarregadas, estressadas, que vivem sob remédios. Não têm mais espaço na agenda para cuidar da saúde física, das emoções, do espírito e da própria família.  “Qual é o pastor que pode se dar ao luxo de passar longas horas em orações e comunhão com Deus? A não ser que opte por não dormir! Nesse caso então, será visto como um verdadeiro ‘servo de Deus’ simplesmente porque ora na madrugada.  Mas como fica o seu dia?”, indaga Wachter. Na Bíblia, aponta, há um questionamento pertinente em 1 Timóteo 3:5 sobre esse tema: “Pois se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da Igreja de Deus?”.

Problemas de fundo emocional têm levado “os homens do púlpito” a adoecer e até cometer suicídio. “É uma pena ver colegas ficando doentes Brasil afora por não descansar, mas esse é apenas um dos fatores que os levam ao suicídio. Existem muitos outros que precisam ser discutidos e resolvidos. Não existe pastor 24 horas. O líder espiritual necessita estar bem física e emocionalmente para ter condições de cuidar de sua igreja”, enfatiza.

Citando o conterrâneo Pr. Armando Paulo Castoldi, líder da Igreja Comunidade Cristã, Wachter chama para a reflexão: quantos pastores encontram nos seus rebanhos irmãos com quem podem repartir seus medos e fardos?  E mesmo entre colegas, quantos podem compartilhar suas fraquezas, sem o temor do julgamento e da comparação? A solidão dos sacerdotes é um mal que vem sendo detectado há tempos, mas poucos têm se importado com isso.

O que está acontecendo, afinal, no meio evangélico? “Não somos todos pecadores perdidos alcançados pela graça? Por que um pastor precisaria sentir essa desumana pressão de ser um super-homem? Por que as congregações precisariam esperar que seu comandante o fosse?”, questiona Castoldi. Não bastaria que fosse humilde, íntegro, sincero, dedicado à família, fiel ao Senhor; uma pessoa de oração e apta para ensinar as Escrituras? Não mereceria um homem assim dupla honra, ao invés de tantos julgamentos? (1 Timóteo 5:17-19).

A Igreja precisa se reencontrar com sua identidade e missão: “Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamarmos as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pedro 2:9).

De acordo com Castoldi, é imperativo que o rebanho retome à humildade, à santidade, ao amor fraternal, reencontre a misericórdia, a compaixão, o senso de pertencimento, a alegria de ser Corpo de Cristo. Resgate a submissão a quem é de direito, a autoridade espiritual para anunciar o Evangelho, o anseio pela pátria celestial, e não pelos tesouros deste mundo.

“Precisamos de um arrependimento profundo; retornar humildes e quebrantados aos pés de Cristo e reconquistar o coração do Pai: ‘Se o meu povo que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoareis os seus pecados e sararei a sua terra’ (2 Crônicas 7:14)”, lembra.

As ovelhas

De um lado, líderes; do outro, liderados. A sobrecarga de trabalho alinhada à falta de descanso têm afetado também os fiéis. O publicitário Gesson de Vasconcelos, da Comunidade Cristã Videira, de Fortaleza (CE), nunca havia tirado sequer um mês de férias. “O máximo que reservava para descansar eram cinco dias, pois trabalho com publicidade na internet e preciso estar atualizado com o que acontece. É tendência global”, justificou.

A ausência de férias gerou problemas de saúde como estafa e vista cansada. Só então entendeu ser urgente dar uma pausa maior. “Nos últimos meses, decidi trabalhar menos e tirar um tempo para descansar, devido ao surgimento de algumas enfermidades. Hoje entendo que descansar é essencial, pois traz nova perspectiva da realidade e, consequentemente, podemos otimizar o trabalho com novas ideias. Dedicar tempo a Deus nos permite entender que o amanhã está nas mãos dEle.”

Identificar a necessidade de parar é fundamental. O jornalista Luiz Carlos Pereira, 72 anos, além de atuar no mercado de trabalho, exerce a liderança de pelo menos quatro ministérios na Primeira Igreja Batista de Jardim Camburi, em Vitória (ES), da qual é membro. Há uma década e meia, o mês de janeiro é sagrado para o descanso em família. “Sinto falta da agitação das programações da igreja e das tarefas que executo, mas entendo ser necessário o descanso, pois volto mais leve para recomeçar meu serviço, com as forças renovadas”, disse.

Mas e quanto às atividades congregacionais? “Eu não deixo de participar delas. Tanto que, no lugar onde estou de férias com a minha família, ainda dou aulas na escola dominical, mas sem assumir responsabilidades. O importante é não deixar de descansar, para voltar com a bateria recarregada e fazer mais pela obra do Senhor.”

Razões para o esgotamento
Pr. Glalter Garcia Justo Rocha, da Igreja Presbiteriana em Santa Bárbara, Cariacica (ES)

Com 20 anos de ministério, Pr. Glalter Garcia Justo Rocha, da Igreja Presbiteriana em Santa Bárbara, Cariacica (ES), considera a função vocacional desgastante quando exercida de maneira responsável, contudo, não a vê como um caminho ao adoecimento do coração. Ele menciona quatro razões que contribuem para esse esgotamento experimentado por um número crescente de líderes, algo que muitas vezes leva a atitudes extremadas como o suicídio. São elas: falta de vocação, ausência de um relacionamento estável com Deus, vida familiar conturbada e visão incorreta sobre o Evangelho. “Pessoas não vocacionadas sofrem muito mais com o trabalho árduo e, muitas vezes, com a ausência de resultados e reconhecimento humano. É essencial que o prazer do ministro do Evangelho esteja prioritariamente em Deus e em Sua vontade, e não no ego e suas realizações”, alerta.

Quanto ao relacionamento com o Pai, o apóstolo Paulo é muito enfático em suas cartas sobre a importância da oração. “É interessante observar que os discípulos não pediram a Cristo para ensiná-los a pregar, mas sim a orar. Não estou falando sobre orações coletivas, que muitas vezes são apenas encontros de petição para resolver problemas; estou falando de vida de oração, na qual nossa amizade com Deus é aprofundada”, salienta Rocha.

“Homens casados com mulheres como a de Jó, que os incentivam em dias difíceis a amaldiçoar a Deus e morrer, contribuem para esse cansaço. Assim também quando não conseguem gerir um lar ou dar conta da educação dos filhos. Segundo as Escrituras, administrar bem o lar é uma das principais marcas de um pastor”, aponta ele em relação ao terceiro motivo que leva ao desgaste, a vida familiar.

A correta visão sobre o Evangelho e a Lei de Cristo é o último ponto dessa abordagem. “Eu destacaria o perdão e a santidade. A atividade pastoral nos deixa em dívida com Deus e com pessoas o tempo todo. Não conseguimos atender a todas as expectativas criadas ao nosso respeito. Também precisamos ficar atentos quanto ao que agrada ao Senhor e com o desleixo moral, algo que infelizmente muitos líderes deixam de observar quando não se encontram diante dos olhos de suas ovelhas”, lamenta.

Sobre o suicídio entre pastores, Rocha é enfático ao afirmar: “Não acredito que Deus nos chame para nos esgotar e nos levar a desejar mais a morte do quer a vida prometida por Cristo. Não menosprezo que alguns de nós nos sintamos mais cansados que outros. Porém, creios piamente que Cristo nos fornece a graça necessária para suportarmos o ministério por Ele proposto. Tudo posso (suportar) naquele que me fortalece (Filipenses 4:13)”.

Os três modos de parar

Em seu livro “A Essencial Arte de Parar”, David Kundtz, psicoterapeuta e diretor do Inside Track Seminars, situado em Berkeley, na Califórnia (EUA), ensina três modos de preservar a saúde mental que podem ser adotados em três níveis: pausas breves, escalas de viagem e paradas gerais. Segundo o autor, todos são eficazes, mas cada um é adequado a um momento diferente da vida.

Uma pausa breve é o ato de parar rapidamente e não fazer nada durante apenas um instante. Pode ser feita a qualquer hora, diariamente, e durante muitas vezes. É essencialmente curta e destina-se a aproveitar os momentos. Ideal para aqueles instantes vazios (ao esquentar algo no micro-ondas, por exemplo) ou quando se está estressado ou até mesmo com raiva.

As escalas de viagem já são menos frequentes e um pouco mais longas, mas conferem aquela sensação de que seu espírito tirou pequenas férias. Podem durar uma tarde, um dia ou um fim de semana e têm um bom resultado quando se busca um pouco de descanso para a alma.

Já as pausas gerais, que ocorrem poucas vezes na vida da maior parte das pessoas, são períodos que vão de uma semana a um mês e demandam mais planejamento e uma disponibilidade maior de tempo e energia. “Parar é uma maneira eficaz para o descanso da mente. Contudo, quanto mais frequentemente forem repetidos esses níveis de paradas ou maiores os períodos, mais duradouros serão os efeitos”, afirma Kundtz.

Programe-se
Feriados que podem valer uma pausa maior
Carnaval – ponto facultativo
04 e 05 de março (segunda e terça-feira)
06 de março (quarta-feira de cinzas) – ponto facultativo até às 12 horas.
Paixão de Cristo
19 de abril (sexta-feira) – feriado nacional
Dia do Trabalho
1º de maio (quarta-feira) – feriado nacional
Corpus Christi
20 de junho (quinta-feira) – ponto facultativo
Independência do Brasil
7 de setembro (sábado) – feriado nacional
Feriado Religioso Nacional
12 de outubro (sábado) – feriado nacional
Dia do Servidor Público
28 de outubro (segunda-feira) – ponto facultativo
Finados
2 de novembro (sábado) – feriado nacional
Proclamação da República
15 de novembro (sexta-feira) – feriado nacional
Natal
24 de dezembro (terça-feira) – ponto facultativo após às 14 horas
25 de dezembro (quarta-feira) – feriado nacional
Reveillon
31 de dezembro (terça-feira) – ponto facultativo após às 14 horas.
01 de janeiro de 2020 – feriado nacional

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