De volta à graça preciosa de Deus

Celebramos os 500 anos de Reforma na Europa. Celebração significa recordar uma grande realização, por um lado, e, ao mesmo tempo, testar as evidências duradouras desse evento na vida da Igreja hoje.

Para muitos de nós Protestantes, essa é uma tarefa desafiadora. O coração da Reforma é a doutrina da justificação, o ensinamento de como somos declarados justos aos olhos de Deus.  Um pecador é justificado por Somente a Graça (Sola Gratia), Somente pela Fé (Sola Fide), por Somente Cristo (Solus Christus), uma verdade que nos foi revelada por Somente a Escritura (Sola Scriptura). As “Solae” de Martinho Lutero definem a nossa identidade evangélica.

Vamos lembrar e depois nos testar com a primeira Sola: Somente a Graça (Sola Gratia). Para Lutero, graça significa um favor imerecido de Deus (Favor Dei) aos pecadores.[1] Graça é a disposição amorosa de Deus com aqueles que se desviaram e estão “mortos” no pecado porque “também estávamos destinados a sofrer o castigo de Deus” (Efésios 2.1-3; NTLH). A graça é de Deus, nem tanto uma proposição humana. Deus ama a humanidade e, em seu amor, deu o seu único Filho para a salvação de muitos (João 3:16; NTLH).

A graça é inimaginavelmente preciosa. Deus enviou o seu Filho, Jesus, para oferecer sua vida justa em troca de nossa vida pecaminosa na cruz e para assumir a culpa de nossos pecados. O Apóstolo Paulo escreve: “Pois, pela morte de Cristo na cruz, nós somos libertados, isto é, os nossos pecados são perdoados. Como é maravilhosa a graça de Deus.” (Efésios 1.7; NTLH).

A graça de Deus é a única forma de os pecadores serem salvos. “Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la.”(Efésios 2.8-9; NTLH). Novamente, escreve o Apóstolo: “Essa escolha se baseia na graça de Deus e não no que eles fizeram. Porque, se a escolha de Deus se baseasse no que as pessoas fazem, então a sua graça não seria a verdadeira graça.” (Romanos 11.6; NTLH). Salvação Somente pela Graça significa que vocês não se salvam. Cristo salva. A graça de Deus é estendida a toda a humanidade.

A graça é universal (Gratia Universalis).  O Apóstolo Paulo escreve que “Deus não leva em conta os pecados dos seres humanos e, por meio de Cristo, ele está fazendo com que eles sejam seus amigos.” (2 Coríntios 5.19; NTLH). Martinho Lutero resume que os instrumentos que Deus usa para revelar sua graça são a pregação da Palavra de Deus, o batismo e a Ceia do Senhor.[2] Ao celebrarmos a Reforma, celebramos mais conforto para a consciência Cristã, conforto centrado no amor de Deus por nós em Jesus Cristo, nosso Senhor. Somente a graça nos justifica.

Protestantes hoje declaram que a graça de acordo com Lutero é o coração de sua crença. Na prática, no entanto, frequentemente interpreta-se radicalmente mal Somente a Graça (Sola Gratia) como um convite não apenas para justificar o pecador, mas também o pecado. Dietrich Bonhoeffer chamou essa tendência de um sistema de graça barata, que tenta justificar o pecado em vez de o pecador,[3] negligenciando todo o custo do discipulado,[4] separando a graça da cruz e de um relacionamento ativo com Jesus, o nosso Senhor.[5] O apelo de Bonhoeffer à Igreja para retornar a um princípio da Reforma voltando ao conceito de graça como compreendido por Lutero e os Reformadores é um lembrete oportuno para nós ao celebrarmos os 500 Anos de Reforma. A graça barata não justifica o pecador e quem justificar o pecado permanecerá na escravidão do pecado. A verdade da conclusão de Bonhoeffer pode ser vista em todos os círculos Protestantes de hoje. A celebração da Reforma oferece uma oportunidade de confessarmos o fracasso, retornarmos à doutrina original e praticarmos o discipulado – um discipulado dispendioso, mas que, ao mesmo tempo, nos dá vida.

Prof. Dr. Johannes Reimer: Doutor em Teologia, é professor de Missiologia. Autor de diversos livros e presidente da Sociedade de Educação e Pesquisa na Europa, é membro do Conselho da Fundação Superior Social, que promove projetos sociais em uma região da Alemanha, e conselheiro da Associação Evangélica ProChrist.

[1] LW 25:305-306.

[2] SA III IV (McCain, Segunda Edição, 278).

[3] Dietrich Bonhoeffer: Nachfolge. (Güersloh: Gütersloher Verlagshaus, 2011), 29.

[4] Ibidem, 31.

[5] Ibidem, 30.