Davi Lago fala sobre a voz dos cristãos na política

Os evangélicos já somam quase um terço da população brasileira. Com tamanha força, como é possível ajudar na construção de um Brasil melhor?

 

Graduado em Direito e mestre em Teoria do Direito pela PUC-MG, o pesquisador do Instituto Pensando o Brasil e pastor batista Davi Lago tornou-se referência quando o assunto é a forma de “redesenhar” o país, por meio da relação entre os evangélicos e a política brasileira. Em “Brasil Polifônico”, seu livro recém-lançado, ele destaca que não é possível que a voz dos evangélicos deixe de ser considerada nas principais discussões da nação. Da mesma forma, enfatiza que esse grupo precisa saber ouvir vozes dissonantes, mas igualmente relevantes no contexto de uma sociedade plural. Em uma visita à redação de Comunhão, o líder ministerial falou sobre esse e outros assuntos.

O senhor está envolvido em um universo digital, escreve para blogs, ministra cursos on-line. Como avalia seu papel como digital influencer?
O fenômeno dos digital influencers ocorre com os chamados “nativos digitais”, que são jovens entre 15 e 17 anos de idade com 5 milhões de seguidores. Mas existem também os “migrantes digitais”, que são aqueles que nasceram antes de 1995. Por exemplo, no final do mandato, o presidente norte-americano Barack Obama tinha 9 milhões de seguidores no Instagram, enquanto Selena Gomes, uma adolescente, atriz e cantora, tinha 130 milhões.

É óbvio que Obama é uma influência concreta maior como estadista. Mas, no mundo digital, Selena se torna uma voz maior aos jovens. Ou seja, a arena digital não é necessariamente igual, proporcional à concretude, à realidade. Mas é um espaço novo que não para de crescer e que nós precisamos também começar a nos posicionar. Afinal, Jesus disse que devemos também ir por todo o mundo e por todas as linguagens.
E essa é uma delas.

De que forma os cristãos podem se posicionar?
Do mesmo modo que nos posicionamos andando numa universidade. Não basta você estar presente nela, mas é preciso também desenvolver teorias acadêmicas. Ou seja, não basta ter uma conta, mas é necessário também falar e ter conteúdo adequado àquela linguagem.

Como lidar com os extremismos que temos visto nas redes sociais?
Jesus ensina que não é o que entra que contamina; e sim, o que sai do nosso coração. O que as mídias têm se tornado de forma muito ampliada é um lugar onde se pode destilar o ódio. O cristão precisa aprender a se comportar de modo íntegro em todos os locais, incluindo as redes sociais. É preciso sermos embaixadores de Deus em todos os locais, incluindo o meio digital.

O crente pode usar as mídias sociais de forma adequada para levar o Evangelho?
As mídias são uma ferramenta, como o idioma e o dinheiro são, mas nós devemos aprender a lidar com elas. Especialmente na questão da comunicação, a Igreja sempre teve um papel pioneiro. De Gutemberg a Zuckerberg, os protestantes foram atuantes.

A imprensa de Gutemberg foi vital para a disseminação das ideias do protestantismo com Martinho Lutero; e hoje vivemos uma nova revolução da mesma proporção. Estamos saindo da era dos meios de comunicação em massa para a era da massa de meios de comunicação – é mais de um blog por segundo. Precisamos pedir discernimento a Deus de nos valermos dessas técnicas e novas ferramentas. Nessa fase de comunicação, é mais do que necessário buscarmos na Bíblia, base de uma conduta sóbria, para sermos testemunhas, pois é o comportamento que glorifica o nome de Jesus.

“O cristão precisa aprender a se comportar de modo íntegro em todos
os locais, incluindo as redes sociais. É preciso ser embaixador de Deus em todos os locais e também no meio digital”

Nesse movimento tão grande de desinformação das fake news, como separar o joio do trigo? É preciso fazer a checagem do que vale e do que não vale?
Do ponto de vista da fé cristã, sempre através das Escrituras. É interessante o texto dos “Iiberianos”, eles eram cristãos mais nobres do que os de Tessalônica, porque conferiam nas Escrituras para ver se era aquilo mesmo. A Bíblia não é tendência, é sempre verdade, e por isso que nós sempre temos de voltar ao texto bíblico, em comunhão com outros irmãos, e encontrar uma direção mais saudável.

O senhor se tornou referência em debates sobre temas essenciais para se redesenhar o Brasil. Quais os cinco primeiros eixos estratégicos para essa mudança?
Toda crise é uma grande oportunidade de reconstruirmos o Brasil e de lançarmos novas bases. Claro que algumas coisas são prioridades, e uma delas é a educação. As faculdades do país parecem interior de um presídio, o que mostra que algo precisa ser feito. Em nenhum dos rankings você vê uma universidade brasileira entre as 100 melhores do mundo, e isso não está em sintonia com a nossa pujança econômica. O Brasil é a 10ª economia do mundo, apesar de tudo, e caminha para se tornar a quinta economia mais pulsante do planeta, de acordo com analistas.

Outro eixo seria uma nova atitude cidadã, que os antigos chamavam de “virtude cívica” – o interesse pelas questões nacionais. Desde a reabertura democrática no Brasil, é a primeira vez que há um interesse tão grande da juventude na pauta pública, e isso é positivo para o país: uma cidadania mais participativa. E com esses meios de comunicação novos, temos mais possibilidades de ocorrer. Outras questões passam necessariamente também por ajustes econômicos e reformas sérias que precisam ser conversadas, tributária e previdenciária, porque o Estado brasileiro se tornou pesado. Em contrapartida, apesar de os impostos serem muito altos, os serviços prestados são completamente ultrapassados.

Um quarto eixo que precisa ser trabalhado é a questão das desburocratização no Brasil, já que as estruturas burocráticas são dos séculos 18 e 19. Por exemplo, os portos brasileiros demoram 13 dias para embarcar um contêiner, enquanto outras nações em um dia resolvem tudo. O Brasil deixou de ser um país competitivo, deixou de ter uma gestão simplificada no governo e um ambiente favorável para o negócio, e todos perdem com isso.

“Não precisamos mais de cristãos nominais nem de uma megaigreja. O que falta é ter sal, ter cristianismo com gosto, porque Jesus falou que, se não tiver sabor, o sal será pisado pelos outros. A Igreja não é um tapa-buraco; tem que salgar e fazer a diferença”

Ainda poderíamos falar do comércio exterior, do renascimento da arena global, da revisão do funcionalismo público, que é sobre o grande número de cargos desnecessários que o país tem, os chamados “cargos de livre provimento”. Nós precisamos de um chacoalhão em alguns desses eixos. A violência aumenta quando aumenta a injustiça. Essa é uma visão bíblica, da tradição judaico-cristã. Nós resolvemos a violência reduzindo a injustiça, ou seja, quanto maior a justiça, a consequência é paz. Na teologia, a justificação traz a paz.

Isso se justifica o alto índice de desemprego no país?
O Brasil é o maior celeiro de agricultura do mundo, tem ativos muito fortes, terra fértil, é poupado de catástrofes naturais como outras nações vivenciam recorrentemente. Por um lado nós conseguimos produzir alimentos com calorias e proteínas que alimentam duas vezes o tamanho do Brasil. Até mesmo no caso da proteína, há estudos que mostram que nós conseguimos alimentar com a nossa comida um bilhão de pessoas. Então não faz sentido que tenham 15 milhões de pessoas morrendo de fome no país. Não faz sentido o país ser o maior aquífero do mundo e ter, ao mesmo tempo, seca. Não faz sentido o Brasil ser elogiado. São essas injustiças que temos acompanhado todos os dias que geram violência.

“Os cristãos são um terço da estatística do país e precisam estar à altura do momento, ou seja, começar a lidar de igual para igual com o tipo de problema que nós temos”

O senhor consegue ver um modo de a atual estrutura política viabilizar esse chacoalhão que o país precisa?
Nós estamos no momento de mudança no mundo inteiro. A nossa vida é digital, a velocidade da informação, a sociedade em rede. Apesar disso, as estruturas do poder ainda são analógicas. A democracia representativa, os partidos políticos, sindicatos, tudo isso é de um mundo passado. A teoria do Estado contemporânea diz que nós estamos no meio da transição, a estrutura política passa por uma mudança. E com essa crise econômica e ética da liderança, abre-se uma oportunidade de mudança, mas é um momento para termos pé no chão. O Estado democrático de Direito é um paradigma, precisamos entender que princípios são esses e a participação do protestantismo na fundação dos direitos humanos, pois você vê uma ignorância muito grande na Igreja. E se levarmos a sério entender o momento e discernir o que está acontecendo, é possível a gente construir saídas viáveis para a crise brasileira.

E de que forma os crentes podem contribuir para essa mudança?
A Igreja não precisa do Estado, só depende de Deus. Ela vai além do poder econômico. Mas a política se torna uma ferramenta que não pode ser nem demonizada nem deificada. Os protestantes hoje são a maioria no Brasil e, mesmo com tantos acessos na mão, fazem pouco pelo país. Um exemplo são as instituições protestantes centenárias, que foram construídas em um período muito mais difícil para o protestantismo e funcionam até hoje com excelência. Mas, atualmente, com tamanha força, não fazemos nem 1% disso. Os cristãos precisam amadurecer na conversa. Os protestantes no Brasil se comportam como se fossem a minoria. Os cristãos são um terço da estatística do país e precisam estar à altura do momento, ou seja, começar a lidar de igual para igual com o tipo de problema que nós temos.

Quando a gente vê políticos corruptos se apresentando como evangélicos, é bem ruim. Falta crente de verdade na arena pública?
“Cristianizado”, o Brasil é desde o início, tanto que é de praxe a abertura dos trabalhos do Congresso Nacional com a seguinte frase: “Sob a proteção de Deus e pelo bem do povo brasileiro”. Mas o que estamos vendo são saques aos bens do povo brasileiro. Não precisamos de cristãos nominais nem de uma megaigreja. O que falta é ter sal, ter cristianismo com gosto, porque Jesus falou que, se não tiver sabor, o sal será pisado pelos outros. A Igreja não é um tapa-buraco, tem que salgar e fazer a diferença. E não precisa da maioria. Se tiver a minoria, mas com conteúdo, já faz a diferença. Pouco fermento altera a consistência da massa; um pouco de perfume altera o aroma do ambiente; um pouco de luz já dissipa as trevas. Da mesma forma, o pouco sal já muda o sabor do alimento. Falta a gente ter o conteúdo, e não mais a casca do Evangelho.

Dentro da Igreja, existe instrumental humano para mudar isso em um curto prazo?
Não existem respostas simplistas. Nós enfrentamos problemas graves como repactuação federativa, ajuste fiscal, reforma da Previdência. Estamos falando de 210 milhões de pessoas. Isso não é resolvido com achismos. É preciso repensar um projeto de país. É necessário chamar lideranças de diversos segmentos da nação brasileira que repense o país. Um grupo de pessoas sóbrias, que tenha patriotismo, ame a nação, o povo. Um grupo que entende a história e tenha capacidade de planejar o Brasil no longo prazo, já nas próximas gerações. E uma vez traçados esse projetos, realizar costuras reais, que respeitem as pessoas e que não rasguem direitos humanos.

As lideranças que estão surgindo na Igreja evangélica brasileira hoje têm condições atuar como protagonistas nos próximos 30 anos?
Existem muitos jovens comprometidos com a nação brasileira, com princípios de ética, que estão se formando, trabalhando, estudando e levando a sério esse desafio. Muitos estão saindo como candidatos nas eleições e assumindo postos decisivos em faculdades brasileiras, públicas e privadas. A Igreja em sua tradição é uma grande instituição que tem formado líderes na história do mundo. A fé cristã ampara diversas lideranças, como Joaquim Nabuco, um líder abolicionista na escravidão.

O que é o Brasil polifônico?
É um Brasil plural, que tem sertanejos, gaúchos, descendentes europeus, afrodescendentes, asiáticos. Existem várias vozes, e a voz evangélica é uma delas. Jesus disse isso explicitamente. Deus faz chover e o sol raiar sobre justos e injustos. E temos que aprender a coexistir. Essa é a mensagem de Jesus. Ele nos confimou a mensagem de reconciliação. Somos embaixadores dessa mensagem. Há tempo para tudo, e este é o momento de nos reunirmos pelo futuro dos brasileiros.

O livro “Formigas – Lições da sociedade mais bem-sucedida da terra”, escrito em parceria com o juiz Willian Douglas, alcançou números incríveis de vendas em pouquíssimo tempo. Esse resultado nos leva a pensar na necessidade de as pessoas serem mais organizadas e produtivas?
O livro é sobre fé e trabalho. Neste momento de muita confusão, especialmente na atividade econômica brasileira, é muito importante voltarmos às Escrituras e entendermos o que a Bíblia diz sobre isso. O livro trabalha com a destruição de mentiras e coloca uma perspectiva equilibrada. Não podemos cair em extremos nem no esquema da ansiedade. São os extremos que a Bíblia mostra para nós.

Que mensagem o senhor deixaria hoje?
O Brasil é um país maravilhoso que une evangélicos e não evangélicos. É desejável que haja debates, porque são eles que forjam as ideias, que refinam os pensamentos e as políticas. Mas é preciso avaliar o momento, porque uma polarização suicida como está acontecendo não vai levar a lugar nenhum. A polarização abre espaço para demagogia, projetos obscuros de poder, de gente despreparada e desqualificada. O que menos precisamos no momento é brincar com o destino da nação brasileira. Também precisamos manter o debate em um ambiente de racionalidade, de tolerância e de respeito um ao outro, isso é conquista da Reforma Protestante. Esse debate acontece em um ambiente de tolerância, e ele avança com ética e educação.


Veja aqui a entrevista na integra:


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