Comunhão entrevista Daniel Araújo (Paxtorzão)

Humorista, pastor, cantor, contrabaixista, ministro de louvor e influenciador digital, Daniel Araújo está acostumado a enfrentar resistência a seu trabalho

Por Luciene Araújo e Priscilla Cerqueira

Um dos fundadores do coletivo Porta Estreita e “pai” do Paxtorzão, este paulista de 34 anos garante que polêmica faz parte da rotina. Em 2018, a pressão sofrida foi tão forte a ponto de resolver “matar” o polêmico personagem.

Agora, em 2019, fortalecido e curado da gastrite, ele decide “ressuscitar” o bom humor que conquistou milhões de views no YouTube e quebrou paradigmas. Nesta entrevista à Comunhão, Daniel convida a boas reflexões.

Fale um pouco sobre o Daniel Araújo, seu processo de conversão, formação e identidade cristã.

Minha mãe tinha dois filhos, meu irmão (Danilo) e eu. Nasci em São Paulo. Ela se divorciou quando eu tinha nove meses e em pouco tempo se casou com um pastor metodista que era viúvo, pai de duas filhas pequenas e que também se tornou meu pai. Juntaram dois filhos e duas filhas, e os meus pais tiveram mais dois garotos! Fora os primos e os adotados. Isso quando meu pai não acolhia os missionários dentro de casa também (risos)! Vejo-me na igreja desde sempre, com um violãozinho de brinquedo, “tocando” no primeiro banco da Igreja Metodista. Mas algumas igrejas mais históricas têm o costume de remanejar os seus pastores, por necessidade (e às vezes por politicagem, risos), o que fez com que eu não permanecesse por muito tempo em uma única congregação. Aos 12 anos, recebi o convite de um amigo para ir à igreja. O Brasil para Cristo, onde me batizei. Com 15, comecei a estudar o contrabaixo e descobri uma razão da minha vida! Mas nunca consegui permanecer por muito tempo em uma só igreja… Ou tinha problemas com a visão da igreja, ou a igreja não me aturava (kkkk), ou ela simplesmente fechava, como aconteceu na antepenúltima da qual fui membro, onde conheci minha esposa… Foi fechada porque o pastor assumiu sua homossexualidade, e a igreja (que era sempre abraçada e acolhida por ele, que é um cara incrível) não soube lidar com essa situação e virou um mercadinho de bairro. Vi minha família apanhar bastante. Eu também já apanhei bastante com igreja, mas nunca desisti do propósito de ser igreja. Acho que por isso que ainda frequento, visito e vivo de ajudar diversas delas.

Você foi um dos criadores do canal Porta Estreita, em 2013, formado por jovens que debatiam assuntos do dia a dia cristão por meio de vídeos humorísticos. Que frutos esse projeto colheu e por que acabou?

“Nosso julgamento e nossa intolerância só afastam ainda mais as pessoas. Faltam empatia e humildade no nosso meio”

Eu me propus a ajudar um amigo, Gilson, que estudava Cinema e queria montar um portfólio de filmagem que não fosse só clipe musical. Conheci-o quando estava procurando plataformas para lançar meu primeiro CD, em 2007, e ele se tornou até meu padrinho de casamento! Comecei a juntar amigos que ia conhecendo nas igrejas onde cantava, e passamos a gravar os vídeos. A ideia era eu cuidar dos roteiros e ajudar na direção e produção dos vídeos. Mas, devido à dificuldade da galera em atuar, acabei fazendo o papel do pastor, que viralizou. A galera da internet começou a pedir o pastor de volta… Só que o Gilson era mais velho, mais sério e mais tradicional que eu. Então tínhamos muita divergência na criação dos roteiros, e começou a se desgastar nossa amizade. Com o sucesso do Porta Estreita, surgiram novas pessoas, algumas para ajudar, outras nem tanto (risos). E o Gilson e eu, cada vez mais distantes. Um dia, ele mudou todas as senhas das redes por achar que eu tinha feito algo sem consultá-lo, que eu havia subido vídeos em outra plataforma. Mas na verdade eu só tinha feito umas capas diferentes nos vídeos antigos para divulgar em um site. Fiquei um fim de semana sem acesso e, na segunda-feira, nos reunimos para decidir como nos separar. Resolvi ficar sem nada e começar “do zero”. A página no Facebook estava com 300 mil likes, o canal do YouTube tinha 150 mil inscritos e mais de 20 milhões de visualizações, mas não queríamos andar mais juntos. Havia muito trabalho, pouco dinheiro, muita crítica e uma amizade abalada.

O que veio em seguida?

Em janeiro de 2015, foi a estreia do canal PAX e Suas Ovelhas. No mês seguinte, descobri que minha mãe me inscreveu no programa “Além do Peso”, da Record. Fiquei quatro meses praticamente confinado na emissora, o que acabou me trazendo visibilidade a um público diferente do meu. Venci a temporada, perdi 50 quilos, tive 39% dos votos (quase 100 mil votos) e tentava conciliar o canal, as igrejas e a TV. Por algumas vezes arrumei um tempo para ver o Gilson. Pedimos perdão um ao outro, nos abraçamos, oramos juntos. Infelizmente, em dezembro de 2015, o Gilson faleceu devido a um problema no fígado.

O trabalho na TV o tornou conhecido em todo o Brasil e permitiu, de certa forma, que evangelizasse. O quanto essa experiência influenciou na formação da pessoa que você é hoje?

Recebo até hoje centenas de mensagens de pessoas que atribuem o nosso trabalho como uma ferramenta de cura da depressão, de síndrome do pânico, de desejos suicidas. Inclusive, muitos líderes e pastores, pessoas que pensam em desistir de tudo, ao enxergar que podemos rir dos nossos defeitos, passam a levar uma vida um pouco mais fácil. Outra coisa especial é ver canais hoje alcançando muito mais do que nós e saber que servimos como influência para essa gente acreditar e produzir, mesmo que sejam poucas pessoas.

Você é um dos precursores do “humor cristão” no Brasil, que tem mudado a percepção da Igreja e do meio eclesiástico. Há muitas críticas entre cristãos contra a arte do humor em prol do Evangelho? Como lida com isso?

A internet acabou dando voz até pra quem não merece ser ouvido. Hoje, um garoto de 11 anos que nunca construiu nada na vida ou um adulto frustrado e irrelevante se sentem no direito de criticar, ofender e até tentar boicotar o trabalho do outro.

É o preço a ser pago. Todos que produzem algo para a internet precisam estar preparados pra pancada, que uma hora ou outra vem! E o pior: misturam tudo! Sua vida privada à vida pública, opinião com espiritualidade. Não conseguem simplesmente não acompanhar, não assistir e seguir sua vida. Achei que tinha aprendido a lidar com isso, até que, em 2018 o bicho pegou pra mim. Comecei a ficar doente, com ansiedade a mil, tristeza e perda de vontade de produzir, sentimentos que se misturaram às críticas e ao que eu acabava vendo nos bastidores de igrejas e que não podia opinar, além dos mais diversos usos e costumes que tentavam de todo jeito me impor, mesmo sabendo que meu trabalho nunca teve uma denominação.

Em 2018, você anunciou que deixaria o personagem Paxtorzão para se dedicar a outros projetos. Foi essa pressão que o fez tomar essa decisão?

Acabei fazendo um desabafo a um site sobre o tanto que estava sofrendo e que, se precisasse “matar” o personagem, eu o faria. A notícia se espalhou, e há seis meses o Paxtorzão não aparece mais. E há seis meses minha gastrite foi embora, eu consegui resolver vários problemas e… decidi ressuscitar o Paxtorzão agora em 2019!

E o que o Paxtorzão “ressuscitado” traz de diferente do que “faleceu”?

O Paxtorzão vem mais “leve” agora (risos), com o olhar mais para o lado de fora da Igreja, sem somente piadas internas de crente pra crente. Mas o intuito é alcançar quem realmente precisa! Continuar causado, afinal, se eu não te decepcionei ainda, é questão de tempo (gargalhada).

Há muitas iniciativas nas mídias sociais para disseminar o Evangelho. Qual sua avaliação quanto à qualidade dessa produção, especialmente as que envolvem conteúdo para jovens?

Acho tudo muito fraco! E me incluo nisso! Temos muito a evoluir ainda. A galera que produz conteúdo para o cristão precisa entender que evangelizar é falar a linguagem de quem está fora, e não de quem está dentro da Igreja. A arte existe por si só, é um fim, e não um meio. A finalidade do humor é fazer rir. A partir da hora que, em tudo o que faço, preciso colocar Deus explicitamente – para não desagradar os crentes, ou para “alcançar” os não crentes –, já não é mais humor, é propaganda! Hoje, pregadores e páginas de humor viraram páginas políticas, porque estão mais preocupados com os números do que com o propósito. Se o cara é comediante, ele não pode explicar uma piada no fim dela e corre o risco de ter a reprovação do público, mas não dá pra voltar atrás. É como um pênalti: às vezes a gente faz gol, às vezes é na trave e às vezes a gente erra. Faz parte do trabalho! Hoje, as mesmas pessoas que vivem falando sobre politicamente correto são as que criam conteúdos fracos, polarizados, e se baseiam nos números. Sim, eles são importantes, mas, quando se tornam a prioridade, são tão ruins quanto o amor ao dinheiro. Poder e dinheiro são o que mais derruba o homem nos dias de hoje…
e mulher (risos).

No universo evangélico, qual é o peso do Paxtorzão se comparado ao do Daniel Araújo?

Não consigo saber ao certo. Percebo um respeito muito grande em todos os lugares que vou, porque o meu público é maior que os números que tenho. Até porque vários vídeos são repostados em plataformas a que não tenho acesso, como o WhatsApp. Essa pausa que dei no personagem me fez dedicar um tempo maior à música, e obtive resultados tão bons quanto no humor. Prezo muito pela arte. Não quero ser conhecido somente como o Paxtorzão, ou como o músico ou como o cantor. Quero ser conhecido como um todo!
Hoje falo de música, de humor, de política e até de Netflix, e a galera me ouve! Tenho vídeos de pregação com milhões de visualizações em outros canais… e curto demais isso: ter liberdade para usar toda forma de arte para tocar as pessoas. Evangelizar não é empurrar goela abaixo Jesus ou a Bíblia nas pessoas. Você pode mostrar Deus através da excelência do seu trabalho, através do carinho em produzir algo às pessoas, e o principal: através do caráter de Cristo em você. O resto, pode até parecer bonito, mas pode ser só discurso.

E sobre os novos projetos?

Vou voltar a gravar vídeos de humor. Lancei meu álbum nas plataformas, tenho gravado algumas versões ao vivo e também alguns covers com uma roupagem mais groove. Mas não penso em voltar só com vídeos pequenos, quero fazer vlog, tenho pensado em um reality de emagrecimento para o canal, mostrando as possibilidades e técnicas para perda de peso. E o foco agora é a série do retorno do PAX. Estamos escrevendo o roteiro, reunindo a equipe e descobrindo formas de levantar recursos para a execução desse projeto, que terá 12 episódios, com duração entre 15 e 20 minutos cada!

Você é um dos mais renomados contrabaixistas do meio gospel no Brasil. Tem algum projeto específico nesta área?

Muita gente me pede videoaula e aulas por hangout, mas o tempo é impossível. Estou conversando com uma empresa para produzirmos uns vídeos com dicas de grooves e frases que uso no bass para atender essa galera. Acho que vai sair, hein?!

O que espera para o Brasil nos próximos anos?

Tá bem difícil esperar algo bom nesses próximos anos. Se colocar evangélicos no poder fosse a solução para o nosso país, a bancada evangélica seria exemplo, e já teríamos um Brasil melhor. Acho que esse incentivo à indignação pela injustiça e violência não resolve em nada o problema na educação e da miséria que ainda existem e infelizmente vão continuar existindo enquanto nós não fizermos algo. Estamos mais preocupados em matar bandidos e proteger nossas coisas do que em viver para o próximo. Já temos mais igrejas que botecos, mas a violência contra a mulher não diminuiu, e fazemos vistas grossas aos órfãos e viúvas que ainda existem. Amo o país onde nasci, mas é triste a situação. O jeito é orar e fazer a minha parte.

E qual o papel do cristão nessa mudança?

Poderia ser essencial. Mas, para que isso aconteça, precisamos parar de querer transformar as pessoas por fora, entender que quem convence é o Espírito Santo. Nosso julgamento e nossa intolerância só afastam ainda mais as pessoas. Nenhum de nós merece o céu, mas queremos nos sentir melhores que os outros. Faltam empatia e humildade no nosso meio.

Qual seu maior sonho hoje como cristão?

Talvez um sonho que muitos tiveram, mas que ninguém conseguiu: que o crente amadureça e não se permita mais ser usado por poderosos que, “na real”, pouco se importam com ele. Que cada um entenda que Deus fez todos especiais, e que Ele pouco se importa com nossos rituais, mas que valoriza nossos relacionamentos. Você não é um número, é morada do Espírito Santo. E o único objetivo pelo qual foi chamado é para amar. Ame e deixe Deus fazer o resto! Essa é a Graça! Alegria da salvação!

A MATÉRIA ACIMA É UMA REPUBLICAÇÃO DA REVISTA COMUNHÃO. FATOS, COMENTÁRIOS E OPINIÕES CONTIDOS NO TEXTO SE REFEREM À ÉPOCA EM QUE A MATÉRIA FOI ESCRITA.

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