Cultura sem comandante no Brasil

Valter Campanato/Agência Brasil

Cultura: João Batista de Andrade pede demissão. Segundo ele, por duas razões: corte de 43% do orçamento sofrido pelo Ministério da Cultura, há dois meses, e polêmicas envolvendo a nomeação do presidente da Ancine.

O ministro interino da Cultura, João Batista de Andrade, em carta enviada ao presidente Michel Temer, afirmou não ter interesse em continuar na pasta. Ele se tornou titular da Cultura em maio deste ano, depois da saída de Roberto Freire, quando vieram a público gravações de Joesley Batista, da JBS, em conversas suspeitas com Temer.

Andrade, que é filiado ao PPS, disse à Folha que motivaram seu pedido de demissão o corte de 43% do orçamento sofrido pelo Ministério da Cultura, há dois meses, e polêmicas envolvendo a nomeação do presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

JUSTIFICATIVA

Ele afirma que Debora Ivanov, com apoio de cineastas e do ex­-titular do ministério, deveria ocupar o cargo, mas o governo Temer preferiu outra indicação. “O que acontece é que o presidente tem direito de fazer isso, mas não é a boa política desautorizar o Ministério da Cultura”, disse Andrade.

Andrade também afirma que, após o corte orçamentário, o ministério se tornou “inviável”. “Era um ministério que já estava deficiente. O Fundo Nacional de Cultura, que já teve R$ 500 milhões na época áurea, hoje tem zero de recurso. É um ministério inviável tratado de forma a inviabilizá-­lo ainda mais.”

Andrade, terceiro a assumir o comando do Ministério da Cultura desde o início do governo Temer, acrescentou ainda que o país vive um “quadro desfavorável para a política cultural” e não opinou sobre futuros nomes que possam assumir pasta.

RÁDIO CORREDOR

Membros do Palácio do Planalto garantem que a disputa na Ancine desgastou a relação do governo com o ministro interino e Temer já avaliava nomear novo comandante da Cultura assim que voltasse da viagem à Rússia.

Mesmo com o pedido de demissão de Andrade, o presidente decidiu que não antecipará a nomeação e estuda os nomes do deputado André Amaral (PMDB/­PB) e da senadora Marta Suplicy (PMDB­/SP) para assumir a pasta.

Andrade queria nomear o presidente da Ancine mas se deparou com indicações do próprio Planalto e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM/­RJ), para o posto.

No acerto do governo, Sérgio Sá Leitão (foto) ficaria na presidência da agência e o nome indicado por Maia, aliado de primeira ordem do presidente, assumiria uma diretoria da Ancine, descartando, assim, a opção de Andrade.

Quando o então ministro interino tomou conhecimento de que não conseguiria influenciar nas nomeações, fez chegar ao Planalto sua irritação e descontentamento, o que desagradou a Temer.

“Não quero participar desse sorteio de quem será ministro. Eu me recuso a participar disso”, afirmou. “Deixo o governo livre para indicar quem quiser. Pesa muito a incapacidade enorme de superar essa crise.”

Imagem: ©netun lima