Cristão em tempo integral

Não só no templo. Não só em dia de culto. Mais do que seguir uma liturgia, ser cristão é ter um estilo de vida constante e coerente em todo tempo. É refletir a luz de Jesus em grandes e pequenas ações, à vista de multidões e quando se está sozinho, entre irmãos e incrédulos, no discurso e no testemunho…

Domingo de manhã. Na escola dominical, o pastor pede para que toda a igreja leve um visitante ao culto à noite. Um vizinho, um amigo, um parente… “Todos devem trazer alguém para ouvir o Evangelho e ter a vida transformada”, apela o líder. Após o almoço, um dos membros da igreja toca a campainha do vizinho não crente. Apesar de morar ao lado do vizinho há 10 anos, ele não sabe seu nome, não se lembra da última vez que lhe desejou “bom dia” e nunca tentou nenhum tipo de aproximação. “Sabe o que é, eu queria te convidar para ir ao culto esta noite, porque Deus te ama, eu também te amo. Vamos?”. A resposta? “Não!”.

Já em um outro contexto, conta-se numa anedota que durante o culto fúnebre de um dos mais antigos membros de uma pequena igreja, o pastor enchia o peito para homenagear o irmão que havia partido: “Um crente exemplar, um homem temente, um cidadão correto, uma pessoa de bem, cumpridora dos seus deveres, prestativo, respeitável, de conduta ilibada, um exemplo para a nossa igreja…” Até que a viúva, que ouvia atentamente as palavras do pastor, interrompeu o discurso ao cutucar a filha: “Querida, vá até o caixão e confirme se é mesmo o seu pai quem está lá”.

O que há de comum nessas duas situações? A constatação de que em muitos casos, infelizmente, o discurso e o testemunho de um cristão podem ser duas coisas bem diferentes, dois caminhos totalmente antagônicos. E a questão é: o que há de errado quando os que estão mais próximos – familiares e vizinhos – não conseguem reconhecer em um cristão a vida de Cristo – e tudo que ela representa e caracteriza?

Uma das razões para esse tipo de comportamento, explica o pastor Abdruschin Schaesser Rocha, também professor de Teologia Pastoral da Faculdade Unida, é a forma como os cristãos se relacionam com a Palavra de Deus. “Deixamos de perceber que para poder chamar as Escrituras de Palavra de Deus precisa haver uma encarnação. A Palavra precisa estar encarnada em nós. Quando o cristão não enxerga dessa forma e vê a Palavra como algo que está fora de si, isso gera uma ‘esquizofrenia espiritual’ e a Palavra permanecerá apenas no âmbito do discurso. Por isso, os protestantes se tornaram, ao longo da história, muito bons em discursos”, disse o professor.

“Ser” a Palavra de Deus também foi uma posição defendida pelo apóstolo Paulo ao escrever para os coríntios: “Vocês mesmos são a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos. Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedras, mas em tábuas de corações humanos” (2 Co 3:2-3). Uma postura que estava muito mais ancorada no testemunho do que na pregação.

O sagrado camuflado

Outra razão a explicar a discrepância entre o comportamento e o discurso de muitos cristãos, segundo o professor Abdruschin, é o fato de os crentes, com frequência, enxergarem a vida cristã de forma “departamentalizada” e reduzir, assim, o conceito do que é igreja.

“Falo da eleição de lugares e dias como especiais. Se o templo é eleito como um lugar especial, se o sábado ou o domingo são eleitos como dias especiais, então, na cabeça de muitos cristãos, somente lá e nesses dias deve-se fazer coisas especiais, corretas. O testemunho perde muito com isso. Somos chamados a testemunhar, principalmente fora dos templos e dos ajuntamentos. Precisamos romper com essa visão ‘em departamentos’ para que tenhamos um testemunho integral. O cotidiano é o lugar onde eu devo ser cristão, e para isso preciso entender a Igreja com uma visão mais ampla, de que não é um local, mas pessoas”, argumentou.

E para ele, esse quebra de paradigmas deve começar a partir dos líderes da Igreja. “O fato de os líderes encherem a igreja de programações nada mais é do que tentar prender o membro num local considerado ‘especial’, tirando-o dos relacionamentos em sua comunidade. A estratégia de pastores de quererem ‘prender’ o membro no templo é uma ideia equivocada. Precisamos exercitar o olhar de enxergar o sagrado em meio ao comum e saber que o sagrado se camu a no dia a dia”, disse o professor.

A mesma opinião é compartilhada pelo pastor Geraldo Lúcio Rodrigues, da Igreja Metodista Wesleyana do Bairro Garoto, em Vila Velha: “Vivemos numa época de ativismo e de inversão de prioridades. Nenhuma atividade, por melhor que seja, pode pôr em risco nossos relacionamentos. A Igreja precisa ser coerente com a mensagem que prega. Precisamos ter coragem de admitir nossos equívocos como Igreja e colocar nossos programas numa rota segura, que garanta a qualidade da comunhão.”

Para que isso aconteça, o pastor defende que precisa haver uma volta da Igreja às suas origens. “Minha denominação, depois de 45 anos, tem repensado sua própria história. Nós, então, decidimos nos engajar no projeto de discipulado e grupos pequenos. Creio que não existe outro caminho de resgate de valores como este e já temos colhido mudanças significativas. A melhor forma de mudança é a Igreja voltar às suas origens”, enfatizou.

Uma dorcas entre nós

O modelo de crescimento da Igreja primitiva inspira muitos líderes cristãos. A comunhão entre os membros, os sinais e maravilhas realizados pelos apóstolos, a união e o compartilhar do pão, dos bens e das propriedades, as reuniões constantes cheias de poder do Espírito Santo e o acréscimo dos que iam sendo salvos – relatados no livro dos Atos dos Apóstolos – geram uma busca frenética, por parte de muitos pastores, por um modelo de culto ou liturgia que reproduza o mesmo sucesso nos dias de hoje.

Porém, como destacou o professor Abdruschin, pouco se sabe sobre o que acontecia durante os ajuntamentos, mas a Bíblia é farta em mostrar o que se passava do lado de fora dos portões. “Sabemos como a Igreja se portava nas ruas, nas praças e até nas prisões. Mas pouco sabemos do que acontecia nos cultos ou ajuntamentos. Talvez porque a Igreja estivesse mais fora do que dentro dos portões do templo”.

Entre tantos exemplos da Igreja primitiva, a vida de uma discípula chama a atenção. Dorcas era conhecida por se dedicar a praticar boas obras e dar esmolas em Jope. Porém, ela adoeceu e morreu. Alguns discípulos, então, mandaram chamar o apóstolo Pedro, que não estava longe. E quando ele chegou, a Bíblia descreve a seguinte cena: “Todas as viúvas o rodearam, chorando e mostrando-lhes os vestidos e outras roupas que Dorcas tinha feito quando ainda estava com elas” (At 9:36-39). A morte de Dorcas causou profunda tristeza àquela comunidade, principalmente pelo fruto que ela deixara entre as mulheres.

Em seu livro “Discipulando Nações”, o escritor e discípulo da escola de Francis Schaeer, Darrow Miller, aborda a missão da Igreja nos dias de hoje e faz o seguinte questionamento: “Se sua igreja desaparecesse do local onde está do dia para a noite, alguém da comunidade sentiria a falta dela?”. Em suas palestras ao redor do mundo, Darrow ensina que a Igreja é a única instituição que não vive para si mesma e que sua missão é estar ao mesmo tempo junta e espalhada: junta para adorar e receber treinamento; espalhada para o serviço e o discipulado das comunidades e nações. E é justamente essa contribuição social, desenvolvida tão bem por Dorcas, que falta em muitos testemunhos cristãos.

“Em Mateus 5:16, Jesus nos ministra: ‘Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glórias- quem ao vosso Pai que está nos céus’. A melhor forma de testemunho é através de ações práticas, é se colocar disponível para servir as pessoas sem esperar nada em troca. O momento em que mais pareço com Jesus é quando estou servindo as pessoas. Oferecer-se para ajudar um vizinho ou um colega de trabalho, ser gentil, altruísta. Nossa luz precisa brilhar através dessas ações, tão importantes numa sociedade que se isola cada vez mais”, lembrou pastor Geraldo.

E fazer brilhar essa luz só é possível através da vida de Deus se desenvolvendo em cada cristão, segundo o comerciário Tiago Ariel de Oliveira. “Quando recebemos a vida de Cristo em nosso interior, uma grande jornada com Deus se inicia. Passamos a enxergar o mundo ao nosso redor com uma perspectiva totalmente nova e diferente. Na verdade, a nossa própria essência é transformada, nos tornando capazes de amar e expressar o amor de Deus ao nosso próximo. Então, no dia a dia nos tornamos uma expressão de Deus, independentemente do lugar onde estamos ou das circunstâncias que enfrentamos. Deus está sendo revelado diariamente a diversas pessoas no mundo através das simples ações dos Seus filhos.”

Para ele, ser cristão no dia a dia é amar sem limites, apesar das imperfeições e fraquezas. “Pequenos gestos de bondade podem provar para muitos que Deus é real: lavar a louça em casa, dar bom-dia ao vizinho, cumprir as tarefas quando não se está debaixo de supervisão no trabalho, ser gentil quando alguém é rude, perdoar a ofensa de um amigo, cultivar os relacionamentos, respeitar os mais velhos, dar bons conselhos aos mais jovens. E essas atitudes, motivadas pelo amor, transformarão nossas relações e o mundo ao nosso redor”, enfatizou Tiago.

Igreja x Terrorismo

Desde 11 de setembro de 2001, quando as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque (EUA), foram atacadas por terroristas – deixando um saldo de quase três mil mortos e o mundo todo em alerta – não se fala em outra coisa, no cenário político internacional, que não sejam formas e estratégias de se combater o terrorismo.

Apesar do investimento pesado das nações ocidentais em combatê-lo, acabar com o terrorismo ainda é um projeto inalcançado. E por quê? Para o professor Abdruschin, uma das principais características dos terroristas – e razão de sua vida longa – é não terem um QG, ou seja, eles estão espalhados, não têm uma base onde possam ser encontrados, combatidos e vencidos.

“Quem é o terrorista? Ninguém sabe. Pode ser seu colega de trabalho, seu vizinho. É difícil combater, por não existir uma base física. O terrorismo usa o mesmo princípio que a Igreja primitiva usava e por isso era imbatível. Ela não pode estar num só lugar, ela precisa estar espalhada entre as pessoas, entre as comunidades.

Não é comparar a ação terrorista, mas o princípio, que deveria ser o mesmo usado pela Igreja hoje”, destacou o professor. Para o pastor Geraldo, um dos textos escritos por Paulo e que mais lhe chama a atenção na busca por ser um autêntico cristão encontra-se em Efésios 4:25-32: “Pelo que deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo, pois somos membros uns dos outros. Irai-vos, e não pequeis. Aquele que furtava, não furte mais, antes trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado. Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, conforme a necessidade, para que benefício aos que a ouvem. E não entristeçais o Espírito Santo. Abandoneis toda amargura, ódio e raiva. Nada de gritaria, insultos e maldade. Ao contrário sejam bons e compassivos uns com os outros. E perdoem uns aos outros, como Deus, por meio de Cristo, perdoou vocês.”

A Bíblia está repleta de relatos sobre pessoas que, através de suas vidas, foram canais para que Deus se revelasse a outros. Mais do que palavras, ser cristão é ter uma atitude inspirada e motivada por Cristo Jesus. É seguir o que Francisco de Assis imortalizou com suas palavras e ações: “Pregue sempre o Evangelho, se precisar use palavras!”. E você, como tem pregado o Evangelho?

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.