Crise, braços e abraços

A palavra “crise” tem estado com destaque em boa parte dos comentários e análises sobre a realidade brasileira nos últimos anos.

Uma das expressões desta crise está nos altos índices de violência e na ausência de respostas adequadas a este desafio. No Brasil ocorrem a cada ano a mesma quantidade de homicídios que em todos os países do hemisfério norte juntos. São cerca de 60 mil mortes. Vivemos no país com o maior número absoluto de homicídios no mundo.

O primeiro homicídio relatado na Bíblia foi o fratricídio de Caim em relação à Abel. A motivação? Banal, extremamente banal. Diante da preferência de Deus pela oferta de Abel, Caim não buscou se esmerar para ter o mesmo ou maior reconhecimento, resolveu literalmente eliminar a concorrência e assim garantir os elogios.

Um dos principais elementos que este relato de Gênesis nos comunica é a percepção de que, diante do afastamento de Deus, a humanidade deixa de compreender a vida como sagrada. Mais à frente o apóstolo Paulo escreve em uma de suas cartas que o salário do pecado é a morte e é exatamente um caso de morte que lemos na primeira narrativa após se dar a separação dos seres humanos de Deus.

Alguém já disse que violação dos Direitos Humanos é um nome secular para o pecado, eliminar a vida de uma pessoa, certamente, é a pior violação que podemos imaginar. Ela atinge de forma cabal a dignidade humana, não dando alternativas para a reparação. Vidas humanas não são estornáveis, o fim da existência é a violência final.

A ação de Caim expressa uma lógica hoje vigente que entende ser aceitável a morte de alguns. Uns podem morrer, uns devem morrer. Esta situação se agrava se olharmos a cor da pele destes que são sentenciados à morte em tantas situações nas ruas das cidades brasileiras. Parece haver consenso de que jovens negros merecem morrer e de que provavelmente possuem culpa ao correrem ou mesmo brincarem em alguns locais.

É urgente que mais ações sejam feitas para evitar que mais pessoas sejam assassinadas e que muitos dos assassinos fiquem impunes. A banalização da morte não pode assassinar a possibilidade de construirmos uma sociedade civilizada que tenha o respeito à vida como um de seus elementos centrais. A violência não pode ser naturalizada e o exemplo de Caim precisa ser rechaçado como uma possibilidade para a vida em sociedade.

Como sociedade podemos aprender com a continuidade dessa história. Deus procura Caim e pergunta: “Onde está o seu irmão?”. Caim tergiversa, se ofende. Nossa resposta não pode ser a mesma diante da morte de nossos irmãos e irmãs, somos chamados a, como comunidade, cuidar uns dos outros, a amar o próximo, a responder: “Eu sei! Sou o guarda do meu irmão!”.

Mais do que isso, o próprio livro de Gênesis expressa com a história de José o que Deus espera para o mundo que decidiu viver afastado dEle, longe de sua vontade. Deus faz um convite aos seus seguidores que sejam como José e não como Caim.

José é entregue para a escravidão por seus irmãos. Longe de sua família vive uma reviravolta e em meio a interpretação de sonhos passa a assumir uma importante função de gestão, planejando e executando ações que pouparam a vida de muitos. José experimenta passar de uma realidade sem esperanças para, diante da graça de Deus, assumir uma posição estratégica e de poder.

O que sonhamos para o Brasil? Que tipos de sociedade queremos? Precisamos, como Igreja, sonhar coletivamente, interpretar estes sonhos e coloca-los com planejamento em prática. É preciso interpretar e executar mudanças que podem acontecer em nossa localidade e que exemplifiquem projetos de nação que acreditamos, agindo concretamente para superar este momento de crise. Para tanto é preciso saber, saber-querer e saber-fazer como diria o educador Paulo Freire. José era assim, interpretou sonhos, planejou e executou ações. Mais do que isso, a história dele afirma também o lugar do perdão e da solidariedade.

O clímax do relato bíblico em relação a história de José não é do beijo do mocinho na mocinha ou de uma vingança tão esperada para com o vilão. O clímax é o perdão, a reconciliação entre irmãos. O relato expressa uma angústia enorme, choro e gritos que antecedem a revelação de José para seus irmãos. O que ocorre é o abraço, o acolhimento; isto em uma situação de que a vingança seria fácil e justificada, ela inclusive poderia se dar somente pela omissão. Não ajudar seus irmãos que o expulsaram por inveja já seria suficiente numa situação em que, graças ao poder que José possuía, ordenar um ato de violência sem sujar suas mãos seria fácil.

Essa não foi a sua escolha. A expressão de sofrimento que o relato bíblico sinaliza antes da afirmação do perdão, demarca bem a tensão que foi vivida por José. Ele preferiu correr para o abraço, ele escolheu acolher e guardar os seus irmãos. Foi uma escolha. Qual é a nossa escolha hoje? Guardamos nossos irmãos e irmãs? Somos guardas de cada brasileiro, de refugiados que vêm do estrangeiro, daqueles que estão próximos?

Deus nos chama para a fraternidade e não para o fratricídio. Para os Direitos Humanos e não para a barbárie. O convite que nos é feito, como escreveu o rabino Sergio Bergman no livro “Argentina Ciudadana” (2013), é que escolhamos, como sociedade, viver no paradigma do ABRAÇO de José e não pelo BRAÇO de Caim. Somos chamados a uma mudança de mentalidade, devemos afasta o pouco de Caim que temos em nossas escolhas e na não-preocupação em guardar o outro. O convite que Deus nos faz é que sonhemos uma nova sociedade, atuemos para que isto se concretize e, como José, abracemos e guardemos aos nossos irmãos e irmãs. Só assim será possível superar as crises que nos afligem.


Alexandre Brasil Fonseca é sociólogo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e presidente de Paz e Esperança Brasil

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