Abaixo de zero

Qual a temperatura da sua fé? É difícil constatar que a nossa vida cristã está tão fria a ponto de ser comparada às geleiras do Polo Norte. Faltam ânimo, disposição, fé. Porém, há um caminho que leva você novamente ao primeiro amor…

Coração em ritmo acelerado. Uma alegria que transborda pela face. Uma fé que ultrapassa barreiras e uma esperança viva. Fome insaciável pela presença de Deus e pelo conhecimento da Palavra. Um ímpeto ardente para anunciar as Boas-Novas. Coragem para buscar o perdido. Força para dizer “não” ao pecado, arrependimento palpável quando erra. Perseverança ao passar por problemas e uma paz que excede todo o entendimento.

Pode ser que essa breve descrição citada acima resuma a vida de alguns cristãos. No entanto, talvez a grande maioria irá ler e se lembrar de um tempo no passado, em que experimentou todas essas coisas, e quiçá outras além, mas que infelizmente já não fazem parte do presente. São boas recordações que até geram saudade, mas que não passam de uma sombra de uma fase distante. Se essa situação sintetiza os seus sentimentos, você precisa voltar urgentemente ao primeiro amor!

Frio que mata
O corpo humano não resiste ao frio, pois foi projetado para trabalhar mediante o calor. Para bater e bombear sangue para o organismo todo, o coração precisa dessa energia vital. Do mesmo modo ocorre com a respiração, que tem iguais necessidades durante a contração dos músculos para inspirar e expirar o ar.

A temperatura saudável para o ser humano é em torno de 36,5 graus. Abaixo disso já se caminha para o estado de hipotermia. O coração entra em compasso mais lento, e a respiração vai se tornando ofegante. A transmissão de impulsos do sistema nervoso central também fica comprometida e leva à perda da sensibilidade e da consciência até o indivíduo, literalmente, morrer de frio.

Se temperaturas baixas impõem a sentença de morte para o corpo humano, com o corpo espiritual não é diferente. A Igreja não foi concebida para apresentar condições “gélidas”. Ela precisa transbordar energia, bombear o sangue que cura e liberta para todos os membros. Aspirar a graça de Deus e o Evangelho. Ser dinâmica, vibrante, apegada à verdade. Ser tão calorosa a ponto de atrair e exalar vida. Porém, quando há um “colapso nesse sistema”, a tendência é de falência múltipla de seus membros, uma morte lenta e dolorosa.

O frio pode ter muitos “ventos”, como a influência do mundo, a relativização do Evangelho e da verdade, a flexibilização da liderança em pontos-chave da doutrina cristã. Mas, para  Heleénder Oliveira Francisco, pastor da Igreja Batista, tudo se resume a uma só palavra: pecado!

“Acredito que essa frieza em muitas igrejas hoje esteja relacionada ao pecado. É o apego ao pecado que me distancia de Deus, tudo que é pecado me faz mal, me distancia e me traz frieza.  A desculpa do esfriamento muitas vezes é o comodismo, mas o comodismo também é pecado. As pessoas estão presas a uma ideia institucional, se participam ou não do culto, se fazem as atividades…  Só que a  questão é mais profunda, é possível estar na igreja, ser ativo e ainda assim ser frio”, afirmou o pastor.

A caminho do fim
Jesus disse certa vez aos Seus discípulos que, perto do fim dos tempos, com o aumento da maldade, o amor de muitos iria se esfriar (Mateus 24:12). Logo o amor, a essência de Deus, que é, ou deveria ser, a marca de todo crente, como disse Cristo: “Um novo mandamento lhes dou: ‘Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros’” (João 13:34-35).

É este sentimento, o mais nobre de todos, portanto, que faz com que o indivíduo se aproxime de Deus e se pareça com Ele. “O crente tem marcas e diferenciais. A primeira marca é de ser parecido com Jesus. Precisamos observar se nossas ações têm alguma coisa a ver com Jesus. Se não parecemos com Ele ou se nem tentamos ser parecidos, estamos frios espiritualmente. A falta de amor, de paciência, de domínio próprio, de perdão, de vontade de orar e de ler a Bíblia, é sinal de frieza que aponta para um grave quadro”, comenta o pastor e cantor Carlinhos Félix.

Ele também cita o estado atual da Igreja. “Posso parecer antiquado para muitos, até porque agora tudo é normal, mas vejo que estamos vivendo em um tempo em que a Igreja está permitindo que as coisas do mundo secular entrem e os padrões bíblicos estão se misturando com os do mundo. O que antes era inegociável está sendo recebido agora com facilidade”, observou.

O Pr. Kemuel Sotero, da Igreja Assembleia de Deus, concorda: “De certa maneira, é notório o desapego por leitura e meditação da Palavra de Deus, por oração, por jejum, além do desinteresse em tomar parte em alguma atividade congregacional. Cada crente necessita se ajustar àquilo que é ministrado, conforme a Palavra de Deus, evitando quaisquer resquícios ou simpatias pelo vasto e atraente catálogo oferecido pelo mundanismo, em toda a sua forma de expressão”, ressaltou.

Além da responsabilidade pessoal, a questão também passa pela liderança e pelo tipo de ensino oferecido hoje. “Eu acredito que as lideranças estão muito presas às questões das práticas religiosas em si, como quantidade de pessoas no culto, se o louvor é animado, se estão indo à Escola Bíblica… Prendem-se à religião e se esquecem do principal propósito, que é o Cristo que habita em mim ser gerado na vida da outra pessoa”, acrescentou Heleénder.


De volta ao primeiro amor
“Quero voltar ao início de tudo, encontrar-me contigo, Senhor…” A canção, bastante tocada nos momentos de louvor nas igrejas evangélicas, narra a história de alguém que reconhece ter se desviado, ao longo do caminho, das primeiras obras e, arrependido, decide voltar ao primeiro amor e reconstruir a sua vida. A letra é inspirada na carta à Igreja de Éfeso, registrada no livro de Apocalipse: “Contra   você, porém, tenho isto: você abandonou o seu primeiro amor. Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio” (Apocalipse 2: 4-5).

“O primeiro amor a que o Senhor Jesus se refere nessa mensagem é um fogo de grande intensidade em nosso íntimo, que coloca Cristo acima de todas as demais coisas! Se tivermos esse sentimento ardendo no coração com esse fogo aceso, estaremos vivendo o primeiro amor intensamente”, disse Carlinhos Félix.

Foi em 1983, quando ainda fazia parte do grupo Rebanhão, que o cantor teve o primeiro contato com “Primeiro Amor”. Logo que ouviu a música sendo ministrada pela Banda Fé, decidiu gravá-la.

“Eles cantaram para nós a música, que de imediato falou ao nosso coração de uma forma sobrenatural. Tinha tudo a ver com o nosso chamado evangelístico. Pedimos imediatamente a autorização ao autor, Aurélio Rocha, e em 1983 gravamos a faixa. Tive a oportunidade de ser o primeiro intérprete dela. Depois a gravei várias vezes em meus projetos. Canto-a sempre, pois é uma música muito pedida. Essa música, desde a sua composição até hoje, tem trazido muitas pessoas para o Senhor Jesus, além de muitas outras de volta para os caminhos dEle. Eu sempre cantei e sempre cantarei. Essa música vai além da música”, frisou Carlinhos Félix.

Não é difícil reconhecer na Igreja quem está vivendo o primeiro amor. Sua devoção pela obra de Deus, os olhos brilhantes ao escutar a pregação, o coração inclinado a ouvir e a obedecer. No primeiro amor, Deus é colocado em primeiro lugar, à frente de todas as outras coisas, e estar em Sua presença torna-se o alvo principal da vida do cristão. Há quem diga que a volta é muito mais difícil do que o início da caminhada, mas, para o Pr. Heleénder, o discipulado faz com que esse retorno seja possível.

“É como um pedaço de carvão. Se você tirá-lo do meio dos outros que estão em chama e deixá-lo sozinho, ele vai se esfriar até se apagar, pois precisa estar junto dos outros. Precisamos discipular pessoas, andar junto com elas. É necessário que as igrejas atentem para essa prática porque discipulado é o remédio para a frieza. Se a pessoa é cuidada, naturalmente vai crescer, amadurecer e se aquecer.”

Ele enfatizou também a relevância de se compreender a lógica do discipulado. “Não é o que eu faço para a igreja, mas o que eu faço para Cristo onde quer que eu esteja. Discipulado não é só sentar, orar e ler a Bíblia. Eu posso muito bem estar jogando bola e ao mesmo tempo discipulando pessoas. Ser igreja não é somente se reunir no final de semana, temos que mudar as prioridades e voltar à essência de que o cuidado com as pessoas é muito mais importante do que programações, eventos, cultos. E não é responsabilidade só do pastor, mas de toda a comunidade.” Para Heleénder, o pastor deve passar a visão para o seu rebanho, o que é confirmado pelo líder assembleiano: “Compete ao pastor ministrar a doutrina e orientar o comportamento dos fiéis, a formação ministerial e de outras de lideranças”, reforçou Kemuel. Embora a hipotermia espiritual seja uma característica deste século, ninguém precisa morrer de frio para reconsiderar a forma como está seguindo Jesus, que continua sendo o caminho. E caminhar por Ele e com Ele é o que aquece os mais gélidos dos corações.