Ciência e fé segundo Robson Rodovalho

“Momentos de rejeição são os melhores para aprender a crescer e seguir em frente”

*Por Sânnie Rocha

Fundador da Igreja Sara Nossa Terra, o bispo Robson Rodovalho, além de pastor, é escritor de mais de 70 livros, palestrante, cantor e físico. Também é professor da Universidade Federal de Goiás e ex-deputado federal. A denominação cristã nasceu depois de ele implantar o conceito de comunidades evangélicas em Goiás, com cultos que uniam a Palavra na forma em que era pregada nas igrejas tradicionais e um louvor mais avivado. Em Brasília, para onde se mudou em 1992, implantou a Sara Nossa Terra, hoje com 1,3 milhão de membros e templos em todos os estados brasileiros e no exterior. Estudioso da física quântica, é um dos militantes na arte de pesquisar as questões que envolvem a criação, a fé e toda a ligação do ser humano com Deus, relacionando ciência e Bíblia.

O senhor fala que ciência e fé são assuntos distintos, mas que se completam. Como pode ser isso? Como elas podem se unir?
No desenvolvimento da sociedade moderna, desde o advento do cristianismo tivemos um predomínio da fé, especialmente da metade do primeiro milênio até a metade do segundo. Com uma sociedade em formação, em desenvolvimento, a instituição mais forte na época era a Igreja, e ela ocupou espaços que estavam vazios, como a educação, a ciência e um pouco da saúde. Aí surgiram os grandes impasses, o primeiro deles quando a Igreja insistiu no conceito de a Terra ser o centro do universo, batendo de frente com a teoria de Galileu de que o Sol era o centro.

Nasce no segundo milênio o método científico, que é organizado e sistematizado por Descartes, e os processos passam a ser da ciência empírica, da ciência da observação. Então, os fenômenos cristãos da fé não se submeteram ao método científico, consequentemente a ciência se divorcia da Igreja. A partir daí, embora Isaac Newton, Louis Paster e outros grandes cientistas fossem cristãos, as duas vão se distanciando cada vez mais, e no século IX romperam. No início do século XX se imaginava que a fé seria destruída, a crença seria enterrada, a Bíblia seria jogada no lixo. A ciência estava no seu apogeu, se tornando a dona do conhecimento, a senhora da vida, com Karl Marx, Charles Darwin, somando outros movimentos científicos, estigmatizando cada vez mais os conceitos da religiosidade, da cristandade e da fé. E houve a ruptura total. O que ninguém imaginava é que, com o avanço da ciência, um ramo pouco conhecido e compreendido chamado física quântica destruiria os postulados da física clássica, o útero da ciência materialista. O reencontro, que é a base de um dos meus livros, trouxe o princípio de Heisenberg dizendo que, para os níveis fundamentais que sustentam a existência, as partículas subatômicas sustentam o átomo, que sustenta as moléculas, que sustentam os tecidos, e assim se constrói a vida. Esse princípio conflitou com os de Einsten e Planck.

Essa incerteza nasceu quando os dois começaram a estudar a natureza da luz e descobriram que ela tem uma dualidade, num momento é onda, em outro é partícula. Então, como é que uma coisa, dentro deste universo material, pode ser duas coisas ao mesmo tempo? Daí começou a se descobrir que não só a luz mas também os elétrons e até a própria matéria também desenvolviam essa propriedade. Foi uma revolução em toda a segurança que a percepção material, que a ciência tradicional ou clássica, desenvolveu. Embora, tenho que reconhecer, tenha havido uma contribuição grande para nós, como eletromagnetismo, mecânicas dos fluídos e balística, a física quântica foi avançando, se deixando cada vez mais conhecer com comprovação empírica e cada vez mais tirando a segurança do materialismo. Chegou ao ponto onde estamos hoje, com a metafísica, um viés da física quântica, provando que o universo é gerado do nada, do que se chama de partículas fantasmagóricas, termo criado por Einstein. 

E ninguém sabe como as nossas partículas fantasmas ganham massa ou carga. Chegou-se a uma conclusão de que existe uma base fundamental da existência, uma incoerência materialista. Essa matéria que existe não é verdade, é apenas uma impressão, uma sensação. Na verdade, a existência é mantida e baseada num processo da metafísica e no contexto fora da matéria, espiritual. E aí entra a fé. Por isso, Jesus disse que quem tiver fé remove uma montanha. Ali, sem classificar cientificamente, Ele estava usando um conceito da física quântica, dizendo que as ondas do pensamento podem mover a matéria. O mundo material é resultado de um colapso da onda, que é outra propriedade da física quântica, em que o observador interage com a experiência e faz com que tudo entre em colapso com um olhar de uma inteligência desconhecida. Quando ela participa da experiência, a energia se materializa, e a materialização só acontece com a percepção desse observador consciente e inteligente. Não é uma coisa tão simples de entender, mas é científico e comprovado, apontando para o aspecto espiritual da existência: Deus!

Existem muitas pesquisas sobre inteligência espiritual, design inteligente; tudo isso tem relação com a física quântica?
Sim. A física quântica é a abordagem sobre o universo subatômico, e tudo isso é interligado. Por exemplo, o design inteligente é uma teoria sobre uma inteligência primordial na matriz do universo. Alguém duvida disso? O universo funciona a uma precisão de 10 a uma potência de 120; isso quer dizer um 10 com 120 zeros à direita. Ultrapassa a casa de bilhão ou trilhão. Ou seja, a exigência da precisão desses ajustes finos, para que este universo funcione do jeito que ele é, é tão imensa que obedece a essa grandeza. A pergunta é: alguém duvida que para que essa precisão aconteça existe uma inteligência acima de qualquer capacidade e monstruosa para fazer toda essa máquina funcionar? Como é que a desorganização produz ordem e inteligência? A própria ciência tem um postulado que diz que desordem não produz ordem de maneira sustentável, pode até vir a produzir ordem, mas é instável, não se sustenta. A única maneira de ordem ser produzida é por um desenvolvimento programado da desordem, mas se foi assim, programada, então tem uma matriz de inteligência guiando-a, e só Deus tem essa capacidade. Hoje tem cientistas que não aceitam Deus, mas que as Leis Universais da Física têm inteligência. Aí eu pergunto: então as Leis da Física são Deus? É isso que vocês estão dizendo? Como as Leis da Física, números matemáticos, se sustentam sozinhos no universo? Chega a ser cômico isso. E é aí que entramos em discussão.

O senhor também fala em suas palestras sobre a prosperidade da vida e como as pessoas colocam obstáculos que levam ao fracasso. Como podemos fazer para não fracassar? Existem esses obstáculos intransponíveis?
Essas são as leis de crescimento, que estão em um livro meu. O processo de crescimento é de formação de sinapses, que são os caminhos dos neurônios, um assunto conhecido da neurociência. Nosso cérebro é como um GPS, ele tem mapas. Não é uma água-viva como essas que tem aqui no mar de vocês, esponjosa, onde reações químicas em cadeia andam por todos os lugares. Nosso cérebro é como se fosse uma pista de autorama. Então, o pensamento, quando processa, segue um mesmo caminho, os mesmos circuitos.
Quando você aprende a falar, construiu uma rota, seus neurônios acharam uma rota. Toda vez que você vai falar, ele abre a mesma rota, não pensa mais, as reações químicas e elétricas são desencadeadas. Depois que você anda pelo caminho uma vez, vai andar sempre. Pode ter uma interrupção por um acidente ou uma doença, mas, abriu a sinapse, acabou. Processo irreversível do ponto de vista natural. Deus dotou o ser humano biologicamente com plasticidade, então todo mundo tem a capacidade de crescer, de aprender, de conquistar, de avançar. E por que as pessoas não fazem isso? Simplesmente porque não constroem sinapses novas, vivem de repetições daquilo que foi assimilado no passado. Não foram desafiadas, não tiveram oportunidades, não foram educadas, não tiveram fatores internos ou externos para desencadear isso. A própria Bíblia nos desafia. Deus criou o homem no Éden, que quer dizer plenitude. Adão e Eva foram criados para um projeto de plenitude, mas quando houve a queda, um acidente cósmico, entrou a maldição.

Como consequência surgiram o suor, a dor de parto e o trabalho. Todas as sementes de dor, sacrifício e sofrimentos nascem na maldição de Gênesis 3, não eram do projeto original. Jesus vem para restaurar o primeiro projeto. Veio para levar o homem a uma posição de vida e de fé que Adão tinha antes da queda. Claro que isso vai acontecer totalmente quando a morte for tragada pela vitória, na segunda vinda de Cristo, mas a nossa fé nos leva a ir restaurando essas etapas. Isso passa pelo crescimento, pela saúde, pela família, pela felicidade. Se desenvolvermos a teologia de vitória e de fé trazida por Jesus, levaremos as pessoas a crescerem.

Mas se desenvolvermos uma teologia passiva, conformista, que acha mais fácil desistir do que vencer, lutar ou crescer, teremos pessoas condicionadas aos mesmismo e às situações de derrota. Existem algumas pessoas que, para ficarem parados, usam a parte da Bíblia em que Jesus diz para buscar o Reino dos Céus e as demais coisas serão acrescentadas. Buscam o céu e esquecem a terra.

Não é assim. Jesus ensinou a trazer o Reino para a terra na oração do Pai Nosso. “Seja feita a Tua vontade aqui na terra.” “Venha o Teu reino.” Não é “nós vamos para Teu reino”. A oração mais importante inclui os conceitos de trazer os princípios de Deus para a terra, não fazer com que a gente viva uma vida conformada, fracassada, escangalhada, esperando o céu. Esse negócio de viver uma vida sofrida aqui parece mais uma teologia espírita, de pagar, de sofrimento. A gente não vê essa perspectiva bíblica, embora Jesus e especialmente Paulo tenham ensinado a enfrentar o sofrimento. Não é porque você crê assim que estará imune ao sofrimento; o sofrimento faz parte, mas a gente entende que a atitude para enfrentá-lo é de fé e de vitória; proativa, e não de passividade.

Como lidar e superar as rejeições que acontecem no decorrer da vida?
Eu sempre enfatizo nas minhas palestras que saber ser preterido é sempre mais difícil e melhor do que saber ser querido. Porque vitorioso, todo mundo aplaude e é bonito, é só celebração. O problema é a atitude quando sou preterido e se eu me recinto, me amarguro, se iro, se vou fazer violência, vou andar para trás e vou colher dores e sofrimento. Temos essa lição com Caim e Abel (Gênesis 4). Ele poderia ter aprendido com o irmão em vez de matá-lo. A oferta era anual ou por safra, então haveria uma chance na próxima vez. Não tinha motivo para matar o irmão, era só aprender. Então ele deveria dizer: “Por que Deus se agradou este ano com a oferta? O que você fez que conseguiu esse sucesso? Me ensina?”. Então é preciso se fazer algumas perguntas.

Qual a sua atitude quando seu irmão tem sucesso? Você vai matá-lo, destruí-lo ou vai aprender com ele? Qual a sua atitude quando alguém tem o que você gostaria de ter? Você vai sair da igreja, vai sair da empresa, vai fazer biquinho ou vai aprender com isso? Essa é a grande lição. Outra questão é que Caim não conseguiu dominar a ira, a raiva e a inveja. Foi insano e patológico, o que mostra também o domínio do mal sobre a mente do homem depois da queda. Mas mostra também que podemos passar por momentos de rejeição de maneira diferente se tivermos domínio próprio. Esses são os melhores momentos para crescer e seguir em frente. 

O senhor iniciou uma carreira política e surpreendeu ao interrompê-la, não buscando uma reeleição. Qual foi a razão?
Na verdade, eu não rompi a carreira política, fiz uma interrupção por uma fase. Eu entendi que a Câmara Federal não precisava mais de mim naquele momento. Foi muito bom, conheci o processo político, o país, consegui unir católicos e evangélicos, que até então só brigavam, e criamos a Frente da Família.

Entendi que, se nos uníssemos, seríamos a maior bancada, como somos hoje, e a relação se tornou boa. Apresentei mais de 100 projetos de lei, sete foram sancionados pelo ex-presidente Lula, entre esses as leis da Cultura Gospel e do Empreendedor Individual, que tirou muitos trabalhadores da informalidade, tornando-se medida provisória. Agora mesmo, um projeto de lei que foi aprovado na Câmara, sobre religiões, tem parte minha. Mas eu entendi que a bancada não precisava mais de mim e que aqui fora eu poderia influenciar com a Sara e com a rede de televisão de forma mais eficiente. Conseguimos equipar nossa bancada, mas no Judiciário tivemos algumas derrotas e temos trabalhado para evitar isso. Por isso não estou totalmente fora. Fora isso, tenho ciência: o maior adversário da nossa fé hoje não é o ativismo gay.

Ele só é barulhento. Mas o nosso maior adversário é o ativismo materialista e científico. Porque ele pega seu filho de 13 anos e fala que a Bíblia é uma bobagem e não tem base científica. E o menino diz que tem sim, porque o pai e o professor de Escola Bíblica disseram. Aí eles destroem a fé dele com duas perguntas. Primeiro, com quem Caim casou? O menino já engasga. E por que em Gênesis diz que houve tarde e manhã no terceiro dia da criação se o Sol só apareceu no quarto dia? Então tudo era noite? Aí acabou a fé do menino, o professor de Escola Dominical não sabe responder, o pai também não. Então, estamos numa guerra, e vou para a trincheira que mais precisa de mim. Decidi voltar para a trincheira do lado de cá para decodificar e desmistificar isso. Enfim, eu também vi o processo político se desintegrar, e não acredito no sistema como está. Não dá para ficar enxugando gelo, precisamos fazer um processo político moderno, que atenda a sociedade, porque o que está aí hoje é ainda é pretexto para muita coisa escusa. Mas continuo militando, continuo atuando. Se precisarem de mim, estou aqui para ajudar.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.