Helena Tannure fala sobre a criação de filhos e da postura da mulher sob a luz da Bíblia

Oratória é um dom usado por Helena Tannure para levar o Evangelho. Conhecida nacionalmente pelo tempo que cantou no Diante do Trono, essa mineira de Belo Horizonte vem realizando palestras em todo Brasil falando de vida cristã, criação de filhos e da postura da mulher sob a luz da Bíblia. Casada com João Lúcio Tannure Júnior e mãe de Clara, Miguel, Arthur e Sophia, usa bom humor e opiniões fortes para defender a importância da família para a igreja e para a sociedade. Também exercendo as ocupações de escritora, apresentadora e educadora, Helena se diz feliz por poder dedicar a sua vida à missão de expandir o Evangelho de Jesus Cristo.

O que é louvar a Deus para você?
Louvar vem da palavra bendizer, render graças, elogiar. E para mim, louvar a Deus é tudo isso. Bendizer a Deus não apenas com canções, mas com as nossas palavras, nossas escolhas e atitudes.

Quando percebeu o dom para falar para grandes públicos?
Quando fiz um teste vocacional na adolescência, a oratória era um destaque. Lembro que fiquei frustrada, já que por ser apreciadora das artes, esperava que a primeira opção fosse relacionada a essa área. Não levei aquele teste muito a sério, mas lembro que sempre na igreja quando havia uma atividade em grupo, acabava ficando para mim a apresentação. Um dia, estava em estúdio gravando o CD do Diante do Trono e conversei com a Ana Paula Valadão a respeito de um livro que chamou a minha atenção “Humildade – A Beleza Da Santidade”, do Andrew Murray, e me identificava com coisas que Deus vinha fazendo em minha vida. E ela perguntou se não gostaria de compartilhar isso em um congresso de louvor e adoração do DT. Naquele evento eu falei sobre a minha experiência e abordei o que li no livro. Foi a minha primeira experiência com um grande público. Desde então, as pessoas começaram a me convidar para palestrar. Paralelamente, passei a viajar com o seminário de intercessão, dando o meu testemunho de como Deus fez uma obra de transformação e de libertação em uma série de coisas em minha vida. Também dirigia o louvor nesses seminários. As coisas foram acontecendo naturalmente, passei a dividir aquilo que eu tinha experimentado em Deus.

Você já disse que o primeiro ministério que Deus lhe confiou foi a sua família, e que, se a família está saudável, a igreja também está. Para você, falta hoje essa noção da importância da família na igreja e na sociedade?
Falta sim. Para mim, a grande crise social, moral e espiritual passa por problemas na família. Deus, antes de instituir a igreja, instituiu a família. E o que é a igreja ou a sociedade? Um conjunto de famílias. Quando a gente olha para a sociedade e vemos tantos problemas, notamos que a crise é individual, entre as pessoas. Falando especificamente sobre a igreja, o que ouvimos muito por aí? A pessoa falando “eu vou cuidar das coisas de Deus e Ele cuidará das minhas coisas”. Não concordo com essa frase, já que eu não vejo isso na Bíblia. A Palavra inclusive mostra que como pré-requisito para cuidarmos de um rebanho, precisamos primeiro ser bons gestores de nossa casa. É claro, não existem famílias perfeitas. Todas têm os seus desafios. Mas não se trata de perfeição, e sim de ser uma família emocionalmente estável, que se ama e que se cuida. Temos na família um grande exercício de santificação: ser santo no púlpito é fácil, mas o verdadeiro desafio está em vivenciar o que se prega também dentro de casa, se relacionando bem com as pessoas que dividem o mesmo teto. Cuidar bem do cônjuge e dos filhos é obra de Deus. Não me canso de falar isso por onde passo.

Logo você passou a ser chamada para muitos eventos femininos, de família e de capacitação musical. Como vê a responsabilidade de falar sobre esses temas?
A responsabilidade é grande. Querendo ou não, você passa a ser um formador de opinião. Eu tenho que errar menos, já que estou levando o nome do Senhor comigo. Tenho pedido a Ele para me ensinar. E a partir dessa oração diária, posso dizer “Pai, as minhas palavras são boas, afinal, me foram dadas pelo Senhor. As minhas palavras não transformam as pessoas, preciso que o Senhor me dê as suas, que tem a vida eterna. Suas palavras sim, curam e transformam”. Então, preciso que minha habilidade de falar seja sempre respaldado pela unção e misericórdia de Deus. Oro para que Ele me dirija.

Em um de suas ministrações, você disse que muitas vezes a mulher contemporânea vive algo que ela não é, só para agradar os outros ou a mídia. Qual seria o segredo para uma mulher feliz e capaz de edificar o seu lar?
É depender de Deus. Lembro que certa vez, estava trabalhando em meio período, três dias por semana. Parecia o trabalho perfeito, já que eu me ausentava menos de casa e do convívio com minha família. Deus então falou “Volte para casa” e eu obedeci. No primeiro mês, fiquei insatisfeita e infeliz, afinal, ficava ouvindo a voz da mídia e da sociedade, sempre cobrando que a mulher tenha um papel ativo e trabalhe. Mas quem cuida de casa e de filho sabe o desafio que é. E é um trabalho pouco valorizado pela sociedade, mas muito valorizado por Deus. Pedi ao Pai que me ajudasse a redescobrir a alegria que me roubaram, que me ajudasse a curtir a minha casa e a ter prazer nas rotinas. E assim Ele fez. Estava um dia passando a camisa do meu marido e mesmo achando a tarefa chata, pensei em quantas mulheres queriam mas não podiam fazer o mesmo. Quantas ficaram viúvas, foram deixadas ou mesmo nunca se casaram? Foi uma forma de Deus me dizer: “muitas gostariam de estar no seu lugar. Seja agradecida, Helena”. A carreira, o trabalho, você retoma. Mas o crescimento dos seus filhos não. Carreira nenhuma compensa o sacrifício de uma família.

Com a independência das últimas décadas, acha que essa mulher segue no seu papel de auxiliadora, ou tem buscado um papel de líder?
A mulher tem buscado a liderança e isso é perigoso. Não que exista algo de errado com a liderança. A questão é que você nasce com o dom da liderança, é algo dado por Deus. Só que essa liderança tem que ser trabalhada no padrão divino. Por exemplo, eu sou uma mulher que exerce liderança. Mas essa liderança está debaixo da autoridade do meu marido. Quando vou ministrar, tenho que ter o respaldo e a aprovação dele, que diz se devo ir ou não, me abençoando e orando por mim. Ele entende o chamado de Deus na minha vida e administra isso. E eu não tenho nenhum problema com isso. O meu marido tem exercido o papel dele, que é me amar como “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5.25). O João Lúcio é o homem que me ama, que se entrega e que cuida de mim. Quando o homem sabe da posição dele, não há dificuldade nenhuma para uma mulher obedecer e se submeter a esse marido.

Quando começou a cantar e como foi a passagem pelo Diante do Trono?
Descobri que cantava na adolescência, na Igreja Peniel, em Belo Horizonte, antes de ir para a Lagoinha. Cantava no coral e depois migrei para o teatro. Quando havia um personagem que precisava de cantar, lá esta eu. Quando entrei para a Lagoinha, fiquei um tempo sem cantar, já que vivia um grande conflito interno: queria viver a vida da minha própria maneira e tinha o sonho de ter uma carreira secular. Não era uma questão de ser luz nas trevas, e sim de querer ser aplaudida, de ter uma necessidade de aprovação. Queria que a música preenchesse um vazio emocional. Deus me curou disso e me chamou. Descobriram na igreja que eu cantava e eu larguei o show que havia montado no mundo e retornei para o louvor. Entrei para o É o Chamar, o grupo que antecedeu o Diante do Trono e que contava com a Ana Paula e o André Valadão, entre outros. Sempre gostei de cantar e pensei que iria mesmo seguir para este lado. Anos depois aconteceu o ajuntamento dos grupos da Lagoinha – entre eles o É o Chamar – para gravar um CD com o objetivo de levantar dinheiro para um trabalho missionário na Índia. Assim surgiu o Diante do Trono. Não pude participar dessa primeira gravação, já que tinha acabado de ter meu segundo filho, o Miguel. No ano seguinte, a Ana Paula voltou a fazer o convite para que o João e eu participássemos da equipe de louvor, a base do DT. Aceitamos e as coisas aconteceram. Foi um tempo maravilhoso. Quando tudo começou, ninguém imaginava a proporção que tudo tomaria. Achávamos apenas que o DT tinha gravado um CD para pagar um projeto missionário e que cantávamos no domingo de manhã. Só. Tanto que o primeiro CD do DT saiu com a tiragem exata do número de membros da igreja na época: 5 mil unidades.

Após sua saída do DT, existe a vontade de partir para um CD solo?
Não vou dizer que não exista a vontade, mas falta ainda a direção de Deus. Não sirvo para ser uma cantora nos moldes que estão aí. Eu não critico, mas não agüentaria. Sou avessa a assédio demasiado. Não gosto do fato de pessoas enxergarem cantores como ídolos. Falta alguém para ensinar que o cantor é sim uma bênção, um homem ou uma mulher de Deus. Mas continua sendo uma pessoa. Ainda no DT, tinha muita resistência quando via pessoas gritando o nome dos membros do grupo, uma histeria. É preciso separar as coisas. Claro, pode haver o carinho, sentir vontade de abraçar. Mas sem aquela coisa de fã. Então, no momento, o CD solo não é algo real. Mas gostaria de registrar canções de amigos que amo, com ritmos diferentes. Gosto dos ritmos brasileiros e seria ótimo fazer algo assim. Também tenho o sonho de gravar um DVD que tenha mensagens, canções e teatro. Mas uma coisa é a minha vontade, outra é o propósito de Deus. As pessoas falam que eu não osso parar de cantar. Mas eu não parei! (risos). Parei só de gravar. Sempre canto nas minhas ministrações.

Durante a Oficina de Artes e Adoração, realizada em Vitória, você comentou sobre uma possível crise de originalidade na música brasileira, com o mercado preferindo moldes que já são sucesso ao invés de preferir investir em algo novo. Quais a razão disso acontecer?
Acho que é a própria rapidez que estamos vivendo. Acho que aquele tempo para o ócio criativo ficou reduzido. A correria da vida que hoje levamos propiciou uma espécie de “arte fast food”. Se passou a querer fazer o fácil, o trivial, o que vende. Além da preocupação demasiada com o dinheiro, com gente querendo fazer o que é comercialmente viável para manter o ministério.

Se um músico deixa de apenas se inspirar em um determinado sucesso e passa a copiar um estilo aprovado pelo mercado, podemos dizer que há também uma crise de identidade? Se todo grupo que surge busca ser, por exemplo, um novo Hillsong (grupo gospel australiano), sai perdendo a música brasileira?
Sai perdendo a música mundial. O Hillsong é uma bênção, mas está fluindo de acordo com o que Deus tinha para o grupo. E nós temos que fluir conforme os planos de Deus para a gente. É fácil pegar carona na unção alheia. Mas a questão é buscar algo de Deus para você, mesmo que não venda. Minha mensagem não vai alcançar todas as pessoas, e nem eu tenho essa pretensão. Quero alcançar as pessoas certas, conforme desejo de Deus. Ás vezes sou criticada por falar muito rasgado. E sempre gosto de ouvir a crítica, já que assim posso reduzir minhas falhas. Mas não deixo a crítica me paralisar, eu sei que não serei uma unanimidade. Eu não tenho que ser unanimidade para ser uma bênção. E hoje está surgindo uma coisa meio megalomaníaca de que Deus só está usando os que reúnem multidões. E isso é mentira! Temos várias pessoas desconhecidas, mas de talento e que estão saqueando o inferno. Imitar achando que vai vender é perigoso. O meu propósito não é atrair multidão, e sim atrair quem Deus deseja, através da minha vida. Nem todos terão multidões, mas temos que descobrir o nosso lugar de alegria, seja pregando para três, vendendo mil CDs. Tem lugar de alegria aí que esse povo pirou e perdeu. Isso eu não quero perder e peço ao Senhor para resguardar o meu coração. Prego para 50 com a mesma empolgação com que prego para 10 mil.

Como enxerga a música gospel brasileira hoje? O que apontaria como fatores positivos e em que ela ainda pode melhorar?
Graças a Deus está soprando um vento de pessoas que estão ousando fazer diferente. Amo Palavrantiga, Lorena Chaves, Marcela Taís. São pessoas que não estão presas a um nicho evangélico. Elas produzem música cristã para ser ouvida também pelo século. E isso me deixa muito feliz. Marcos Almeida, também, é um cara muito inteligente e é outro que está aí mostrando o seu trabalho. Enfim, vemos gente cantando a vida de Cristo para quem não a conhece. É algo fantástico.

Os ministérios de música das igrejas são celeiros de novos talentos?
São celeiros, mas precisam de discipulado, justamente pelo tempo que vivemos. Hoje escutamos os meninos de 17 anos falando que o sonho ministerial não é levar a Palavra para um país na África, e sim fechar com uma grande gravadora. Falta alguém para mostrar que o dom dado por Deus tem que ser usado para tornar Ele conhecido, e não o cantor. É para anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. Estamos vivendo um boom na glamorização do gospel e a nova geração foi contaminada por isso. É preciso cuidado. Então igreja tem talento sim, mas é preciso manter a cabeça no lugar. Em um domingo recente, no culto das 13h na Lagoinha, tinha uma menina ministrando louvor com uma voz maravilhosa. Tinha pouca gente, mas ela estava dando tudo naquela música, já que estava fazendo para agradar ao Pai. Oro para que ela mantenha o mesmo entusiasmo e mesmo se um dia Deus a colocar para cantar para uma multidão, ela esteja disposta a voltar a cantar para aquele pequeno grupo. Talento nas igrejas existe, mas deve haver orientação e discipulado. Estamos lá cantando para Deus, e isso jamais deve ser esquecido.

 A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.