Como ser o pai que os filhos de hoje precisam?

Os tempos mudaram. A forma e os assuntos que um pai conversava com um filho há 30 anos ou até mesmo há 10 anos não são os mesmos de hoje em dia. As necessidades da criança, do adolescente e do jovem são diferentes das daquela época. Afinal, eles estão diferentes. E um dos maiores desafios atuais é saber como os pais devem educar essa juventude, que se mostra cada vez mais conectada com as inovações e tendências do mundo e na grande maioria não tem encontrado em casa o pai ou a mãe para conversar.

Que tipo de instrução, afinal, os filhos de hoje precisam? Qual o modelo de pai ideal para eles? Que qualidades um pai deve possuir nesses tempos de pós-modernidade, sem perder o que a Bíblia orienta: “Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticarem retidão e justiça” (Gênesis 18:19)?

Esses questionamentos provavelmente passam ou já passaram pela cabeça dos pais que possuem filhos na fase da infância, adolescência e juventude. Ao avaliar os pais do passado e os do presente, o pastor Gilson Bifano, líder do Ministério Oikos (Grupo Ministério Cristão de Apoio à Família), ressalta que os desafios sempre foram grandes, mas atualmente estão ainda maiores.

“Antigamente nossa sociedade era pró-família. Hoje, não. Antes, os parentes ajudavam, a carga horária era favorável à vida em família, os vizinhos eram conhecidos e auxiliavam os pais, não havia televisão, as escolas ajudavam, os professores eram tidos como o segundo pai/mãe. Hoje, tudo conspira contra a família, e aí a atenção precisa ser redobrada. Os pais precisam repensar sobre a grande responsabilidade na educação dos filhos”, declara.

Complementando a análise, o pastor Josué Gonçalves, que é terapeuta familiar e congressista de família, pontua: “A pós-modernidade trouxe desafios que há três ou quatro décadas não eram preocupação dos pais, como a influência da mídia, o advento da internet, o acesso fácil às drogas, a pornografia, a prática sexual precoce e a busca pela independência ainda na adolescência. Ser pai hoje é muito mais complexo do que anos atrás”.

Conhecer os filhos é essencial
Mas como deve ser o pai nos dias atuais? O primeiro passo para ser o pai de que os filhos precisam, mas que muitas vezes vem sendo colocado de lado, é conhecer, de fato, os filhos. É preciso saber suas ideias, seus gostos, quem são seus melhores amigos, como estão suas notas na escola, na faculdade, sua cor preferida, o estilo musical de que gosta, o que o deixa nervoso, o que o faz rir.

“É essencial aquela conversa apenas de pai e filho, aquele momento para passear, para assistir a um jogo de futebol, ir as compras juntos, para lanchar na rua. Isso hoje em dia é cada vez mais raro. O pai precisa acompanhar de perto o filho, saber quando ele está bem e quando está mal. O problema é que isso demanda tempo e o que temos visto é que os pais estão cada vez mais individualistas, preocupados com o trabalho e com outras atividades”, avaliou Rosane Castilhos, membro da Igreja Batista da Mata da Praia, terapeuta familiar e psicóloga escolar há 23 anos.

Uma triste história que exemplifica a falta desse contato mais próximo foi vivida há cerca de um mês na Igreja Assembleia de Deus da Volta do Rabaioli, em Vitória. Uma adolescente de 16 anos morreu após complicações em uma cirurgia de apendicite e chocou os parentes e todos os membros da igreja. Muito envolvida com as atividades, ela não tinha os pais convertidos e durante seu enterro o pai da menina fez um desabafo emocionado. “Ao ver a tristeza no rosto dos adolescentes, jovens e até adultos da igreja, o pai dela chorou e disse que não sabia que a filha tinha tantos amigos e era tão amada e integrada à igreja. Ele chorou muito e lamentou não ter conhecido esse lado da filha, que sempre o chamou para ir aos cultos, mas ele nunca foi. Foi uma cena muito triste”, relembrou Shirley Dorico Siqueira, líder de adolescentes da igreja.

Ela explica ainda que o que mais os adolescentes reclamam em relação aos pais, inclusive os pais cristãos, é justamente a falta de diálogo, da falta de tempo para um conhecer o outro. “Muitos acham que ser pai é apenas impor regras, mas não é. Ser pai é, principalmente, ser amigo, ser parceiro do filho. O que falta hoje é conversa, cumplicidade, saber do que o filho gosta, coisas simples de fazer e que fazem toda a diferença no relacionamento. Só que hoje os pais não querem “perder tempo” com os filhos, sendo que, na verdade, estão ganhando. Os adolescentes reclamam comigo, dizendo: ‘Eu nem começo a falar e meu pai já começa a brigar. Aí eu fico quieto’. Isso tem que acabar nas nossas famílias”, disse Shirley.

A correria do dia a dia de trabalho é frequentemente a desculpa apresentada pelos pais para essa falta de dedicação aos filhos. Com isso, crianças, adolescentes e jovens são empurrados para outros “pais”. O pastor Josué Gonçalves alerta para o que vem sendo chamado de terceirização do processo de educação dos filhos. “Hoje estamos vendo o crescimento do número de filhos que são educados na creche, pelas babás e até pela babá eletrônica, a TV. O resultado disso já pode ser visto, com famílias completamente desestruturadas. Só existe uma saída: voltarmos para os princípios da Palavra do Senhor.”

Essa terceirização educacional, que desobedece por completo a orientação dada por Deus de “instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele” (Provérbios 22:6), é fruto de um comportamento individualista dos pais, segundo o psicólogo Tiago Carlos Zortéa, que destaca que os filhos precisam de pais que sejam referência de firmeza e confiança, mas que estejam, sobretudo, presentes.

“Percebo, hoje em dia, que as pessoas estão menos preparadas para serem pais. As mudanças ocorridas no mundo foram rápidas demais e outras prioridades assumiram o topo da lista das pessoas de modo geral, como o sucesso profissional, principalmente, e a busca pela felicidade individual. Se há crianças nessa história, muitas delas são deixadas de lado e estão sendo educadas por babás, escolas e programas infantis na televisão. Vejo muitas crianças mendigando a atenção de seus pais”, analisa.

Pai tem que ser “plugado”
Nos dias atuais, a tecnologia avança muito de um ano para o outro, e esse desenvolvimento não modifica apenas a relação do homem com as máquinas e os computadores. As relações interpessoais também sofrem pressão, e um dos grupos que mais sente essas mudanças é a família, onde as diferentes gerações se encontram.

De um lado, filhos adolescentes e jovens “plugados” em redes sociais e em novas tecnologias; do outro, pais que, muitas vezes, mal sabem nem ligar o computador. “Pais deste mundo moderno têm que ser ‘plugados’. Ele tem que estar ‘antenado’ em tudo, seja em tecnologia, seja também nas discussões sociais que tocam diretamente o jovem. Só assim o pai vai poder conversar com o filho, entendendo o que ele quer dizer quando falar sobre drogas, sexo, liberdade. O pai não tem que aceitar as tendências do mundo, mas precisa se inteirar sobre as discussões para poder aconselhar. Se ele não fizer isso, outro vai fazer”, declara a psicóloga Rosane Castilhos.

O pastor Gilson Bifano complementa: “Os pais precisam ser acessíveis, amigos, sem perder a autoridade. Eles precisam estar por dentro dos problemas que os filhos enfrentam, como bullying, as drogas, o homossexualismo, mas precisam, antes de tudo, ser exemplos e conversarem sobre esses temas à luz a Bíblia, sem dar sermões”.

O que é regra na criação de filhos é a imposição de limites, e isso não mudou nem muda com o passar das décadas. Os limites devem ser criados, segundo pastores e especialistas, para que as crianças consigam diferenciar o certo do errado, mas há muitos pais que ignoram esse assunto porque estão tão ausentes de casa que, quando chegam, não querem ser taxados de controladores, que estabelecem horários e regras.

“Regras e limites são necessários para todas as crianças. Educar não é só fazer obedecer, mas mostrar as fronteiras entre o certo e o errado, os valores, os limites. Afinal de contas, não creio que os pais queiram que seus filhos obedeçam sem pensar e que sejam meros seguidores cegos de regras. Fala-se muito em dar limites para as crianças, mas ninguém explica o que são esses limites e como estabelecê-los, e isso deve acontecer”, salientou Tiago Zortéa.

Os desafios são inúmeros e diários na tarefa de criar filhos, mas não são apenas eles que estão em crescimento e na busca por conhecimento. No mundo pós-moderno, da mundialização de informações e do estar conectado a vários grupos seja através do computador, seja pela internet no celular, os pais precisam estar por dentro dos assuntos que mexem com os filhos e, focados nas orientações bíblicas, “criá-los na disciplina e admoestação do Senhor”, conforme Paulo escreveu em Efésios 6:4.

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