Como a igreja pode combater o racismo?

Não adianta fechar os olhos. O racismo existe e está presente em toda a sociedade, inclusive no meio cristão. Como a Igreja Evangélica de hoje pode abordar e combater tamanho mal?
Confundidos com ladrões, comparados a macacos, insultados simplesmente pela cor da pele. Mesmo em pleno século XXI, não são raros os casos de racismo no mundo, que vão desde uma piada contada numa roda de amigos até registros de injustiças, crimes e mortes. Recentemente, os campos de futebol viraram cenários para lamentáveis manifestações desse tipo. Quem não se lembra da triste cena de um torcedor espanhol jogando uma banana em direção ao jogador brasileiro Daniel Alves durante uma partida? E de toda uma torcida no Peru imitando o som de macaco nas vezes em que o também brasileiro Tinga pegava na bola? Não foi à toa que a temática da Copa do Mundo 2014, realizada no Brasil, foi o combate ao racismo.

Fora do esporte, as cenas de preconceito são ainda mais frequentes. Há pouco tempo, um ator carioca foi preso injustamente após ser confundido com um bandido. O que ele tinha em comum com o suposto assaltante? A cor da pele.

São inúmeras as ocorrências de discriminação e constrangimento no dia a dia, que normalmente acontecem em lojas, restaurantes, empresas e agências de seleção de pessoal. E muitas vezes a agressão não é só verbal ou psicológica, é física também e pode acabar em morte.

No Brasil, a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, segundo uma levantamento divulgado em 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No estudo, o Espírito Santo aparece como o segundo estado, numa lista de 10, que oferece mais perigo para o jovem negro, perdendo só para Alagoas. E, por incrível que pareça, há casos de racismo até mesmo dentro da Igreja Evangélica. É o que atesta o pastor Francisco Carlos de Oliveira, da igreja Nova Vida de Piúma. Negro, com 59 anos, sendo 29 voltados para a vida ministerial como diácono e pastor, ele já passou por diversas experiências em que foi vítima de racismo dentro da comunidade cristã. “Quando eu era diácono, abri mão de ser funcionário público
federal para assumir uma igreja em Valença, no Rio de Janeiro. Assim que eu cheguei, fui recepcionado por uma mulher branca, membro da igreja, que deixou bem claro que não era para eu estar ali. Disse que a igreja precisava de um pastor e não de um diácono como eu, e ficou nítido que era por causa da minha cor de pele. Isso me levou às lágrimas.

Durante um ano, tive que conviver com discriminação na forma de falar, de olhar, de tratar da própria igreja. Mas, depois de um ano, após observar o meu trabalho, a mesma mulher que me recepcionou veio me pedir desculpas por ter me tratado com discriminação”, contou o pastor.Ele disse que a discriminação continua a existir, e na igreja não é exceção. “Dentro da igreja, muitas coisas passam a grosso modo, mascaradas… Para conviver com um negro, tudo bem. Mas para fazer parte da família, como um casamento dentro da juventude da igreja, racismo ainda existe. Comentários do tipo: ‘Ele é branquinho, mas ela é moreninha…’ Não consigo entender isso no Brasil e muito menos na Igreja do Senhor”, destacou Francisco.

Combatido na Bíblia
A Bíblia é clara no combate à discriminação de qualquer espécie. Em Tiago 2.1, há o alerta: “Meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade”.  “No texto de Atos dos Apóstolos, a Igreja de Antioquia – uma comunidade de fé majoritariamente helenista –, nos dá uma bela lição sobre a igualdade racial e o empoderamento das etnias na comunidade nascente (At 13).
O Pentecostes posto em prática, diferentemente da Igreja de Jerusalém, liderada por hebreus ( At 15). Podemos destacar dois escritos de Paulo, o apóstolo das etnias. Ele escreveu uma linda Carta a Filemon, Áfia e Arquipo em que nela propõe a superação da lógica escravista. Ainda, na Carta aos Gálatas (Gl 3.24-29), Paulo chega a ir mais adiante ao romper com a estrutura hierárquica greco-romana, e de qualquer outra sociedade, que fundamenta o seu descaso pelo outro por motivações racial (judeu ou grego), social (escravo ou livre) e de gênero (homem ou mulher)”, explicou o reverendo Cláudio Soares, da Primeira Igreja Presbiteriana Unida, em Vitória.

Como o pastor Francisco, ele relata que já sofreu e ainda sofre com o racismo. “Fui pastor em Salvador (BA). Lá conheci uma comunidade de fé, ligada à Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, a IPU de Itapagipe, que era criticada pelas igrejas vizinhas por ter uma proposta litúrgica com musicalidade negra, dançante e contextual”, afirmou o reverendo.
“Quando assumi o pastorado da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória (IPU), ou como gostamos de chamar a Igreja da Rua Sete, disse ao público presente: ‘Eu sou negro’. Alguns acharam estranha a minha afirmação, pois olhavam pra minha derme e diziam:‘Ué, ele não precisa dizer isso!’ No entanto, ao afirmar que sou negro quis demonstrar para o público que a minha forma de pensar a fé, de me pronunciar e de viver a fé cristã é bastante influenciada pela preocupação com a promoção de políticas que promovam a igualdade racial”, ressaltou.

Já o pastor Marcelo Nunes Martins, da Igreja Metodista Memorial, nunca foi vítima de racismo, mas acompanhou a dor de sua esposa, que é negra, para se libertar das lembranças dolorosas de sua infância marcada por insultos, piadas e xingamentos.  “Minha mulher é negra e na infância e adolescência ela sofreu muito racismo. Hoje ela é bem resolvida sobre esse assunto, mas sofreu muito até se libertar dessas lembranças do passado”.

Chamados para lutar
Apesar dos diversos casos envolvendo racismo nas igrejas, muitos líderes cristãos se envolveram nessa causa. O inglês Willian Wilberforce, no século XIX, dedicou sua vida na luta abolicionista na Inglaterra. Foram 40 anos até que uma lei pondo fim ao tráfico de escravos fosse aprovada. Com sua experiência política e sua fé firme no Senhor, ele pôde ver seu país extinguir o comércio de escravos e influenciar todas as outras nações que ainda se beneficiavam desse mal. O batista Martin Luther King também. Combateu a segregação racial nos Estados Unidos e batalhou pelos direitos civis dos negros. Mesmo enfrentando ameaças, agressões, prisões, maus-tratos à sua família, ele não desistiu. Um atentado tirou a vida do pastor negro norte-americano, mas sua luta não foi em vão.

Um caso de racismo, por muitos desconhecido, foi a dolorosa experiência vivida por Mahatma Gandhi, no tempo em que passou na África do Sul. Tendo ele escutado tantas coisas boas sobre o missionário Charlie Andrews, a quem chamavam de “o fiel apóstolo de Cristo”, Gandhi foi tentar ouvi-lo. Mas, na primeira oportunidade, foi expulso do culto porque a cor da sua pele não era branca. Mais tarde, ele e Andrews tornaram-se grandes amigos, mas o indiano nunca se esqueceu da dor daquele incidente.

Ao comentar as experiências de Gandhi, o missionário metodista E. Stanley Jones conclui que “o racismo tem sobre si muitos pecados, mas talvez o pior deles tenha sido o de obscurecer Cristo na hora em que uma das maiores almas nascidas de uma mulher estava tomando sua decisão”.

Mesmo tendo acabado há 20 anos, ainda hoje há resquícios do apartheid – política de segregação racial adotada entre 1948 e 1994 – na África do Sul. Em cidades do interior do país, por exemplo, é possível encontrar igrejas evangélicas só para brancos e outras só para negros.

O líder sul-africano Nelson Mandela, que segundo o pastor Marcelo, era metodista, levantou-se contra o sistema de segregação social. Ele passou 27 anos preso por resistir ao regime, mas sua luta resultou no fim do apartheid, tornando-se o primeiro negro presidente da África do Sul (1994-1999). Para o reverendo Cláudio, as igrejas de hoje precisam se envolver mais com essa questão. “Não basta denunciar. Embora a nossa legislação defina como crime a prática do racismo, a caracterização do crime é muito difícil de ser provada. Há necessidade de as igrejas produzirem e participarem de discussões e de organizações governamentais e não governamentais que debatam e promovam políticas de reparos e promoção da igualdade racial. Vejo aí alguma alternativa”, defendeu Cláudio.

“A Igreja precisa se reconhecer racista. Louvo em Deus por fazer parte de uma igreja que se reconheceu e, por isso, em assembleia geral, aprovou um pronunciamento intitulado: ‘Pedido de perdão aos negros do Brasil’. Destaco o trecho seguinte: ‘Pedimos perdão por considerarmos inferiores a sua religião, a sua religiosidade, a sua música, os seus símbolos, ao seu modo de viver. Pedimos perdão a vocês que são cristãos e cristãs, a vocês que são muçulmanos, a vocês que são umbandistas, a vocês que seguem outras tradições de matriz africana, a vocês sem qualquer religião ou fé, a vocês todos, como um povo, a quem devemos amar como nos ama Jesus Cristo’”, acrescentou o reverendo.

Ele também citou como fundamentais a inclusão da igreja em movimentos sociais e a confecção de material para Escola Dominical que aborde esse assunto e ajude na formação dos cristãos. Já a Igreja Metodista lançou uma campanha, em maio deste ano, de combate ao racismo. O objetivo é de levantar a discussão, estimular e contribuir para a reflexão e também promover ações proativas para a superação do preconceito.

“A Igreja reflete um pouco da visão da sociedade. Muitas vezes, até sem intenção, vemos algumas pessoas da Igreja fazendo comentário racista, piada, brincadeira. Uma pessoa que chama a outra de macaco vê como brincadeira, mas quem ouve se sente extremamente ofendido”, pontuou o pastor Marcelo. Ele explica que está no DNA dos metodistas o combate ao racismo e às desigualdades. “John Wesley pregava nas praças, e muitos que eram tidos como excluídos da sociedade abraçaram o Evangelho. Os metodistas nasceram, então, com o cunho social muito elevado e é até hoje”.

A Igreja possui um documento, uma carta pastoral, para orientar as igrejas. Trata-se da carta: “Racismo: abrindo os olhos para ver e o coração para acolher”. Num dos trechos, o documento cita o que seria a origem do pensamento racista: “O racismo é herança do pensamento europeu, originado durante a colonização dos outros continentes e dominação dos seus povos. Por meio dessa visão, os europeus – cujo perfil físico é pessoa branca, olhos azuis, cabelos lisos e loiros – formaria um grupo superior, padrão da humanidade, e os outros povos seriam inferiores”.

Uma forma do pastor combater o racismo na Igreja é não tirá-lo de discussão: “Somos desafiados a estar atentos com essa temática, não tirar o racismo do debate. Muitas pessoas são contra as cotas raciais, mas para quem viveu ou vive a dor do racismo, que sabe que os negros viveram abandonados nos guetos, políticas como essas são necessárias”, afirmou.

Longe de ser uma questão resolvida ou enterrada no passado, o racismo ainda está presente na sociedade. E a Igreja tem um papel fundamental nessa questão: ela precisa se levantar como atalaia da verdade e ser sal e luz, ensinando que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, nesse grande campo missionário.
A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.