Como deve ser o voto do cristão?

Em um mundo com tanta desigualdade, fomentar uma política que busque erradicar esse problema é um dever de todos nós


Por Andreza Lopes

A polêmica acerca de como deve ser o voto do cristão é antiga. Porém, Deus nos deixou um livro de fé e prática que orienta sobre todas as decisões e posturas a ser adotadas. Vivemos uma fase crítica de banalização do cristianismo, na qual muitos que se declaram fiéis ignoram ou negam o que representa seguir os princípios de Jesus.

Pesquisador, professor e doutorando em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Victor Breno Farias Barrozo, membro da Igreja Assembleia de Deus, explica que é preciso distinguir o “ser político”, titular de uma carreira pública, da dimensão política da fé de cada cristão.

“No primeiro caso, cristãos podem (e devem) exercer cargos políticos – muito embora haja nessa relação uma linha tênue entre os limites da atuação parlamentar para com os interesses privados da ‘igreja’ e sua associação ao Estado em busca de privilégios e benefícios. No segundo caso, é possível dizer que só há verdadeiro cristianismo quando há um comprometimento público do cristão em manifestar os valores da justiça, amor, paz, retidão na sociedade. Em ambos os casos, os políticos cristãos e os cristãos políticos devem constituir-se como agentes de reconciliação, promotores da equidade e mediadores de redenção social”, afirma.

“Por causa do Senhor, submetam-se a todas as autoridades humanas, seja o rei como autoridade máxima” (1 Pe 2:16)

Precisamos analisar, também, o fato que vivemos tempos difíceis, de intolerância em todos os sentidos, perseguição, uma completa ausência de paz, e a decisão pelo voto deve trazer paz ao coração. À luz da Bíblia, podemos ver em 1 Timóteo 2:2-4: “ (2) pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade. (3) Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”.

Conhecer a verdade é entender a vontade de Deus, que deseja um mundo regado a obediência e próspero de suas promessas. Entretanto, o descumprimento de suas ordenanças tem gerado situações calamitosas pelas quais o homem tem passado sem conseguir vislumbrar um futuro melhor. Em Provérbios 29 está escrito: “(2) Quando os justos florescem, o povo se alegra; quando os ímpios governam, o povo geme. […] (4) O rei que exerce a justiça dá estabilidade ao país, mas o que gosta de subornos o leva à ruína”.

“O que esperamos de um candidato é que, independentemente de ser evangélico ou não, busque justiça social e viabilização de políticas sociais que priorizem o ser humano, sua dignidade, escolhas e reais necessidades, seja qual for sua religião, sexualidade, partido etc” – Leonardo Alvarenga, professor, pesquisador e doutor em Ciência da Religião

Quando se trata de executar a vontade de Deus, entramos em uma outra parte da análise: o aumento vultoso de candidatos evangélicos a cargos políticos pode ser visto como positivo? É possível considerar que, se os evangélicos começarem a ocupar cargos políticos, podemos mudar a nossa história? Esse é realmente o caminho?

Victor esclarece que há uma dupla face da questão neste ponto: uma positiva e outra negativa. Positiva porque há de fato candidatos evangélicos com relevância pública na sociedade brasileira. Negativa porque o “aumento vultoso” desses candidatos se dá na maior parte das vezes como projeções políticas de certas denominações evangélicas, partidos e grupos de poder com intenção inescrupulosa de dominação social, religiosa e política. “Estou convencido de que o caminho não é buscarmos um ‘Estado cristão’, muito menos saturarmos as bancadas parlamentares com pastores-políticos, mas sim formarmos, a partir das comunidades evangélicas locais, cidadãos responsáveis imbuídos do senso ético do Evangelho e do comprometimento com sua justiça, para então, com candidatos evangélicos ou não, termos os valores do Reino de Deus semeados no solo da cultura e sociedade. Assim, influenciá-la de maneira positiva.”

Leonardo Alvarenga, professor, pesquisador, doutor em Ciência da Religião e membro da Igreja Batista Jardim Franco, em Macaé (RJ), destaca que o aumento de candidatos evangélicos e a participação destes no cenário político são recentes. Ele explica que, pouco antes da Assembleia Nacional Constituinte, diferentes vertentes do segmento se organizaram para defender seus valores e eleger parlamentares. “Anteriormente eram avessos.”

Franco avalia que o caminho para considerar se é positiva ou não essa participação deve passar por uma crítica à pauta, que desde o começo continua a mesma: “manutenção da família, união conjugal monogâmica e heterossexual, proibição do aborto e do divórcio, moral sexual e combate à sexualidade”.

“Quando os justos governam, o povo se alegra; quando os perversos estão no poder, o povo geme” (Pv 29.2)

“Como se os problemas do Brasil fossem uma questão de foro íntimo. Ainda que a questão do aborto seja uma questão de saúde pública, a preocupação não parece essa por parte de alguns que se dizem evangélicos. É de suspeitar que essa ‘bancada’ tem pouco ou quase nenhum interesse senão o de impor a uma sociedade plural, sem diálogo e debate de ideias, seu ponto de vista. O Estado é laico. O que isso quer dizer?”, analisa ele, enquanto contextualiza com a história: “A laicização introduziu na política um distanciamento institucional da religião na regulação global da sociedade, notadamente num contexto pluralista. Inclusive, foram os protestantes e evangélicos, principalmente da vertente histórica, que defenderam que Estado e religião deveriam se separar. O que não significa omissão por parte da religião na esfera política. Sim, ao pensar no bem-estar da sociedade, devemos considerar diferentes pontos de vista, respeitando a democracia e horizontalizando nossas decisões. Portanto, ao considerar essa realidade, a representação declarada de evangélicos na política, grosso modo, tem sido um desserviço à nação”, argumenta.

O crente e a política

Atualmente, observa-se uma busca pela exclusão da mensagem de Jesus Cristo do olhar público, como se andássemos na “contramão” de Sua vontade. Exercer cidadania por meio do voto abre precedente para promoção, proteção e preservação de um governo que teme a Deus e naturalmente segue Seus mandamentos. Obviamente não é fácil, visto que as tentações e provações existem e, como em qualquer outra área da vida, as dificuldades surgem. Entretanto, abrir mão dessa oportunidade significa permitir ou pelo menos facilitar que pessoas que queiram rejeitar o nome de Cristo alcancem o seu objetivo.

Os governantes que elegemos, ou aqueles que permitimos que fiquem no poder, influenciam diariamente nossas vidas e nossas liberdades. Assim como podem escolher guardar e favorecer o nosso direito de adorar ao Senhor e cumprir o seu “Ide”, levando sua mensagem de salvação, podem também impedir a prática desses direitos que foram conquistados na cruz do calvário. Eles detêm as possibilidades de liderar o Brasil em direção à retidão ou lançá-lo ao desastre moral. Precisamos cumprir as nossas obrigações cívicas.

Leonardo Alvarenga cita uma afirmação do bispo anglicano Robson Cavalcanti: “Com a certidão de nascimento primeiro e com a carteira de identidade depois, todos somos possuidores dos títulos de sócios do nosso país”. Assim, ele define que somos seres sociais e naturalmente seres políticos, e o cristão não é uma exceção. “Mesmo quando decidimos não fazer política, estamos fazendo, ainda que de forma omissa”, ressalta.

Em um mundo com tanta desigualdade, avalia Alvarenga, fomentar uma política que busque na sua base erradicar esses problemas é um dever de todos, inclusive do cristão. Ele lembra o que diz o livro de Tiago (1: 26-27): “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo. Com isso, me parece que a religião ideal é aquela que na sua lógica própria faz política cuidando daqueles que necessitam. Fazer política é também se importar com o outro. Uma política regida pela ética evangélica deve primar pelo direito dos pobres”, declara

Fonte: entrevistados da matéria

Victor Breno conta que o envolvimento do cristão com a política não é uma opção, é um imperativo bíblico e moral. “Toda fé religiosa implica algum comprometimento político (esteja consciente disso ou não). Com a cristã não é diferente. Aqui valem duas questões: primeiro, dizer que é necessário discernir que há várias formas de envolvimento, algumas legítimas e outras não; segundo, esse envolvimento deve se dar de maneira consciente e critica – à falta disto, normalmente, implicam não um envolvimento sadio, mas sim uma absorção tóxica da fé cristã pelo jogo da politicagem pervertida. Quanto menos lúcidos a respeito dos princípios cristãos que norteiam esse envolvimento e das sutilezas das tramas políticas, mais os indivíduos e igrejas não se deixar conduzir por posicionamentos nefastos”, pondera.

Como deve ser o voto do cristão?

“Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1 Timóteo 2:1).

A base para o voto, bem como para qualquer outra ação na vida do cristão, está na oração. Clamar a Deus por orientação e direção permite uma tomada de decisão consciente, sob a direção do Rei dos reis, Senhor dos senhores, que governa sobre todos. Daí a importância de entender a Sua vontade. No entanto, a tendência é entendermos que o simples fato de um candidato se declarar cristão o torna apto a ser eleito e representar o povo com justiça. Será?

Leonardo Alvarenga explica que o critério para se votar em qualquer candidato não deve ser a sua pertença religiosa, mas sim sua coerência ética e política. Ele esclarece que, quanto a justificar à luz da Bíblia, devemos tomar cuidado. Para ilustrar, o pesquisador cita José Saramago ao falar sobre o atentado às Torres Gêmeas nos EUA: “Por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”. “O regime político da época em que os textos bíblicos foram escritos ou era monárquico (rei) ou imperialista (imperador). Portanto, ninguém escolhia de forma democrática um representante político. Temos a recomendação de Paulo para que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças, em favor de todas as pessoas; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade (1 Tm 2:1-2). O que não quer dizer que a oração seja um ato passivo. A oração também é um ato de resistência: ‘Venha a nós o Teu Reino. Seja feita Sua vontade na terra como no céu (…) livra-nos do mal’”.

“Com a certidão de nascimento primeiro e com a carteira de identidade depois, todos somos possuidores dos títulos de sócios do nosso país”
Robson Cavalcanti, bispo anglicano

Quando questionado acerca da possibilidade de “virar o jogo”, votando somente em candidatos que se declaram cristãos, Victor Breno responde: “Não, com toda certeza não. Primeiro porque, muito embora consideremos que os cristãos devam ser agentes de justiça, retidão e paz na sociedade, eles não são os únicos a buscarem esses valores. Há muita gente de bem (alguns dirão que infelizmente mais do que nos nossos próprios rincões!) na política ‘secular’ que presta um serviço público bem mais significativo que os chamados parlamentares evangélicos. Segundo porque, com raras exceções, em vez de ‘virar o jogo’, os políticos evangélicos têm ‘entrado no jogo’, dificultando uma inserção relevante e significativa de sermos no contexto do debate público nacional”.

“Estou convencido de que o caminho não é buscarmos um ‘Estado cristão’, muito menos saturarmos as bancadas parlamentares com pastores-políticos, mas sim formarmos a partir das comunidades evangélicas locais cidadãos responsáveis, imbuídos do senso ético do Evangelho e do comprometimento com sua justiça” – Victor Breno, pesquisador, professor e doutorando em Ciências das Religiões pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Alvarenga partilha da mesma opinião: “Como disse anteriormente, não é o fato de um candidato ‘ser evangélico’ que garantirá as mudanças necessárias à nossa sociedade. Quantos políticos ‘evangélicos’ foram eleitos nos últimos anos? Que mudanças houve no cenário político e social do nosso país? Da mesma maneira que não devemos nos surpreender com o fato de os evangélicos crescerem no país, ou mais católicos etc, que o país vai virar o jogo”.

Ele conclui que o Brasil tem uma expressiva maioria religiosa, porém, isso não se reflete em ações que viabilizem melhorias em toda a sociedade, principalmente na erradicação das disparidades sociais, da corrupção. A presença física e representação numérica não correspondem a peso, influência e impacto na vida nacional.

“O que vemos são políticos preocupados com pautas de cunho meramente moral.
O que muitas vezes não passa de um projeto de poder, com interesses escusos. O que esperamos de um candidato, a meu ver, é que, independentemente de ser evangélico ou não, busque justiça social e viabilização de políticas sociais que priorizem o ser humano, sua dignidade, escolhas e reais necessidades, seja qual for sua religião, sexualidade, partido etc.”

Assim, a chave para uma decisão que resulte em mudanças relevantes e que tenha o voto do crente como decisivo tem início no entendimento do que Deus realmente quer de nós. Deixemos nossos corações sensíveis à Sua orientação a fim de não desperdiçar a oportunidade que nos é dada por meio da democracia.


Dicas de leitura

Política segundo a Bíblia
Wayne Grudem
Editora Vida Nova

 

 

 

 

 

Fé cidadã
Carlos Bezerra Junior
Editora Mundo Cristão

 

 

 

 

 

Plano de Poder: Deus,
os Cristãos e a Política
Edir Macedo e Carlos Oliveira
Editora Thomas Nelson

 

 

 

 


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