Onde está o meu chamado?

Ser útil para a obra de Deus é um dever de todo o cristão. Embora a propagação do Evangelho cresça continuamente, muitas igrejas carecem de mão de obra para o serviço. Sobra acomodação. Falta compromisso

Uma cena muito comum nas igrejas: aquele crente que toda semana está no culto para “assisti-lo”, cumprimenta amigos e, ao final, sai… achando que vida cristã se resume a essa simples rotina. Por vezes, ainda reclama que o pastor pregou mal, que o som estava ruim etc.

Alguns pastores chegam a afirmar que nunca se viu tanta acomodação nas igrejas como hoje; que a cada período de eleição para os setores ou ministérios é revelada a escassez de mão de obra para o serviço na comunidade local.

Talvez falte, por parte de muitos cristãos, o entendimento do que seja o chamado cristão para o serviço no Reino de Deus. Exemplos bíblicos de como não proceder temos aos montes, como Jonas – típico caso de crente acomodado, desobediente, covarde e fujão.

Mas o que falta para o servo de Deus entender o seu papel no Reino? De acordo com o líder da Igreja Apostólica Batista em Vitória, pastor Ricardo Raymundo, esse entendimento só chegará com o discipulado. “O crente precisa entender o ide, que é levar a mensagem e o ensino. Ele precisa assimilar o que é o Evangelho, que nada mais é do que a negação de si mesmo. Se essa premissa não for observada, vamos continuar tendo igreja cheia sim, mas com poucos que abraçam o serviço”, disse.

Por meio dos dons espirituais, Deus chama os cristãos para o serviço (1 Co12; Rm 12; Ef 4.11-12). Paulo usa o exemplo do corpo humano para mostrar que a Igreja, o corpo de Cristo, tem muitos membros com funções diferentes, mas concorrendo para a efetivação dos planos e objetivos divinos.

O chamado

O metalúrgico aposentado Ailton Ramos, da Igreja Batista em Itaparica, Vila Velha, é um exemplo de crente que não aceita ficar no banco. Aos 76 anos, ele trabalha 100% para Deus. “Foi um voto que fiz: quando me aposentasse trabalharia somente para o Senhor. Tive muitas oportunidades de emprego depois que me aposentei, mas mantive meu compromisso e estou muito feliz.”

Ailton Ramos trabalha na área do patrimônio, é regente, canta em quarteto e grupo vocal, é líder de grupo de comunhão, professor da Escola Bíblica e trabalha com casais. “Acho que é isso”, mostrando que até tem dificuldade de listar suas frentes de trabalho na igreja.

Para ele, o serviço cristão é reflexo de sua conversão. “Sou um seguidor de Cristo. Atendi ao Seu chamado. Primeiro, vem a conversão; depois, o serviço. É um caminho natural. Hoje a acomodação nas igrejas é geral. A explicação é a falta de comprometimento, de conversão genuína”, falou Ailton.

A mesma postura tem sua esposa, dona Ely. Muito dedicada ao ofício de professora dos juniores, ela canta no coral e se responsabiliza pela cantina da Igreja Batista em Itaparica.
O pastor Ricardo Raymundo destaca que todo cristão verdadeiro é chamado para o serviço. A conversão do pecador não visa unicamente à sua libertação da pena do pecado, mas também a habilitação para uma vida de serviço a Deus (Rm 6.17-19).

Os primeiros homens que Jesus chamou não foram “os sábios segundo a carne, nem os poderosos, nem os de nobre nascimento” (I Cor 1.26), mas os humildes. “Isso nos prova o quanto Deus capacita os que Ele chama. Muita gente não exerce uma atividade na igreja porque acha que não tem capacidade. Isso é um erro”, lembra Ailton Ramos.
Paulo era um intelectual; Pedro um pescador. Ambos atenderam ao chamado do Senhor e, pela Sua graça, tornaram-se pilares do Cristianismo.

O serviço

Se cada cristão entendesse o privilégio que tem de ser um instrumento nas mãos de Deus, não haveria tantos que nada mais fazem do que assistir aos cultos apenas por um costume religioso. À essa postura, a costureira e modelista Joselda Possmoser, da Comunidade Batista da Glória, Vila Velha, disse não. Diaconisa, ministra de louvor, integrante do ministério de intercessão, ela é sempre disposta para exercer as atividades da igreja em que congrega. “O meu chamado é para o louvor. Para mim é um ministério valoroso, que me traz mais intimidade com Deus e crescimento espiritual. É a área em que mais me realizo espiritualmente.”

Joselda dá dicas para entender o chamado de Deus para o serviço. “A gente costuma ler a Bíblia sem buscar a interpretação à luz do Espírito Santo. Lá diz: ‘Buscai primeiro o Reino de Deus’. Isso significa buscar primeiro o que é relacionado ao Reino de Deus, o serviço, a pregação da Palavra. Quando colocamos Deus em primeiro lugar, estamos no centro da vontade do Senhor.”

A contadora Cristina Pacheco, da Igreja Nova Vida, Vila Velha, há cinco anos atua no ministério de intercessão de sua igreja. Ela descreve que a acomodação dos crentes é profecia bíblica e que a Igreja precisa se levantar para ouvir a voz de Deus. “Hoje, as igrejas sofrem por não terem intimidade com Deus. Tomam decisões sem dobrar os joelhos antes. Todos os problemas que a igreja enfrenta devem ser colocados diante do Senhor. Ele dará a resposta. Os cristãos precisam de um genuíno avivamento.”

Geração “alisa banco” é uma tendência

Dinâmica de vida, competitividade no modelo doutrinário denominacional (que se confunde com usos e costumes), choque de culturas, diferentes estilos de vida. Eis algumas razões pelas quais muitos crentes enfrentam dificuldades em atuar na comunidade onde congregam. E quanto maior a comunidade, maior a probabilidade de se esconder na multidão.

Muitas pessoas se convertem e passam a ter um novo ritmo de vida. Antes, viviam em atividades diversas, como expectadores. Agora, são chamadas para serem protagonistas. “Precisamos de muita graça, sabedoria e uma boa dose de paciência para orientá-los no novo caminho”, afirma o pastor Eli do Prado Vieira, do Ministério Evangélico Missões Urbanas e Transculturais, Vila Velha.

O pastor Eli salienta que o comodismo surge também porque as pessoas profissionalizam a religião. “A visão é de que como o pastor recebe salário, então somente ele deve trabalhar. A igreja vive como um trem de ferro. Duas máquinas puxam 150 vagões; 10% da igreja trabalham, o restante busca o alimento, mas não alimenta ninguém.” A vida do cristão não está alienada do resto do mundo. Todos trabalhamos, estudamos, temos vida social. E, mesmo assim, somos chamados ao serviço. “A missão da igreja é grande, árdua e precisa de pessoas. Estratégias de atração dos membros para o serviço são necessárias, principalmente nos tempos atuais, onde parece que o ‘alisa banco’ é uma tendência”, declara o pastor Eli.

O cristão que fica “sentado no banco” não cresce espiritualmente. O pastor Cláudio Mendes, do Ministério Fonte de Vida, Vila Velha, comenta que o ide que encontramos em Mateus 28 é para todos, e não apenas para os mais sábios, líderes ou pastores exercerem. “Vivemos uma cultura de apenas receber e não dar. O Evangelho primitivo é um exemplo para nós de como deveríamos agir hoje: todos faziam e por toda a parte. Não podemos obrigar as pessoas a servirem a Deus com seus dons e talentos, mesmo porque Jesus não fez assim, precisamos cativá-las, mostrá-las esse valor.”

O pastor Cláudio desperta para a questão do papel da liderança. Como membros do corpo, todos nós temos uma função. Em I Coríntios 12, onde vemos a Igreja local em ação, verificamos que todos têm participação. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um, para o que for útil e os dons são distribuídos.”  “Se Deus capacita uma pessoa para exercer uma atividade profissional, como não fará o mesmo para o serviço cristão? A liderança deve estimular o discipulado constante para despertar os que dormem, levando-os a uma intimidade com Deus”, falou o pastor Ricardo Raymundo.

As três grandes áreas de oportunidade para o ministério cristão são o culto e louvor a Deus, a edificação e comunhão mútua e a evangelização. Uma dica importante para a liderança é procurar munir-se das melhores informações sobre as pessoas que o cercam e fazer a distribuição do serviço.

Dar um tratamento individualizado aos membros é a receita do pastor Messias Viana, da Igreja Resgate, em Vila Velha, para tirar muitos da zona de conforto espiritual. “As pessoas querem atenção, ser abordadas, se sentirem importantes. O líder precisa se aproximar de um por um e conversar sobre o serviço cristão e mostrar as necessidades. Não dá para fazer eleição na igreja, apenas. É preciso amor no trato com as pessoas.”

O pastor Eli do Prado diz que a liderança precisa lembrar à comunidade, constantemente, que nossa maior motivação para servir ao Senhor é a gratidão pela salvação. “Que a chama viva do primeiro amor arde em nós e nos leva a um avivamento verdadeiro que se traduz por um estilo de vida que agrada a Deus no testemunho, na evangelização e no serviço ao Reino.”

Todos temos um chamado. É preciso se colocar diante do Senhor e perguntar o que Ele quer que façamos. “Deus vai mostrar porque Ele não deseja que Sua obra pare, mas para isso é preciso buscá-lo”, finalizou o pastor Ricardo Raymundo.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.