“Brincar” de morrer: Baleia Azul, o chamado “jogo” mortal

O chamado jogo “Baleia Azul” tem causado comoção e indignação. Famílias estão preocupadas com seus filhos. No Brasil, polícia e Ministério Público investigam suicídios relacionados ao desafio

Seus pais não sabem, mas ela se automutila e pensa em morrer quase todos os dias. O corpo frágil da jovem de 19 anos está machucado; os braços estão com várias marcas de cortes que ela mesma faz, mas ninguém percebeu. Estranhamente, o sorriso e o senso de humor são capazes de esconder o apetite por práticas mórbidas, sem que o pânico interior emita alertas para os de fora. Ninguém ouve, mas ela grita por dentro sem ser notada e muitas vezes sente-se sozinha, invisível e rejeitada na faculdade e dentro de casa.

Marcar o corpo com cortes feitos de estilete está entre as etapas do desafio “Baleia Azul”

Estaria brincando com coisa séria e dando munição para uma arma que imagina não ser tão perigosa? Seria uma vítima em potencial de um jogo macabro e excitante com o próprio corpo? Questionada sobre o motivo de se ferir, dispara: “Não sei explicar exatamente, mas eu me corto, me automutilo, como uma via de escape. Às vezes a dor emocional que sinto é tão grande e forte que sentir a dor física acaba sendo uma forma de alívio.

Vira um vício. É como você tomar um medicamento; se tomar sempre e durante muito tempo, uma hora não faz mais efeito. E foi o que aconteceu. Quase todos os dias penso em tirar minha própria vida. Não tem uma explicação, a não ser não ver mais sentido para viver. É algo que não dá para controlar, você só quer acabar com aquilo de vez. Espero conseguir vencer essa luta que tenho todos os dias comigo. Não jogo ‘Baleia Azul’, mas os 50 desafios instigam como se fossem uma forma de provar que se é capaz de fazer tudo aquilo, e que não devem duvidar de você”.

Avaliando o que provoca esse comportamento, o mentor do Caminho da Graça Estação São Paulo, Carlos Bregantin, afirma que essa faixa etária, que deveria ser de uma vida pulsante, traz consigo muitos conflitos. “As dores do crescimento acometem todos os adolescentes e jovens. Onde há dor, há sofrimento. Penso que estamos lidando com a geração filhos dos quartos, do isolamento, da internet, dos relacionamentos virtuais, dos smatphones onde carregam o mundo, a vida, suas próprias vidas.”

Ainda não temos ideia de o quanto isso vem transformando os relacionamentos, que acabam determinando a busca por experiências excitantes no isolamento. Bregantin diz que essa faixa etária é barulhenta por dentro e sempre grita para chamar atenção para si.

“Num tempo em que a maioria cresce longe dos pais, ocupados em seus trabalhos, os gritos ganham dimensões e características das mais variadas e perigosas. É um grito de socorro: ‘Vocês não estão me vendo, prestem atenção em mim’”.

Os 13 porquês e o “Baleia Azul”

O que essa jovem do município da Serra, cidade da Região Metropolitana da Grande Vitória (ES), tem a ver com a adolescente norte-americana Hanna, da série “13 Reasons Why”(“Os 13 Porquês”, em tradução livre), que se suicida por causa de crises nos relacionamentos? Ambas fazem faculdade, não usam drogas nem tem uma família disfuncional, mas vivem crises existenciais de quem está em uma sociedade de competição e privilégios e onde os relacionamentos não são tão significativos. Ao olhar para as duas, quem acreditaria no possível potencial suicida de ambas?

A jovem capixaba afirma que foi uma criança sozinha e não brincava com os colegas e que hoje, mesmo tendo amigos, sente-se deslocada e deprimida. Segundo ela, o “Baleia Azul” é apenas o gatilho para quem já sofre com distúrbios e,  por medo das ameaças, acaba participando. Sobre seu desejo suicida, conclui com uma notícia que qualquer um gostaria de ouvir e torce para ser verdade: “Comecei a parar de me cortar. Ainda tenho controle.
Espero continuar assim”.

A ideia do jogo é que pessoas sejam convidadas a completar um número de tarefas em 50 dias que ficariam cada vez mais perigosas e terminariam com um desafio ao suicídio. Especialista em Gestão de Pessoas, Rafaela Pereira Rocha explica que há quem entre num grupo desses apenas por “modismo” ou como um desafio. “Essa possibilidade existe, pois é algo desconhecido, e algumas pessoas possuem o interesse em descobrir o que é, como é. É importante saber que a tristeza sem motivo aparente ou a alegria excessiva denunciam a vulnerabilidade de quem pode entrar nesses jogos.”

Médico especialista em Psiquiatria do Adolescente, Marcelo Caixeta escreveu um artigo sobre o tema e chama a atenção para a glamourização romântica da dor, como no caso do “Baleia Azul” e dos “13 Porquês”.  E o resultado, alerta, é o que se está aí.

“A chave do ensino e proteção está com os pais, quem precisam ter objetivos para os filhos” – Erasmo Vieira, pastor e psicólogo

“O que para uns é arte, para outros é caixão.” Ele acrescenta que o indivíduo psiquiatricamente doente – ansioso, depressivo ou bipolar – tem uma patologia biológica à procura de uma explicação psicológica para justificar os seus atos. “Aí não são só ‘13 porquês’”; podem ser muito mais, podem ser infinitos.”

Já o pastor e psicólogo Evaldo Carlos, de Vila Velha (ES), argumenta que o jogo é um motivador ao suicídio porque mexe com a coragem, a ousadia, o brio dos jovens. E depois incita a morte sob ameaças.

“Eles estão pedindo socorro porque já estão mutilados emocional e espiritualmente.
O ‘Baleia Azul’ é atrativo porque adolescentes estão na fase da aventura, dos desafios.
Eles querem superar a si mesmos, muitos em busca até de autoafirmação. A questão é tão grave que a Polícia Federal está indo às escolas para alertar os alunos e os pais.”

Também pastor e psicólogo, Erasmo Vieira, de Vitória (ES), aponta para uma direção bíblica e paternal. “A chave do ensino e proteção está com os pais. A Bíblia diz: ‘Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles’ (Pv 2:6)”. E completa: “Pelo que se vê, todas as dificuldades e descaminhos dos filhos seriam evitados se essa ordem fosse cumprida. Todas as desventuras, lágrimas e sofrimentos dos pais não existiriam. Toda lamentação dos filhos por escolhas erradas seria minimizada.

O texto diz ‘segundo os objetivos que você tem para ela’.  Teriam os pais objetivos concretos para os filhos? Ou eles mesmos não instruem porque não têm conhecimento nem autoridade moral para fazer isso?  Amo o apelo: ‘Pais, não irritem seus filhos; antes criem-nos segundo a instrução e o conselho do Senhor’ (Gl 6:4)”.

As piadas

Desde que a onda do “Baleia Azul” chegou ao Brasil, grupos vêm fazendo piadas sobre o tema em redes sociais, subestimando essa ameaça tecnológica. Essas atitudes têm gerado críticas e levado internautas a oscilar entre a indignação e a comoção.

Carlos Bregantin rebate as piadas dizendo que minimizar ou banalizar o assunto é dar de ombros ao sofrimento do outro. “Todo tipo de jogo que coloca a vida em risco carece ser tratado com seriedade sempre. Não gosto de ver temas tão graves caírem na vulgaridade e se tornarem motivo de piadas e brincadeirinhas. Tem gente morrendo nesta história.”
Evaldo Carlos afirma que é de mau gosto brincar com essa questão, o que se traduz em tentativa de encobrir um problema social gravíssimo. “O que leva alguém a incitar outra pessoa ao suicídio e sentir prazer nisso é também enfermidade psíquica. Somente pessoas totalmente desequilibradas sentem esse prazer sádico.”  Rafaela Pereira Rocha diz que os pais devem levar o filho a sério.

“Conversar, sem punir, pois o filho já se encontra em fragilidade.” “Essas pessoas estão em grande sofrimento psíquico. Precisam muito de ajuda, diálogo, carinho, amor, e orar muito”, conclui o Pr. Evaldo.

O que é “Baleia Azul”?

O jogo é uma referência a um comportamento de certas baleias-azuis, que aparecem em praias e morrem encalhadas. O nome estaria sendo usado por grupos de pressão na internet, com um “administrador” que encorajaria os participantes a completar os desafios em 50 dias. As tarefas incluem assistir a filme de terror à noite, fazer automutilações e até cometer suicídio.

“Algumas pessoas entram por modismo, possuem o interesse em descobrir o que é, como é” – Rafaela Pereira Rocha, especialista em Gestão de Pessoas

Esses desafios tiveram origem em 2015 na Rússia e, nos últimos dois anos, se espalharam pela Europa.  Nessa cadeia de eventos o primeiro elo foi o suicídio, em novembro de 2015, da adolescente russa Rina Palenkova, aos 16 anos. No Brasil, há preocupação que a ideia esteja se espalhando, pois relatos citam adolescentes que estariam sofrendo assédio na internet e sendo encorajados a pôr um fim à própria vida em desafios on-line. O Ministério da Justiça acionou a Polícia Federal para investigar o jogo virtual, que teria relação com esses e outros casos recentes de suicídios e automutilações pelo país.

Confira aqui a entrevista sobre “Suicídio” com o pastor Hernandes Dias Lopes

A PF investiga casos em Mato Grosso e na Paraíba. Segundo o Ministério da Justiça, há relatos sobre adolescentes que aceitaram desafios propostos pelo jogo em estados como Paraná, Minas Gerais, Pernambuco, Goiânia, Maranhão e Amazonas. O ministro da pasta, Osmar Serraglio, atendeu a pedidos do prefeito de Curitiba (PR), Rafael Greca, e de deputados federais para que a Polícia Federal investigue o “Baleia Azul”.

O caso de uma menina do Rio de Janeiro só não teve o mesmo fim trágico graças à intervenção da sua mãe. Ainda não há prisões relacionadas a esses episódios.
No Brasil, incitação ao suicídio é crime, com pena de dois a seis anos de prisão, em caso consumado. Também há suicídios em investigação na Ucrânia, no Casaquistão e no Quirguistão, com foco nos grupos on-line.

O que a ciência diz

Nossa consciência nos engana a respeito dos problemas psicológicos e vai buscar, o mais rápido possível, uma “causa externa” para esse sofrimento psíquico. Em geral, esse problema atinge uma parte do cérebro, o lobo frontal, que é crítico para a avaliação da própria consciência. O paciente perde a noção de que o próprio cérebro não funciona bem.
Na adolescência esse processo de dissonância cognitiva (entre a consciência biológica e a psicológica) é extremamente comum. Por exemplo, um adolescente tem uma alteração psiquiátrica chamada dismorfofobia, que é uma preocupação obsessiva, delirante, sobre uma infundada deformidade física. Ele não entenderá isso como “doença mental” e nunca dirá que está assim porque seus níveis cerebrais de norepinefrina caíram, mas apontará que é o resultado de bullying: “Me chamaram de narigudo”, “Afastaram-se de mim porque tenho mau hálito”.

Fonte: Especialista em Gestão de Pessoas Rafaela Pereira Rocha; e pastores e psicólogos Evaldo Carlos e Erasmo

Um adolescente que tem outra doença psiquiátrica chamada “delírio sensitivo –paranoide de relação de Kretschmer” vai achar que as pessoas o observam e falam dele. Sua consciência psicológica interpretará do seguinte e modo: “Na escola me olham esquisito porque acham que eu ando como um gay”.

Na depressão, a sensibilidade emocional patológica dessa doença manifesta-se, para a consciência psicológica do adolescente, do seguinte modo: “Não gostam de mim”, “Sou desprezado”, “Meus pais não me apoiam”, “Sofro bullying”, “Fui abusado”, “Não me entendem”, “não estão nem aí pra mim”, “vontade de matá-los”. Todo esse tipo de problema pode existir, de fato, na vida de um adolescente. A diferença é que, na vida de um adolescente normal, não gera suicídio, não gera automutilação.

O problema é o uso político e ideológico que a sociedade ocidental faz de tudo isso. Tudo aqui, nessa doença, é motivo para as “13 razões”: “denunciar o machismo dos pais”, a “opressão do sistema econômico”, a “frieza dos professores”, o oportunismo sexual dos machos. É extremamente perigoso dar-se uma “solução psicológica”, uma “solução sociológica”, para um problema cuja raiz é essencialmente biológica.  O risco é a glamourização da doença, sem medicá-la.  É muito mais glamoroso, artístico e humanístico do que falar cientificamente que isso é fruto de um desbalanço da 5-hidroxitriptamina no Locus Ceruleus.