Biochip: tecnologia ou símbolo do apocalipse?

A polêmica que já teve como alvo o RG, o código de barras e o QR Code agora chega ao biochip. Do tamanho de um grão de arroz e criado para dar praticidade, seria o biochip uma das marcas da besta?

“Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome” (Ap 13:16-17). O capítulo 13 de Apocalipse, escrito pelo apóstolo João, narra o aparecimento de duas bestas que subjugariam os habitantes da terra, impondo guerra, engano, idolatria e mortes.

Porém, está nos versículos finais do capítulo (16 a 18) o trecho mais intrigante, que fala da marca, do nome e do número da besta. Ao longo dos anos e da história da escatologia bíblica, diversas correntes se levantaram para tentar elucidar essa passagem. E, agora, a discussão é em torno de um biochip, com tecnologia NFC (Near Field Communication, cujo significado é “comunicação de curto alcance”), que tem sido implantado na mão de pessoas em busca de praticidade no seu dia a dia. O biochip NFC foi lançado no Brasil no início do ano passado pela empresa brasileira Project Company, sediada no Paraná, que já fez centenas de implantes até hoje.

Do tamanho de um grão de arroz, mas capaz de abrir portas de casas e carros, ativar acessos em lugares públicos, armanezar dados, compartilhar informações com smartphones e outros sistemas e até futuramente identificar substâncias nocivas ao organismo (esta função ainda está em estudo), o biochip levanta questões sobre os limites entre ciência e fé e o posicionamento do cristão, tendo em vista o avanço da tecnologia. Principalmente tendo agora algo que, para muitos, é o cumprimento da profecia apocalíptica.

Cautela e prudência
Em primeiro lugar, o Pr. Oséias Silva dos Santos, da Primeira Igreja Batista em Teixeira de Freitas (BA), alerta para uma interpretação coerente da Palavra. “É preciso entender o texto bíblico, que é cheio de simbologia. A primeira pessoa que disse que colocaria uma marca foi Deus em Deuteronômio 6 versículos de 4 a 9.

Deus afirma que vai implantar seu projeto de vida, de amor, de paz, sua ideologia no ser humano. Diz para amarrar o que estava ensinando na mão e pregar na testa. É uma linguagem humana, pois pregar na mão representa a materialização das ações e a testa remete à consciência.

“Eu usaria o biochip até porque tenho percebido más interpretações da escatologia. O sinal da besta não é algo regional, mas sim mundial. É preciso fazer uma análise acurada do livro de Apocalipse” – Ivan Kleber dos Santos, pastor e coordenador do Instituto de Educação Doceo.

É o ouvir, entender e obedecer aquilo que Deus ensinou. Já em Apocalipse 13 vemos que a besta é uma imitação barata de quem é Deus. Ela está querendo se passar por Deus, usa os mesmos termos, na mão e na testa, mas para quê? Para implantar seu projeto de morte e destruição pelos mesmos meios”, explicou o pastor.

Pr. Oséias alertou ainda sobre a possibilidade de deturpação do texto bíblico. “Nós somos seres no mundo. Não é porque somos cristãos que iremos demonizar a tecnologia. Acho algo extremamente perigoso não perceber também virtudes nesse processo de avanço tecnológico. Precisamos entender melhor a Bíblia para não fazer uma exegese distorcida e deturpada. Há muitos cristãos apavorados e histéricos, perdendo o foco”, avaliou.
O Pr. Cidrac Fontes, da igreja Assembleia de Deus em Itapuã, faz coro ao Pr. Oséias ao analisar a postura de muitos líderes. Ele também os chama à responsabilidade no ensino do livro de Apocalipse.

“A tecnologia pode ser usada tanto para o bem quando para o mal. Acredito que o chip também poderá interferir causando malefícios” Melchior Lima, médico cardiologista

“Penso que nada tem gerado tanta controvérsia no Apocalipse quanto a identidade da besta, bem como seu sinal. Devemos estar bem atentos a esse assunto e especialmente àqueles que se intitulam ‘doutores em Escatologia’, que têm presenteado o público com extravagantes especulações. Alguns afirmam que o sinal da besta são ou serão tatuagens, códigos de barras ou chips intradérmicos. Temos pouca informação sobre isso no Apocalipse, o que deveria nos tornar mais cautelosos. Essas especulações só tiram as pessoas do foco de Apocalipse, que são a revelação de Jesus (1.1) e Seu retorno. Onde a Bíblia se cala, nós também devemos nos calar.”

Saúde física e espiritual
Já está em estudo, pelo laboratório de Bioeletroquímica do Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), um projeto para que o biochip detecte, no organismo humano, dados sobre a saúde do implantado, como o nível de glicose, por exemplo. A intenção é que o biochip seja uma ferramenta para detectar doenças quase que automaticamente ao seu surgimento.

“Estudos mostram as boas possibilidades desse instrumento (biochip) quando inserido nas pessoas, como identificação de tumores, dosagem da glicemia, interação com o DNA para correção de doenças, etc. Mas a tecnologia pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Acredito que o chip também poderá interferir causando malefícios, como alterações no organismo, se for usado com o objetivo de manipulação. Acho que não temos informações suficientes para decidir aceitar ou não essa nova tecnologia”, avaliou o médico cardiologista Melchior Lima.

Cristão, ele acredita que a marca da besta já está presente: “A marca da besta já está em prática pelo inimigo. São todas as modulações que ele utiliza para fazermos a sua vontade! Pouco a pouco estamos mais influenciados para pender para o lado do inimigo do que para lado de Deus, por exemplo: estamos atarefados e sem tempo para Deus. Adicionalmente, temos outras correntes que nos aprisionam, como as conquistas materiais que alimentam nosso egoísmo e avareza”.

Lucro garantido
De acordo com dados da Research and Markets, o mercado de biochips movimenta mais de US$ 7 bilhões em todo o mundo. Colocados sob a pele, no espaço entre o polegar e o indicador da mão, os biochips têm o tamanho de um grão de arroz, em formato de cápsula e são feitos com vidro biodegradável para evitar rejeição. No site da empresa Project Company, é possível adquirir um biochip por R$ 349 – em empresas dos Estados Unidos, o preço costuma variar entre US$ 30 e US$ 80. Segundo o CEO da empresa, Antonio Henrique Dianin, centenas de pessoas já o adquiriram desde o lançamento, no início de 2016 (mesmo questionado, ele não informou com exatidão quantos implantes já foram feitos pela campanha). Porém, não há dúvidas de que se trata de um mercado rentável e lucrativo.

“A produção de acessórios tecnológicos faz parte do interesse comercial das multinacionais há muito tempo. Como qualquer tecnologia que aparece no mercado, o mote para a venda é a facilitação da vida humana. Vejo o surgimento dessa tecnologia como resultado natural do progresso e dos interesses das grandes corporações em movimentação de capital. Qualquer coisa além disso seria especulação eivada de teoria da conspiração”, afirmou o professor Kenner Terra, da Faculdade Unida.

Ele descarta qualquer relação entre o biochip e o sinal da besta. “O texto (Ap 13) refere-se ao contexto do Império Romano e ao imperador simbolizado pelo número. Inclusive, no Apocalipse há os marcados pela besta e os marcados por Deus (Ap 9:4). Então, as marcas no livro do visionário João se referem à divisão dos grupos que pertencem à besta, que representa Roma e seu sistema, e aos que pertencem ao grupo dos seguidores do Cordeiro. Identificar a marca da besta com o chip é retirar o contexto e obrigar os leitores de linha futurista a identificarem hoje nas tecnologias modernas o que seria a marca de Deus, uma tarefa muito difícil. Em suma, o chip que pretende ser usado para auxílio médico ou identificação não tem nenhuma relação com a marca de Apocalipse 13.”

Já o pastor e coordenador do Instituto de Educação Doceo, Ivan Kleber, da Assembleia de Deus Vida Abundante em Cariacica (ES), não somente descarta qualquer ligação como também admite que usaria o biochip em seu corpo. “Eu usaria, até porque tenho percebido más interpretações da escatologia. O sinal da besta não é algo regional, mas sim mundial. É preciso fazer uma análise acurada do livro de Apocalipse. Tenho visto muitos intérpretes reescrevendo seus livros e publicações por terem se precipitado em dar data da volta de Cristo e em dizer quem é a besta e o que é o seu sinal”, garantiu.

Então o que seria a marca da besta? Para o Pr. Oséias, não há dúvida: “Todo sistema ideológico que queira se implantar de forma absoluta e se colocar no lugar de Deus é a besta. Precisamos identificar a besta pós-moderna. Todo sistema que nega a Jesus Cristo, que impõe perseguição, que se alimenta do sangue dos mártires, esse sim é a besta. Precisamos abrir os nossos olhos, pois muitas vezes nos alimentamos de uma teologia que não nos deixa ver e identificar o que está acontecendo.

Os crentes acreditarem que um chip pode ser a marca da besta é desviar o foco. Pior não é o chip, é o crente se submeter a um sistema mais preocupado em ter do que compartilhar, mais preocupado com o eu do que com o amor fraterno. Mais preocupado em querer ser Deus do que a amá-lO e obedecê-lO. É isso que trata o Apocalipse, diz para ter sabedoria e entendimento e não se desviar do foco, que é Cristo Jesus”, afirmou o pastor.

“Adoro criar e inventar coisas”

Criador do biochip NFC e CEO da única empresa na América Latina que o comercializa – a Project Company, sediada no Paraná –, Antonio Henrique Dianin, 30 anos, é um inventor nato. “Adoro criar e inventar coisas. Quando criança, escolhia os brinquedos pelas peças que tinham dentro deles, porque eu queria montá-los”, lembrou. Ele afirmou que a implantação de biochip no corpo é uma tendência cuja procura deve aumentar. No entanto, posiciona-se contra a obrigatoriedade da implantação, caso isso seja sinalizado num futuro próximo.

Comunhão-É possível estimar quantas pessoas hoje no Brasil têm o biochip implantado?
Antonio Henrique Dianin – São centenas de pessoas. Não temos informações do número exato, pois fazemos um evento chamado “Implant Party”, em que as pessoas fazem o implante na hora, aí não tem como saber de onde é a pessoa.

Quando foi desenvolvido o biochip?
Lançamos o chip no começo de 2016, mas já tinha na empresa outros dispositivos lançados antes, em 2013, como as pulseiras, com o mesmo sistema.

Quais as principais funções que ele desempenha e como funciona?
O biochip não tem bateria. Então ele funciona através do campo magnético de um outro dispositivo que, quando aproximado, faz com que o chip transmita a informação que está gravada nele. Ele é aberto e você pode fazer a programação que quiser e definir qual será sua utilidade. Uso o meu, por exemplo, para desbloquear meu celular, compartilhar meu cartão de visitas… Encosto minha mão no celular da pessoa e passo os meus dados. Posso compartilhar redes sociais e também uso para abrir as portas da minha casa, dar partida no meu carro, fazer pagamentos. É bem legal não precisar usar mais chave para nada.

Há possibilidade de rastreamento?
Não, nosso implante não possui rastreamento. Para ter rastreamento, seria preciso colocar uma bateria e seria necessário carregá-la. E o implante não precisa ser carregado, sempre funciona. É fácil fazer um sistema de rastreamento, mas ele ficaria enorme e não daria para implantar na mão. O implante é do tamanho de um grão de arroz. Provavelmente esse sistema de rastreamento possa surgir num futuro próximo, mas o nosso implante não tem a intenção de ter rastreador.

Há possibilidade de roubo de informações do usuário?
Depende. O sistema tem duas partes: a memória e o ID. O NFC (Near Field Communication, que significa comunicação de curta frequência) é o sistema mais seguro hoje, é o padrão mundial de pagamentos.

Não é, possível copiar nem clonar o ID do NFC, mas a memória é aberta e é voltada para o usuário. É como se fosse seu pendrive, é vulnerável. Você pode criptografar e fechar a memória ou então deixar aberta, lembrando que as informações que você gravar nela são aquelas que você quer que as pessoas saibam.

O implante traz riscos para a saúde ou pode ter rejeição no organismo?
Não. Usamos material biocompatível, um vidro que é utilizado na medicina desde 1970, não há qualquer risco para o organismo. É muito difícil de romper o invólucro. Fizemos vários testes com ele: mergulhamos no nitrogênio líquido, jogamos 50 quilos em cima dele, e não quebrou. Também não precisa tomar nenhuma medicação, não há rejeição.

Por quanto tempo pode ficar implantado?
Pode ficar eternamente implantado, mas a gente estima que a vida útil seja de 20 anos. Pode tirar para atualizar a tecnologia.

Qual o prognóstico que a empresa faz sobre o uso de biochips?
Acho que é uma tendência, cada vez mais as pessoas vão querer implantar biochips. Quando começa a usar, você se pergunta: “Como fiquei sem usar tanto tempo?” A praticidade é gigantesca. Substitui tudo que você precisa levar para os lugares. Quando saio, não levo nem minha carteira, posso usar quase tudo com meu biochip.

De onde ou como surgiu esse seu interesse por tecnologia?
Eu amo tecnologia como um todo, acho que surgiu desde criança. Eu adoro criar e inventar coisas. Quando criança, eu escolhia os brinquedos pelas peças que tinham dentro deles, porque eu queria montá-las. Fazia parte do meu dia a dia e faz parte até hoje.

Chegará um dia em que todos serão chipados?
Não sei, há muita controvérsia, principalmente religiosa. Algumas pessoas associam o implante com a questão da marca da besta. Isso não afeta a gente em nada, as pessoas que fazem o implante são bem conscientes. Acho que toda tecnologia nova gera a mesma polêmica. Já reclamaram do RG, do código de barras e agora chegou a vez do biochip. A associação que algumas pessoas fazem é normal na adaptação a uma nova tecnologia. Somos contrários à obrigatoriedade de se implantar o biochip. Mas somos a favor que a pessoa possa escolher e que todos os sistemas sejam interligados.