Augustus Nicodemus fala sobre seu ministério e temas como teologia reformada e homossexualismo

Augustus Nicodemus

Natural da João Pessoa (PB), Augustus Nicodemus Gomes Lopes é vice-presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriano no Brasil, ministro, teólogo calvinista, professor e escritor.

Desde 2003, ele atua como representante do Instituto Presbiteriano Mackenzie, em São Paulo, exercendo a função de chanceler. Já passou por diversas congregações, sendo hoje pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia (GO). Uma das referências brasileiras na literatura cristã, este paraibano de 63 anos já tem mais de 30 livros lançados. Nesta entrevista, Nicodemus fala do seu ministério e aborda, ainda, temas, como teologia reformada, homossexualismo e papel da Igreja cristã contemporânea. Confira.

O senhor acaba de lançar o livro “Descomplicando o Cristianismo”. De que forma a obra foi elaborada? O que os leitores podem esperar dessa publicação?
Essa obra foi elaborada a partir de vários programas de rádio nos quais o pastor traz perguntas dos nossos ouvintes e eu respondo. São dúvidas doutrinárias, como as relacionadas a comportamento, questões de cultura, vida e interpretação da Bíblia. Gravamos quase 300 programas respondendo a essas indagações, e o título do quadro é: “Em Poucas Palavras”. A Editora Mundo Cristão tomou conhecimento desse programa quando um dos nossos ouvintes que resolveu fazer a transcrição nos apresentou um manuscrito pronto. E por isso foi elaborado um livro com perguntas e respostas. Os editores resolveram dar o título à obra, “Descomplicando o Cristianismo”. Nossa expectativa é que os leitores sejam abençoados como os ouvintes foram, um público brasileiro que não tem muito acesso às mídias sociais, mas que gosta de ler.


Confira a entrevista com Nicodemus



O senhor é autor de mais de mais de 30 livros com vários temas, alguns até polêmicos, tais como homossexualismo, dons espirituais, unção. Como se dão a escolha de cada um deles, a inspiração divina, a atenção aos fatos do dia a dia?

Cada livro nasce por motivo diferente. Meu primeiro livro foi sobre batalha espiritual, que trouxe uma repercussão grande. Isso foi em 1996, quando tinha regressado dos EUA, onde tinha feito meu doutorado em Teologia. Quando cheguei ao Brasil, o movimento de batalha espiritual estava no auge. Havia muita literatura falando sobre isso. Mas eu entendi que tinha que mostrar o outro lado. Então eu escrevi “O que Você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual”; foi um sucesso imediato. As pessoas precisavam de alguma orientação nessa área. Então esse livro nasceu da necessidade. O seguinte, que falou sobre o “verdadeiro culto espiritual”, abordava o uso do véu e a ceia do Senhor. Ele também nasceu de uma necessidade e fez sucesso. Um dos meus lançamentos mais recentes, “Apóstolos”, foi publicado pela Editora Fiel e é resultado dos meus estudos de pós-doutorado. Escolhi esse tema porque descobri que no Brasil há mais de 10 mil apóstolos, e não existe nenhuma publicação que trate dessa questão. Muitos livros nascem da observação de uma lacuna que precisa ser preenchida de ensinamento bíblico a respeito de um determinado assunto. Outros livros são frutos de séries de pregações nas igrejas onde eu tenho servido. Outros são resultados de palestras e estudos sobre temas específicos, como a questão da homossexualidade, ideologia de gênero, educação e relação da fé com a ciência, além de uma série de outras questões que fazem parte do mundo evangélico.

Augustus NicodemusQual a obra publicada pelo senhor que rendeu a maior repercussão entre os cristãos? E por qual delas o senhor se sentiu mais tocado?
De todas, a que teve maior repercussão e que continua vendendo muito é a primeira, “O que Você Precisa Saber sobre Batalha Espiritual”. Está na sétima edição e continua sendo lida e estudada pelos cristãos. Mas o livro que mais mexeu comigo e que mais gostei de fazer foi “Apóstolos”, pois trata da questão da hermenêutica, da interpretação bíblica, da Igreja contemporânea, da questão histórica de como a Igreja compreendeu esse título e por que os pastores acham que são apóstolos.

Os evangélicos, tanto do Brasil quanto em outros países, consideram o senhor um dos grandes pregadores da Palavra de Deus e também referência da literatura cristã no país. Diante de todo esse destaque, manter a humildade por ser um servo de Deus é um exercício diário? E isso aumenta a responsabilidade do “Ide, levai o Evangelho a todos os povos”?
É uma luta diária lembrar aquilo que o apóstolo Paulo disse em Coríntios: o que é que você tem que não tenha recebido? Creio que Deus me deu muitos privilégios durante a minha vida. Estudei em boas escolas, fiz curso de Teologia no exterior com bons mestres, tive tutores no Brasil que me orientaram, oportunidades de serviços em instituições no país que moldaram a minha maneira de pensar… Também fui diretor de Teologia. Sou uma pessoa absolutamente ordinária, comum e obscura que teve oportunidades. Se alguma coisa sou, é só porque recebi mesmo pela graça de Deus. Prefiro fazer o que tenho que fazer, deixar nas mãos de Deus e me lembrar todos os dias da graça de Deus.

O que o motiva atualmente em seu trabalho? As conquistas ou os novos desafios?
Gosto muito do que faço. Quando Cristo me chamou para ser um pregador, eu tinha feito o curso de Engenharia Elétrica e estava fazendo Desenho Industrial, mas nada daquilo me deixava feliz. Descobri o Evangelho, e o chamado pastoral mudou minha vida completamente. O que me motiva na verdade é cumprir esse chamado que Deus me deu para ser um pregador. Eu me vejo basicamente como um pregador do Evangelho, embora tenha publicado muitos livros. É isso que mais gosto de fazer, me renova e me dá alegria. A pregação representa um desafio. Sou pastor de uma igreja local e prego três vezes no mesmo dia; por isso tenho que estar pronto. Isso me leva a estudar a Bíblia, a consultar comentários. Mas isso me dá alegria. Sempre há um novo desafio que abençoe a igreja. Temos sempre que superar.

O senhor foi chamado para um ministério designado por Deus, e já são 35 anos desenvolvendo isso. Qual o melhor conselho que já recebeu nessa jornada?
O melhor conselho que já recebi foi do meu sogro, um pastor holandês. Uma vez ele me chamou no seu gabinete; eu estava no segundo ano do seminário de Teologia. Conversando comigo, detectou a arrogância de um jovem que se excedia em alguns pontos. Pediu-me pra ler um quadro no rodapé da parede. Então me ajoelhei para ler. A escrita tratava de um versículo baseado em Gálatas 2:20: “Não eu, mas Cristo”. Foi quando ele colocou a mão sobre a minha cabeça e orou por mim dizendo: “Deus tenha misericórdia deste jovem tão cheio de talentos, mas que precisa se humilhar diante do Senhor”. Aquilo foi uma revolução na minha vida. Foi um conselho prático: “Não eu, mas Cristo vive em mim”.

Hoje observamos um notável crescimento da teologia reformada nas igrejas e principalmente entre os jovens. Qual seria a perspectiva para a Igreja brasileira?
É verdade. Há um crescimento, sim, da teologia reformada nas igrejas. Mas teremos de esperar para ver isso ainda. Mas creio que, de um jeito ou de outro, já está fazendo uma diferença grande. Algumas denominações tradicionais e pentecostais já estão sentindo a força do pensamento reformado em suas igrejas. Isso tem provocado uma reação contrária, porque o movimento pentecostal é arminiano, e isso dá reação negativa. Mas outros pastores e líderes de igrejas de origem pentecostal têm aberto as portas para olhar essas doutrinas bíblicas. Então creio que vai afetar também as igrejas reformadas tradicionais que estão recebendo jovens querendo servir e fazer a diferença. Eu não sei qual será o resultado, mas que isso vai afetar tanto o movimento pentecostal e neopentecostal como as igrejas reformadas, não tenho dúvida.

É possível uma igreja ser reformada e contextualizada ao mesmo tempo nos dias de hoje?
Um dos pontos da Reforma é que a Igreja reformada sempre está se reformando à luz da Palavra de Deus. Isso é um dos lemas da segunda geração de reformadores na Igreja. Ou seja, eles já reconheceram que isso tem que acontecer para poder ser relevante ao mundo onde ela se encontra. Então, a visão reformada de Igreja e a contextualização andam de braços dados. É errado pensar que o reformado é uma pessoa que quer preservar um modelo histórico que funcionou nos séculos 16 e 17 nos dias do século 21. As igrejas precisam se adaptar ao mundo em que estamos inseridos.

Diante do “teísmo aberto”, qual seria a resposta teológica mais adequada quando as pessoas nos perguntam sobre as grandes tragédias?
O teísmo aberto diz que o futuro está em aberto porque Deus não somente determinou o futuro como também não conhece o futuro. A história vai sendo construída por Deus e pelos homens. O futuro sempre está aberto, portanto, não tem como se falar que Deus conhece esse futuro. O problema do “teísmo aberto” é que ele reduz o Deus da Escritura ao Deus limitado. A solução não é dizer que Deus não sabia que as catástrofes iriam acontecer. A resposta é que elas fazem parte do mundo caído, marcado pelo pecado. E algumas delas antecipam o dia do juízo final. Elas são usadas por Deus para, por um lado, punir o ímpio e castigar o inimigo, e por outro, discipular os Seus filhos, fazê-los crescer, discipliná-los, testar sua resiliência. Então essa é a solução bíblica para o dilema. Está errado tentar “livrar a cara de Deus” dizendo que Ele não fez nada, como alguns teólogos fizeram no Brasil. Mas graças a Deus esse movimento hoje não tem mais repercussão entre os teólogos sérios no Brasil.

Augustus NicodemusO cristianismo precisa de uma Reforma?
O lema da Reforma é que a Igreja de Cristo esteja sempre se reformando, porque a tendência da Igreja de Cristo é a “Deforma”. Se você não fizer nada ou se nada acontecer, a tendência é a Igreja ir para baixo. Por isso, é preciso que Deus esteja interferindo, que reformas estejam acontecendo para que a Igreja seja atual e viva, fazendo a diferença no mundo. O cristianismo sempre está precisando olhar pra si mesmo e voltar à Palavra de Deus, ao ponto onde ele se desviou.

Qual deve ser a postura de um líder religioso diante de políticos que se elegem da maneira cristã, mas que quando chegam ao poder não agem como servos. E por que a maioria das lideranças se une para eleger, mas não para tirar os falsos do poder?
Isso decorre de uma visão errada da relação entre Igreja e política, no meu entender. Com relação à política, a Igreja primeiramente tem uma tarefa didática, que é ensinar os seus membros a ser bons cidadãos. Isso está em Romanos 3, que diz que temos que respeitar as autoridades constituídas. A Igreja tem que ensinar seus membros a cumprir as leis, a pagar os impostos. Ao mesmo tempo, tem que ensinar os membros envolvidos na política a ser honestos, a não praticar a corrupção e a procurar o bem do povo. Lembrar que político evangélico não é despachante de igreja. Ele foi eleito para fazer o bem da nação, e não fazer leis específicas para a Igreja evangélica.

“Homossexualismo” e “ideologia de gênero” são assuntos que têm gerado muita controvérsia dentro das próprias denominações. Se, por um lado, é claro na Bíblia que tais práticas são pecaminosas, por outro, Deus ordenou que amássemos uns aos outros como a nós mesmos. Portanto, abominar o pecado, mas amar o pecador. Na prática, está faltando esse atendimento à membresia?
Sim. Sem dúvida a prática de homossexualismo é condenada na Bíblia. Ela aparece em três listas de pecado (Romanos 1, I Coríntios 3 e I Timóteo 1). Nisto não pode haver dúvidas: essa prática é pecado porque infringe a lei natural e a maneira como Deus criou a raça humana. Mas, por outro lado, o homossexualismo não é visto na Bíblia como um pecador pior do que outro. O Novo Testamento não via o homossexualismo como pouco perdoado. E, sim, é pecado, assim como é o adultério. Por isso, não se admite homofobia. O cristão não deveria ser homofóbico. Temos que manter não só uma atitude de firmeza, de reconhecer o que a Bíblia diz, mas também de acolhimento no sentido de dizer: “Não vou tratá-lo de maneira diferente porque você é homossexual”. Temos que tratar como tratamos qualquer outra pessoa. Há pessoas que lutam contra esse desejo, de ter atração por pessoas do mesmo sexo, e querem ajuda pra isso. Outras não conseguem. E a Igreja deveria ser sensível e ajudar, mas sem esse ódio. Mais amor.

Que mensagem o Senhor deixa aos evangélicos?
Deus tem feito muitas coisas na Igreja brasileira nos nossos dias. É com alegria que a gente vê o crescimento do interesse pela pregação expositiva, pelo conhecimento bíblico, pelas grandes doutrinas que marcaram o nascimento da Igreja cristã. Tudo isso é obra de Deus. Não sei se posso falar em avivamento. Talvez seja cedo pra falar sobre isso. Mas com certeza há sinais que Deus tem sido gracioso como o Brasil e com o sul global, em continentes como a África, a Ásia e a América Latina. Deus tem nos abençoado grandemente. Não podemos perder este momento. A Igreja precisa ver o que Deus está fazendo, humilhar-se, procurar a presença do Senhor e se colocar numa posição de serviço a essa humanidade caída que necessita do perdão de Deus e do Evangelho.


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