Além dos templos: transformação social a partir da Igreja

O Evangelho é a única mensagem capaz de mudar e salvar a vida de uma pessoa e, ao mesmo tempo, uma valiosa possibilidade de transformação integral da sociedade. A mensagem de Jesus não separa a mensagem da salvação. O indivíduo é visto como um todo, na alma e nas suas necessidades físicas e sociais.

Os cristãos primitivos, a partir de suas comunidades, movimentavam-se contra uma cultura de rejeição e escravidão, que atentava contra a dignidade da pessoa, sobretudo mulheres e crianças. Eles tinham consciência de que a evangelização deve ter por objetivo confrontar o ser humano e as estruturas sociais com Jesus Cristo e o Reino por Ele proclamado. O amor fraternal era uma característica marcante da igreja que impressionava os pagãos, pouco acostumados a essa virtude. Não apenas as pessoas, mas também as estruturas geradoras de opressão eram combatidas por eles.

Os irmãos da igreja primitiva lutaram por uma sociedade mais justa, tanto que, em Atos 17, lê-se: “Estes que têm transtornado o mundo chegaram também aqui”. Uma demonstração clara da indignação daqueles que se alimentavam dos erros e injustiças estruturais do mundo antigo (1-6).

A Reforma Protestante do Século XVI manteve essa antiga tradição cristã de uma forte presença na área social. Os protestantes deram uma contribuição adicional nesse campo com novas ênfases teológicas. A eliminação da distinção entre clero e leigos, a valorização da vida diária e das atividades humanas em geral, uma nova ética do trabalho e a grande ênfase na educação para todos contribuíram decisivamente para a melhoria das condições de vida das pessoas ligadas ao movimento.

Reformadores como Lutero e Calvino escreveram amplamente sobre temas como pobreza e riqueza, as implicações sociais do Evangelho e a atuação da igreja na sociedade. Eles tinham convicção de que, como agência do Reino de Deus na Terra, a Igreja possui uma responsabilidade social.

Mas a impressão que se tem ao observar a igreja evangélica nos dias atuais, como um todo, é que ela poderia fazer e ser mais no aspecto social. Infelizmente, há uma tendência geral da igreja de “eclesiastizar” seu corpo de membros, tornando-os meros cumpridores de protocolos litúrgicos e pouco preocupados com o que acontece fora das paredes do templo.

A mensagem salvadora que fala de “nova criatura”, “tirar o homem do mundo”, passa longe de contribuir para que ele, transformado, também transforme seu ambiente natural a partir de um novo perfil social. Em todas as seis primeiras cartas aos Efésios Paulo fala que a nova vida que eles receberam em Cristo os obriga a uma nova conduta perante a sociedade. Paulo é claro ao dizer que a igreja deve repensar sua atuação na sociedade, como instrumento de transformação da realidade social que a cerca.

“A igreja cristã brasileira precisa sair de duas situações: o assistencialismo e o amadorismo nos seus projetos sociais. Se quisermos enfrentar os problemas da modernidade, como a desigualdade e exclusão social, violência, desemprego, drogas, criminalidade, desintegração familiar, é necessário sair do assistencialismo e buscar uma ação reformista, visando a resgatar a dignidade das pessoas, fazendo das mesmas agentes de sua libertação”, afirma o pastor Sebastião Bezerra, da Igreja Metodista em Itapuã, Vila Velha.

Segundo ele, é importante as igrejas buscarem ações mais condizentes com a realidade contemporânea e abrir os olhos para as diferentes necessidades do ser humano. “Que se busque mais parcerias, seja com Governo, prefeituras, empresas ou outras instituições. O Governo tem verba para investir em projetos, mas as igrejas não aproveitam. Os espaços físicos dos templos ficam ociosos a semana toda. É hora de abrir as portas para atender às pessoas, criar salas de aulas diversas, de capacitação profissional, terapias ocupacionais, palestras etc.”, falou o pastor.

Mentalidade social responsável

Muitos projetos de igrejas têm sido instrumentos de valorização pessoal e comunitária. Alguns exemplos são dignos de reconhecimento, pela proposta ousada e impactante. É o caso da Ação Morada, promovida pela Igreja Batista Morada de Camburi, em Vitória. Implantada no ano passado, a experiência mostrou à equipe que é possível sair das quatro paredes e ir ao encontro das comunidades.

A Ação Morada consiste no trabalho de 42 voluntários, que oferecem diferentes serviços para a população adulta e infantil, como médicos, massoterapeutas, fisioterapeuta e fonoaudiólogo da Clínica de Fisioterapia e Reabilitação Vitória; estudantes universitários e professores, advogados, cabeleireiros, maquiadoras e ainda 34 famílias voluntárias da igreja, que serviram na organização e apoio.

“Escolhemos atingir quatro bairros da Grande Goiabeiras. Nos organizamos e, no mês de maio, repetimos a Ação. Agora, depois de conferir o quão positivas foram as experiências, queremos executar o projeto pelo menos duas vezes por ano”, falou Clemildes Nascimento de Oliveira, educadora cristã da igreja.

Ainda segundo a educadora, a Ação Morada aproxima a igreja da comunidade e desafia os próprios crentes e igrejas a assumirem e viverem sua responsabilidade social, a fim de serem modelos para a sociedade e uma alternativa para o mundo.

“O resultado é benéfico para todos os envolvidos: quem trabalha experimenta o doce sabor de servir ao próximo, de estar entre aqueles que não conhecemos, mas que fazem parte da nossa comunidade. Os beneficiários podem ver o Deus de misericórdia, que os ama e está disposto a dar muito mais do que bem-estar físico”.

Programa Saúde & Vida, da Primeira Igreja Batista de Vitória, é também uma prova da importância de se investir no social com determinação. O programa atende à população em situação de vulnerabilidade ou risco social com renda familiar de até três salários mínimos. Segundo Miriam Gonçalves Nunes, coordenadora, o atendimento é feito independentemente do município em que a pessoa resida ou de sua religião. “O Saúde & Vida foi inaugurado em 1996 e oferece atendimentos nas áreas social, médica, odontológica, fonoaudiológica, psicológica e jurídica. O setor de serviço social realiza a triagem de todos que ingressam no programa”.

Todo o trabalho é realizado de forma voluntária e num espaço que dispõe de salas e consultórios modernos e estruturados conforme a necessidade de cada setor. “Os membros da igreja que não participam diretamente do trabalho têm a oportunidade de contribuir para seu funcionamento doando roupas, alimentos, brinquedos, medicamentos, utensílios domésticos, entre outros”, acrescentou Miriam.

No ano de 2010, até o mês de maio, foram realizados 993 atendimentos sociais, 46 consultas médicas, 50 procedimentos odontológicos, 84 consultas psicoterápicas, 35 atendimentos jurídicos e 73 consultas com fonoaudiólogo. Além disso, foram distribuídas 367 cestas básicas – totalizando 6.970 quilos de alimentos distribuídos para as famílias cadastradas e projetos apoiados pelo programa – e 3.243 peças de roupas, 312 pares de sapatos e realizados 30 cortes de cabelo.
Um dos destaques da ação social da Primeira Igreja é o Pão & Vida. Há mais de 10 anos, duas equipes percorrem ruas de Vitória distribuindo sopa e falando de Jesus para a população de rua. Uma equipe é responsável pela preparação da sopa e outra pela distribuição, duas vezes por semana. São 800 litros de sopa mensalmente.

Serviço para usuários de drogas

Consciente de que o crescimento do consumo de drogas é um problema que afeta toda a sociedade, o pastor Paulo Schultz, da Igreja Evangélica Visão de Água, em Vila Velha, criou um projeto para acolher dependentes de crack em uma residência. O trabalho é sustentado por meio de doações e pela própria igreja. O atendimento aos 15 internos é baseado em aconselhamento espiritual e atividades ocupacionais.

“Transmito a eles a bênção que recebi. A Palavra de Deus me tirou das drogas há dois anos e pode mudar essas vidas também. Muitos outros trabalhos como esse são feitos no Estado. Ex-dependentes, libertos pela Graça de Deus, abrem projetos de recuperação pela fé”.

O pastor Paulo afirma que diante da carência de investimento por parte do poder público em clínicas de reabilitação, projetos independentes têm sido a esperança de muitas vidas e famílias vitimadas pela droga. “Aqueles que têm o chamado de Deus não ficam parados diante desse câncer social que é o uso de drogas. Arregaçam as mangas e as portas, sustentados por Ele, acima de tudo”.

Por vivenciar o problema todos os dias, o pastor Paulo faz um alerta para as igrejas voltarem mais os “olhos” para o trabalho junto aos dependentes químicos. “A igreja evangélica tem muita força de trabalho e a mensagem transformadora. O crescimento da violência está associado ao uso de drogas. E a violência atinge a todos nós! Então, por que não investirmos mais? Vidas e famílias estão perdidas, sofrendo, precisando do nosso socorro”.

Também preocupada com o uso de drogas, a Igreja Adventista aplica há 26 anos no Espírito Santo o Projeto Pare de Fumar. O trabalho é coordenado pela Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) – organização não-governamental de nível mundial, presente em mais de 140 países, nos quais realiza tarefas humanitárias e de desenvolvimento.

Durantes cinco dias, um espaço em determinada comunidade é usado para ministração do curso. A cada ano, o projeto alcança mil pessoas, apresentando um índice de recuperação de 78%. Por mês, explica o pastor Paulo Falcão, são aplicados três cursos, em diferentes comunidades. A agenda de junho prevê cursos nos municípios de Ecoporanga, Baixo Guandu, Aracruz, Linhares, Pedro Canário e São Gabriel.

“O curso é aplicado por médicos, dentistas, enfermeiros, profissionais da área da saúde, pastores e líderes treinados previamente. Nosso desejo é ajudar os fumantes a se livrarem desse hábito, que agride o corpo em sua totalidade. Segundo estatísticas, mais de cinco milhões de pessoas morrem todos os anos no mundo por complicações provocadas pelo cigarro”, disse o pastor Paulo, que é dentista e secretário da Associação Espírito-Santense dos Adventistas do Sétimo Dia.

Educação integral

A Juventude Evangélica Luterana do Brasil, em comemoração aos 85 anos de fundação, lançou um projeto de conscientização ambiental que será multiplicado nas mais de 30 igrejas da Grande Vitória.
A intenção, segundo o pastor Moacir Glufke, é que a Juventude seja uma organização “sustentável”. “As uniões juvenis vão atuar no dia-a-dia pela causa ambiental e evangelística, trabalhando em conjunto com os distritos e regiões luteranos”.

Palestras serão promovidas nas igrejas para que cada grupo trace metas de trabalho que atinjam toda a comunidade a partir de ações educacionais. “A Igreja Luterana de Campo Grande, Cariacica, já começou o trabalho. Na palestra desse mês, destacamos a importância de o cristão se envolver com as causas ambientais. Temos a responsabilidade de cuidar do que nos cerca”, disse o pastor.

O pastor afirma que trabalhos como esses deveriam ser um compromisso de todas as igrejas. “Hoje é muito comum ouvirmos sobre sustentabilidade, mas muitos de nós não percebemos que o cuidar do meio ambiente, da natureza e de tudo que nos cerca tem muito a ver conosco, filhos de Deus. Se Deus nos deu poder sobre todas as suas criaturas, também nos deu responsabilidades.”

Outra proposta vem da Igreja Batista Missão no Romão, que colocou em prática projetos de inclusão social para crianças, jovens e adultos marginalizados. São atividades de esporte e educação desenvolvidas em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi). A Educação de Jovens e Adultos possui três turmas, divididas entre os módulos de alfabetização, Ensino Fundamental e Ensino Médio. Os alunos estudam nas dependências da igreja, pagando apenas o valor da apostila.

Com vontade de investir no “futuro do Brasil”, que são as crianças, o Projeto Sarça, da Primeira Igreja Presbiteriana de Vitória, em atividade desde 1994, atua junto às comunidades do Morro do Forte de São João, Jaburu e Santo Antônio, em Vitória. Reconhecida como Entidade Beneficente de Assistência Social pelo Ministério do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome, a instituição contribui para a melhoria social das comunidades com trabalhos socioeducativos dirigidos a crianças e adolescentes e também de capacitação profissional. São atendidas 150 crianças, na faixa etária de sete a 17 anos. A unidade em Santo Antônio é parceira da Prefeitura, com atendimento a 208 crianças na faixa etária de quatro a seis anos.

Como exemplo, na faixa etária de sete a 10 anos são desenvolvidas atividades de saúde, higiene, artes, reciclagem, espiritualidade, recreativas, culturais, de lazer e informática. Para a turma de 11 a 17 anos, são realizadas oficinas de leitura, interpretação de texto, redação, espiritualidade, informática básica, artes (quilling, arte em EVA e em material reciclado, mosaico), esportes, recreação, cultura e lazer (passeios), palestras e caligrafia. Todas as crianças assistidas pelo Sarça estão matriculadas no Ensino Fundamental ou Médio, em escolas da rede pública municipal ou estadual, cumprindo uma exigência do Estatuto da Criança e do Adolescente.

“A palavra de Deus em Tiago 2.14 nos orienta: ‘qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras?’ Estamos inseridos em uma sociedade com muitas necessidades. Subimos o morro e tomamos a iniciativa de promover uma ação voltada para as comunidades. Precisamos cada vez mais dedicar esforços para levar a palavra de Deus, assim como minimizar as necessidades materiais e emocionais de crianças, adolescentes e seus familiares. Essa é nossa missão”, declarou Geraldo Magela Clarindo Ribeiro, diretor da Associação Presbiteriana de Ação Social.

O crescimento dos evangélicos é grande e eles precisam influenciar em todas as áreas. Suas fileiras formam um verdadeiro exército, que deve estar pronto para combater as injustiças sociais a partir de uma evangelização que trate do corpo e da alma do indivíduo.

Acelerar, ampliar e inovar em seus trabalhos depende exclusivamente de cada um, a partir de uma nova visão da missão recebida de Jesus. Convidar as pessoas a uma nova vida em Cristo é essencial, mas à medida que a igreja evangeliza, ela também precisa expressar o interesse de Deus por todas as áreas da vida e espelhar a atitude daquele que disse: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”.

[important color=blue title=Você se importa?]

“No dia 7 de junho, por volta de 13 horas, eu seguia para mais uma de minhas palestras sobre drogas. Observei um homem, por volta dos 30 anos, remexendo uma caçamba de lixo. De repente, ele viu algo importante lá embaixo e mergulhou. Tirou um pequeno saco plástico cheio de comida e começou a devorá-lo. Mas logo cuspiu, porque não aguentou o azedume. Aproximei-me e perguntei: “Ei, cara, você está com fome?” Ele: “Estou, e daí?”. Falei: “Vamos ali em casa, porque tenho algo para você se alimentar”. Ele aceitou, entramos no elevador (ele cheirava mal) e, em seguida, no apartamento. Mandei que ele se assentasse e fui para a cozinha requentar o que sobrou do almoço. Enquanto ele comia, iniciei uma conversa natural, perguntando de onde ele era, o motivo de estar nas ruas. Ele me perguntou por que eu o estava ajudando. Falei que senti compaixão, que sou pastor, quis ajudá-lo. Ele disse: “Cara, eu sou uma espécie de filho pródigo; fui crente, briguei com meus pais e saí pelo mundo afora há anos. Como sei que eles não me receberão de volta, deixo a vida me levar”. Chamando-o para a varanda, comecei a falar de Jesus para ele. Pegando a “deixa” do filho pródigo, aconselhei-o a voltar para casa, com a mesma coragem que o filho pródigo teve. Ele se emocionou, me abraçou e se foi. Segui, atrasado, para minha palestra, certo de que fiz minha parte. Alguém pode pensar que corri risco – sim, corri, vários. Mas vale a pena, porque se não quisermos olhar para as mazelas sociais, ter compaixão pelas vidas, é melhor abrir uma igreja no céu e liderar anjinhos”.

Francisco Veloso
Vila Velha/ES[/important]

 

Compartilhe

Aproveite as promoções especiais na Loja da Comunhão!