A dor disfarçada de submissão

Sob o argumento de que a submissão é bíblica, cada vez mais mulheres têm sido alvo de violência doméstica

“Mulheres, sujeitem-se a seus maridos, pois ele é o cabeça da mulher” (Ef 5:22,23). “As vossas mulheres estejam caladas nas igrejas. Se querem aprender, interroguem em casa a seus próprios maridos” (I Co 14:26,35). Esses dois versículos bíblicos são usados por aproveitadores que, em nome da fé, interpretam o texto de forma isolada para atacar e humilhar suas esposas, dentro de casa, com palavras de desprezo, gritos, xingamentos e agressões físicas. Muitas mulheres cristãs, por não terem o entendimento correto do significado do que Paulo quis transmitir, sentem-se menosprezadas.  Com medo das ameaças dos maridos ou de se exporem diante da igreja, elas aceitam o abuso, não denunciam e optam por viver a dor da falsa submissão, que não passa de distorção de uma fé jamais ensinada por Jesus.
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Essa realidade foi comprovada, no fim do ano de 2016, por uma pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP), feita a partir de relatos colhidos por organizações não governamentais (ONGs) que trabalham no apoio às vítimas de violência doméstica. Os dados reveleram que 40% das mulheres que se declaram sujeitas a agressões físicas e verbais de seus maridos são evangélicas. Temerosas de desobedecerem à Palavra de Deus, ficam divididas entre a fé e a denúncia. Não sabem se oram ou se procuram a polícia.

Fonte: Entrevistados da matéria

Se recorrem aos líderes religiosos ou a uma delegacia. Foi o que aconteceu com Joana (nome fictício). Depois de cinco atendimentos em um consultório de psicoterapia e sempre vestida com roupas de mangas e gola alta, seus gemidos de dor denunciaram o que sofria
havia anos nas mãos do marido. Até que ela resolveu falar: “Não aguento mais apanhar do meu marido, principalmente antes de ir ao culto na igreja. Estou toda marcada, doída, não tenho mais forças nem vontade de viver”. A cena que mais impressionou a terapeuta foi a da vagina deformada de sua paciente, vítima dos chutes que recebia do marido nessa região do corpo.

“Não há como voltar ao pensamento da mulher dentro de casa, lavando copos e chão da casa” – Cris Barcelos, neuroterapeuta

A atitude de falar sobre o assunto é considerada correta por Naor Alves, líder na congregação Estação Caminho de Vitória, na capital capixaba. Ele defende que a submissão feminina integrava uma igreja que fazia exegese sem aplicar a hermenêutica (interpretação da Bíblia sem a ciência de compreender o significado das palavras e como elas se aplicam). “Se você não entende o contexto cultural e amplo do que foi dito, aliado a uma cultura machista, a compreensão conveniente está pronta. O homem manda, a mulher cala. Mas o próprio Paulo diz que em Cristo não há judeu ou grego, escravo ou livre, homem ou mulher, rico ou pobre, mas somos todos iguais perante Ele.

Basta ver como Jesus tratava as mulheres. Acho que quem levanta esse assunto (normalmente homens ciumentos de sua liderança) está procurando pretexto para subjugar a mulher. A submissão é sempre de alguém que desenvolve uma missão ao lado de, e não sob alguém. Aliás, a recomendação do Evangelho é que sejamos submissos uns aos outros em amor. Em geral sou a favor de que elas denunciem as agressões, mas é muito difícil criar uma regra única quando se trata de relações. Como dizia minha vó: ‘Mulher que apanha duas vezes do marido vai apanhar a vida toda”’, destaca Alves.

Em uma análise mais minuciosa, o pastor auxiliar da igreja Assembleia de Deus Nova
Vida, em Vila Velha (ES), Junior Fanticelli, afirma que a carta de Paulo aos Efésios foi
escrita dentro de um contexto, e não se pode ler apenas um versículo e aplicá-lo na
íntegra na vida de uma família, da esposa.

“Conheço mulheres cristãs e não cristãs que sofrem abusos e violências dentro de casa” – Célia Ferreira, pastora

“O termo submisso trata do que está debaixo de uma missão. Imediatamente depois de falar de submissão, Paulo apresenta a missão sob a qual a mulher deve submeter-se. Ele define que a missão do marido é amar sua esposa. Logo, a mulher deve permitir-se ser amada por esse marido; isso sim é ser submissa. Ninguém vai destruir o próprio corpo porque ama o Família próprio corpo; do mesmo modo, o homem por amar sua esposa. No Evangelho não há espaço para inferioridade.

Jesus colocou todos no mesmo nível, com responsabilidades diferentes. E ele compara o marido com Cristo e faz uma relação de Cristo como cabeça, porque qualquer relacionamento humano precisa de uma referência, e o casamento cristão tem a referência de Cristo e da Igreja. Em Gênesis, Deus estabelece, no Éden, a figura masculina como liderança da casa, o que não coloca o homem em superioridade à mulher, nem a mulher para ser submissa a ponto de o homem humilhá-la e ele ter a palavra final nos assuntos dentro de casa”, observa.

Paulo disse que as mulheres devem ficar caladas na igreja porque em Corinto elas estavam causando desordem e interrompendo o culto para fazer perguntas. O apóstolo não estava ordenando o silêncio em todas as situações na igreja. Tanto em português como no grego original, “falar” é um verbo muito geral, que pode ter vários significados, como falar em público – que engloba ensinar, pregar, profetizar, orar. Ou conversar, perguntar, tagarelar sobre assuntos corriqueiros, sem parar. Um pouco antes, em I Coríntios 11:5, ele fala sobre como as mulheres devem orar e profetizar com decência na igreja. Por isso, o falar em público não é totalmente proibido. O contexto da passagem enfatiza a importância da ordem e da paz na igreja.
800 INQUÉRITOS POLICIAIS

O equívoco de que cabe à mulher o sucesso do casamento é desfeito pela psicopedagoga
e neuroterapeuta Cris Barcelos, do Centro de Tratamento para Família, em Vila Velha (ES). “Efésios 5:25 diz que o marido, se necessário for, deve morrer pela sua esposa. Ou seja, ele vai lutar para gerar o sentimento de proteção e segurança para ela, pois independentemente do salário conquistado por ambos no trabalho, dentro de casa é o marido quem se preocupa com o bem-estar de sua esposa e vai cuidar de fazer coisas que a farão amá-lo ainda mais, sendo mais romântico e trazendo-a para participar de algumas decisões, dando valor a qualquer atividade que a esposa tenha feito. Isso é cuidar do bem-estar. A submissão bíblica não é feita como uma obrigação, mas com amor e devoção a quem a ama e cuida. Deve ser prazeroso ‘servir’ ao marido que assim age”, resume.

A delegada Natália Tenório, do Distrito de Polícia de Atendimento à Mulher, no estado do Espírito Santo, afirma que há muitas mulheres que frequentam igreja e sofrem violência. “E não são poucas. Muitas vezes a religião tem sido um empecilho para elas colocarem um fim nesse relacionamento. Muitas não conseguem, porque a família e a igreja não dão apoio. E o fator religião é muito forte, porque elas afirmam que, com a oração, o marido pode se tornar um homem melhor. Na Grande Vitória temos até 800 inquéritos policiais instaurados por ano, em sua maioria casos de ameaça e lesão corporal leve”.

“As famílias mudaram e estão mais modernas, mas o padrão bíblico estabelecido por Deus permanece o mesmo” – Almir Lopes, policial militar

A pastora Célia Ferreira, da Comunidade Batista Família na Rocha, em Vila Velha (ES), exemplifica. “Todas as decisões que envolvem a família devem ser tomadas em comum acordo pelo casal. Todavia, nem sempre se chega a esse consenso. Por exemplo: a mãe quer matricular o filho na escola A, e o pai prefere a escola B. Não chegam a um acordo. Mas uma decisão é necessária, e deve prevalecer a opinião do pai, que é o cabeça do casal. No entanto, a submissão e obediência ao Senhor estão muito acima das que são devidas ao marido. Se o marido exige da mulher um ato pecaminoso, não pode ela obedecer, pois estará desobedecendo a Deus.”

 

O amor do marido pela esposa pode salvar uma relação. Para o pastor Marlom Silveira, da Igreja Batista, em Vitória (ES), “se o marido amar a esposa como Cristo ama a Igreja, a mulher será uma parceira e tanto, porque o amor de Cristo trouxe dignidade, e não humilhação. Agressão é algo muito sério. Elas precisam denunciar”.

A parceria defendida por ele é endossada pelo apóstolo Paulo em I Co 11:11,12: “Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor. Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus”.

LUGAR DE MULHER É NA COZINHA?!

Ainda que cuidar do lar não seja demérito nenhum, quem nunca ouviu essa máxima em tom de piada ou desprezo? Em um mundo moderno, de igualdade de direitos, ainda há barreiras em relação às aspirações da mulher e quem acredite que determinados lugares são exclusivos para homens. Enquanto isso, elas tentam conciliar o trabalho doméstico (bíblico) com o secular, sendo submissas.

Policial militar do Rio de Janeiro, Almir Lopes, casado com Marta, dona de casa com quem tem quatro filhos, da Igreja Batista, afirma que “as famílias mudaram e estão mais modernas, mas o padrão bíblico estabelecido por Deus permanece o mesmo. Os homens, com o suor do seu rosto, providenciarão o pão para seus lares, e as mulheres serão ajudadoras do lar (Gn 3:16-19).

Deus estabeleceu o homem como provedor, deixando à mulher a responsabilidade pelo cuidado integral dos filhos, para que se tornem adultos saudáveis e equilibrados.” Márcia Halliday Sant Anna é pedagoga no Rio de Janeiro. “A Palavra de Deus não muda em razão da temporalidade ou da modernidade. Ao marido cabe amar e liderar, e à mulher cabe a obediência, o que não significa escravidão”.

“Ao marido cabe amar e liderar e à mulher cabe a obediência, o que não significa escravidão ou deixar de ter ou expor opinião” – Márcia Halliday Sant Anna, pedagoga

Mas para Cris Barcelos “não há como voltar ao pensamento da mulher dentro de casa, lavando copos e o chão. A mulher moderna aumentou suas tarefas, por isso é preciso que o marido passe a segurança a sua esposa, e a mulher seja amável”.

Provérbios 31:10 descreve o papel da mulher, segundo a pastora Célia. “É a que zela pela honra, tem compromisso com Deus e com a casa. É um desafio conciliar sua vida profissional com a submissão que o marido espera dela. Durante sua ausência de casa, não deve perder o controle do que se passa no lar”, orienta.

“Em minha visão”, diz o pastor Fanticelli, “do mesmo modo que o homem tem mil e uma atribuições e se ele se exceder uma ou outra área vai se perder, o remédio para mulher é o mesmo. Se o homem se excede nos afazeres profissionais, a família vai sofrer. Do mesmo modo, a mulher cristã que ocupa cargos de liderança precisa ter equilíbrio porque, se ela se exceder, outras áreas da vida também vão ficar deficientes. Nunca perder de foco seu papel bíblico de esposa auxiliadora, ao lado do marido, ajudando-o a cumprir sua missão de amá-la”.

DE QUEM É A CULPA?

Sentindo-se coagidas por seus líderes religiosos a não denunciar seus maridos, elas ouvem que devem esperar no Senhor para que o homem seja liberto desse espírito ruim que o torna violento. Que tem de se sujeitar, porque o que Deus une o homem não separa. Esperançosas por essa transformação, muitas mulheres evangélicas se sujeitam à violência.

Fonte: Entrevistados da matéria

“Conheço mulheres cristãs e não cristãs que sofrem abusos e violências dentro de casa e ainda assim submetem-se, porque o medo as paralisa, e elas se veem aprisionadas pelo marido. As autoridades deveriam criar órgãos públicos para dar assistência a essas mulheres, pois muitas não têm onde buscar refúgio. Quando existem filhos, o caso agrava-se. Elas precisam fazer um processo de volta, reconhecendo quem são para si próprias e para Deus”, diz a pastora Célia.

A violência doméstica não acontece de uma hora para outra. Começa, na maioria das vezes, no namoro, quando o homem isola a vítima do convívio de amigas e parentes, alegando que gostaria que ela ficasse em casa porque tem ciúmes. E a vítima, por sua vez, acredita que ciúmes são sinônimo de amor. Porém, depois vêm os xingamentos, considerados crime de injúria, ameaças e, em seguida, as agressões físicas. Se essa violência não for interrompida, o resultado pode ser a morte da vítima, o homicídio.

“A mulher deve permitir-se ser amada pelo marido; isso sim é ser submissa” – Júnior Fanticelli, pastor

Para o pastor Fanticelli, a mulher deve procurar primeiramente seu líder para compartilhar a possível situação de violência. “Mas não compete ao líder determinar a denúncia ou não. A violência contra a mulher é crime previsto em lei. Estamos em um Estado democrático de Direito, logo, a lei deve ser observada sobretudo pelos cristãos. O fato de a mulher denunciar não significa abandonar o agressor; caberá a ela após as medidas judiciais determinar se o agressor é uma pessoa com patologia de violência ou se há chance de recuperação. Não devemos dar espaço de tolerância para essa cultura da violência.”

A esposa não é obrigada a viver sob opressão. Ela tem direito de se defender e rejeitar as atitudes erradas do marido. A vítima não tem culpa. E mesmo que ela possa estar fazendo coisas que irritam o agressor, não justifica a violência. A culpa é do agressor. “Não seja áspero com sua esposa” (Cl 3:19).

VICIADAS EM SOFRIMENTO

Muitas mulheres agredidas precisam passar por processos de desintoxicação com especialistas, pois em alguns casos há o “vício” do sofrimento. “Investigamos maus-tratos com frequência. Em cinco anos de atendimentos a mais de 1.200 famílias, o fator principal de divórcios está ligado a traições e com agressões frequentes. Quando esse paciente busca ajuda, diagnosticamos fatores de agressões e intolerância na infância e adolescência. Existe tratamento para pessoas com temperamentos explosivos e compulsivos na violência com o próximo e consigo mesmo”, informa Cris.

Fonte: Entrevistados da matéria

Segundo ela, as mulheres que buscam mais auxílio “são as que não acreditam que os familiares vão conseguir ajudar, não acreditam na “Justiça” em defendê-las. O agressor se torna um gigante em caverna, elas ficam em silêncio com medo de despertar o gigante. Não denunciam por estarem presas a um mundo de acusações e domínio; são tantas palavras de baixa autoestima que começam acreditar que são o que o marido aponta. Muitas casam e se entregam ao amor de sua vida, mas quando começam a ser agredidas, não acreditam mais em ninguém, pois descobrem que o ‘príncipe virou cavalo’. Vão para o segundo casamento cheias de medo, traumas e não confiam em ninguém. Geralmente elas têm de 18 a 40 anos, são graduadas, trabalham e tem filhos.”


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