Fabi Bertotti “A gente não admite fraquezas”

“A gente não admite fraquezas. E se admitir como dependente da internet é uma fraqueza”
Autora dos livros “Confissões de uma Viciada em Internet” e “Submissa – Todos Têm um Dono”, Fabiana Bertotti é jornalista, casada com o pastor Rodrigo Bertotti, da Igreja Adventista, e decidiu abandonar o celular quando percebeu que sua vida virtual estava fazendo parte por mais tempo do seu cotidiano do que a vida real.

Depois de largar o smartphone, sentiu os sintomas da abstinência e, escrevendo o livro, comprovou que se não tivesse largado o vício a tempo, poderia chegar a uma situação crítica. Na publicação ela fala sobre diversas pesquisas. Uma delas, feita pelo Hospital das Clínicas de São Paulo, mostra que 8 milhões de brasileiros são viciados em internet, atingindo 10% dos que usam computador e 20% dos que acessam a rede pelo celular.

Fabi, como gosta de ser chamada, tem um blog em que aborda situações da vida cristã de forma contemporânea e sem rodeios. Agora, na companhia do marido, também vai usar esse canal semanalmente para falar que casamento dá certo. Através da página e de casos que teve conhecimento no seu dia a dia, está escrevendo um romance intitulado “#traição”, onde vai destacar a infidelidade virtual de um casal cristão.

Esse assunto também é alvo de pesquisas, que apontam que 72% dos homens acessam pornografia online continuamente, sendo que destes, um alto índice é de homens cristãos e pastores. “Eu achava que esse roteiro era superoriginal. Comecei a conversar com pastores, e eles disseram que isso estava acontecendo”.

Como você percebeu que estava perdendo a comunhão com Deus e a ligação com as pessoas por conta do vício da internet? Quantas horas por dia ficava envolvida com esses programas?
Nós estamos sempre buscando a comunhão com Deus, é uma luta diária para estudar Bíblia. Quando os primeiros aparelhos surgiram, eu vi nisso uma possibilidade de ter a Bíblia e livros cristãos sempre à mão, e a qualquer tempo poderia ler. Era um aliado da vida cristã. O que aconteceu foi que, quando eu precisava de alguma resposta, consultava rapidamente na busca do celular. Aquele conhecimento não funcionava, porque quando precisava de novo do mesmo versículo, não lembrava dele, tinha que fazer a busca novamente.

Quando lançaram o iPhone, comecei a dar conta de que eu me distraía. Eu fazia devocional diário e percebia que pulava alguns. Meus amigos que não estavam conectados às vezes ficavam quatro números à frente. Eu perdi o rumo das coisas. Pegava a Bíblia na internet na versão em áudio e, quando começava a ouvir, aparecia aquela notificaçãozinha “Fulano te mandou uma mensagem”.  Era automático, e eu simplesmente largava aquele versículo para ler a mensagem.  Mas demorei a perceber que meu conhecimento da Bíblia estava artificial, o aparelho me fazia ficar artificial, tinha muitas distrações. Esse processo para mim foi do tipo “não acredito, eu também cai nessa?”. Foi um superdesapontamento comigo mesma. Eu dava palestra sobre esses assuntos, mas nunca associei isso comigo.

Fui morar na Inglaterra e falei que não teria mais smartphone. Quero ver se sou capaz de viver sem ele. Primeiro, fiz um teste realizado num hospital de Londres que tem cinco níveis. O nível cinco é desses meninos que jogam games 24 horas por dia. Eu, uma pessoa normal, estudiosa, direitinha… E meu teste foi nível quatro. Para ser a louca da internet faltava o quê?
Depois disso repeti: quero mesmo tentar viver sem celular.

O meu marido falou que eu não aguentaria nem um mês porque era mesmo o tempo todo com aquele aparelho na mão. Então eu falei, vou ficar seis meses e eu vou escrever um livro contando minha experiência. Era um desafio: “eu tenho de ficar sem porque senão, não vai ter livro”. O processo analítico foi quando larguei, porque quando estamos muito dentro do negócio não dá para perceber.

Eu tive sintomas de abstinência, sentia meu celular vibrar, igual a pessoas que têm um membro amputado, aquela coisa da perna fantasma. Eu acordava com o toque do meu celular, mas não tinha celular… Eu sentia ele vibrando no meu bolso. Fui fazer as entrevistas para o livro, falei para os médicos o que estava acontecendo e eles disseram que eram situações de completa abstinência. Essa palavra “abstinência” me doeu porque eu acreditava que isso era para drogado, bêbado ou viciado em jogo. Eu não pensava que eu iria ter isso.

Você marcava a quantidade de horas que passava conectada?
Não. Eu contava as horas que eu passava desconectada. A primeira coisa que fazia quando acordava era pegar o celular, dava aquela checada, tomava um banho e dava uma olhada de novo. Supernormal, sou jornalista, preciso estar conectada. Ia tomar o café da manhã, e o celular em cima da mesa. Ia ler o jornal, e o celular do meu lado. Quase me compliquei.
Acho que quem tem menos estrutura emocional, familiar, tem mais dificuldade de se livrar.  A gente pensa: é só com louco que acontece isso. Mas não, todo mundo pode estar em algum nível de vício, a diferença é a base que você tem para lidar com isso, o quanto a sua família participa da sua vida, o quanto você tem de estudo, de equilíbrio emocional; tudo isso vai contar para o nível de vício, te afetar mais ou menos.

O meu gatilho foi minha sobrinha, que reclamou, quando estive no Brasil para visitá-la, do fato de estarmos juntas, mas eu ficar mexendo no celular em vez de curtir o momento com ela. “Quando está longe você diz que tem saudade, mas quando está perto fica mexendo nesse celular”. Me deu o clique: “Nossa, é verdade!  Eu estou perto de quem eu amo, mas conversando com quem está longe. Que coisa doente!”

Iria perguntar a você sobre como recebeu a notícia (de que estava viciada em internet), mas você foi percebendo…
Eu fui percebendo e foi doloroso, sabe por quê? Porque a gente não admite fraquezas. E se admitir como dependente da internet é uma fraqueza. E toda vez que eu converso com alguém, a pessoa fala “eu consigo ficar sem internet”. Eu digo: “Faz, fica um final de semana sem computador e celular”. Uma coisa é dizer que não tem o problema, outra coisa é enfrentar.

Esse vício é como alcoolismo, que você tem que lutar um dia de cada vez?
Tem um livro do Damian Thompson, “The Fix”, em que ele associa o cibervício com o vício de drogas. Ele foi dependente de álcool, fez AA (Alcoólicos Anônimos), e comparou o processo inteiro de recuperação ao mesmo do vício da internet. É uma polêmica esse livro, lançado ano passado. Mas os médicos hoje já associam, inclusive especialistas no Brasil. Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), tem um centro de transtornos psíquicos, com especialistas em digital. Na China são mais de 400 clínicas.

Visitei uma clínica em Londres que tem o tratamento para dependentes digitais. A principal dependência é em games, que é mais forte, e também tem em redes sociais, WhatsApp… E isso tem nome, chama-se nomofobia, é o medo de estar desconectado, é o medo de perder o que vai acontecer que veio das palavras no mobile, que é sem telefone em inglês, mas que hoje, por causa dos smartphones serem tão tecnológicos, se transfere para esse medo de ficar desconectado em geral. É um transtorno reconhecido pelos médicos como tão dependente quanto o vício em drogas.

Você descobriu isso como?
Eu descobri isso mais a fundo, pesquisando para o livro, mas eu já desconfiava porque eu fazia reportagens sobre o assunto. Fiz uma reportagem para uma revista sobre nomofobia, mas, claro, eu me considerava superior àquelas pessoas “loucas” que eu estava entrevistando.

A matéria foi há uns dois anos, e eu lembro que elas diziam “não, eu não consigo ficar sem celular, e eu pensava “nossa, que doente!” Mas eu me vi dentro disso tem um ano só e lamento muito porque acho que eu perdi muita coisa da vida,
de produzir, de aprender por causa da internet.

Pensando numa pessoa viciada assim e cristã, dá para sair disso somente com uma intervenção espiritual, uma orientação pastoral?
Acho que dá, dependendo do nível. Porque tem gente que vai precisar de ajuda. As pessoas não se reconhecem dependentes da vida digital. Esse é o maior problema, mas do mesmo jeito que entre os cristãos tem gente que se liberta simplesmente, tem gente que precisa de ajuda profissional, porque Deus deu orientação aos profissionais para nos ajudar. Se você tem problema no coração, procure ajuda profissional. Não é só orar que vai dar jeito.

Um vício é um transtorno psicológico, por que não pode ser tratado com profissionais? Existe um preconceito muito grande entre os cristãos de que problemas da mente só podem ser tratados com oração, quando muitos pastores nem sabem que eles são viciados também.

Cuida de um membro da igreja, mas ele (o pastor) não sai do Facebook. É muito fácil os pastores reconhecerem que seus membros têm problemas, mas e eles, como é que andam preparando o sermão, como é que têm estudado a Bíblia, com que profundidade?
Vamos todos olhar para cima e perguntar “como é que eu estou lidando com essa problemática?” Os maiores problemas de pastores que abandonam o ministério são o adultério, a traição e a pornografia online. Uma vez vi uma pesquisa sobre traição, quando chegaram as redes sociais ao Brasil, feita com todas as classes, todos os credos, e 72% dos homens afirmaram que veem pornografia online continuamente. Destes, há um alto índice de cristãos e pastores. Por que isso? Porque ter acesso à pornografia antes da internet era mais complicado, era preciso ter uma revista de mulher pelada, tinha de ir procurar locadora de vídeo e esconder para ninguém ver.

Na internet não, você tem tudo isso na palma da mão. Dá uma escapadinha para o café, no banheiro, vê pornografia e vai se masturbar. Está muito acessível.  Então, do mesmo jeito que alguns problemas dos membros da igreja precisam ser cuidados e orientados, os ministros também precisam olhar para si, se preparar, porque esse assunto não é uma questão de ensinamento, mas de reflexão pessoal. A responsabilidade espiritual é uma coisa muito séria, mas muito pessoal, é intransferível.

Você vai lançar em 2015 um novo livro?
É um romance. Eu desisti de fazer narrativas assim como faço porque são histórias muito reais. Então eu decidi fazer um romance com o nome “#traição” (leia-se hashtag traição).
É a história de um casal cristão, ativo na igreja, com filhos, casado há um tempo e, de repente, ele se descobre um viciado em pornografia online, e ela tendo um caso pela internet com um ex-namorado. Supercomum.

Aliás, eu achava que esse roteiro era superoriginal. Comecei a conversar com pastores, e eles disseram que isso estava acontecendo. Eles se descobrem viciados em internet e começam a discutir o motivo do distanciamento entre eles, se fazendo isso pela internet deixaram de ser cristãos. E começam a ter uma jornada de descobrimento espiritual e do matrimônio.

E como foi que criou isso?  Você tem casos, histórias desse tipo?
Tenho. São três casos bem emblemáticos de pessoas que eu conheci. Uma delas é de uma esposa de pastor que levava uma vida enfadonha e achou um ex-namorado no Facebook. Começou a conversar com ele, foi perdendo o interesse pelo marido, porque pela internet é tudo mais bonito. Ela abandonou esposo e filhos e foi atrás desse cara. E ele era casado, não queria nada com ela, e foi preciso voltar para casa. Ela me disse: “Porque na internet parecia que a gente ia dar certo, mas eu não me dei conta de que se não deu certo há 15 anos, por que ia dar certo agora?” Mulher é muito suscetível a isso.

Você acha que se o casamento estivesse bem estruturado isso teria acontecido?
Eu sempre cito Coríntios 1: 9,27: “A quem está em pé que cuide para que não caia”. Há casamentos que julgamos ótimos, mas deixam uma brecha para a união se abalar. Os homens são muito visuais, e de repente recebem um spam de uma mulher pelada, é uma tentação. Começam a ver, muitas vezes achando que não estão pecando, que não é uma traição de fato, porque é só virtual.

Ficam vendo a tiazinha fazendo streep tease online, vão se masturbar, mas acham que não fizeram nada. Não foi para cama com essa mulher, não tocou, então não traiu. Mas aquele que for olhar com más intenções já adulterou (Mateus 5:28). É digital, é virtual, mas quem está lá vendo tem RG e CPF, tem uma família e tem relações que vão ser diretamente afetadas pelo seu comportamento online.

E as outras duas histórias?
Uma outra também envolve um ministro que começou a puxar conversa com uma pessoa, aconselhando pelo Facebook sobre a possibilidade de separação do marido dela. O pastor abriu o jogo que estava mal no casamento, e eles começaram a conversar, até que chegou ao ponto das perguntas: “Como é que você está agora?”
Me deixa te ver numa roupa mais sensual. Começaram a trocar fotos, depois vídeos, e a fazer sexo online. E o marido dela descobriu.  Outro caso é de dois jovens que começaram a conversar, ela acreditando que era o amor da sua vida. E ele era casado. Estavam namorando e fizeram sexo online. Ela me disse “eu me senti enganada porque o cara era um louco por pornografia, colecionava sites de mulher pelada, tudo online”. Isso tudo sem falar de coisas do dia a dia, como troca de mensagens por WhatsApp.

Recebo cerca de 300 mensagens por dia e só consigo responder uma média de 50. E você não acredita… Tem casos de homens contando que já não fazem mais sexo com a esposa, não têm ereção por se masturbarem muito. Eu acho essa coisa de mundo virtual meio perigosa, porque a gente começa a depositar na rede uma expectativa de esperança, fantasia, e se esquece de cultivar o real, ter relações de verdade.

São as relações de verdade que dão sentido à vida.  Você pode ter 10 mil amigos no Facebook, que eles não vão te dar um abraço. Vou fazer um post e 100 vão curtir, mas aquilo não te dá conforto. E a gente deixa de cultivar a verdade para se focar no virtual, e quando mais precisa de afago humano, não é na internet que encontra, porque o que está ali é superficial. Acho importante dizer que as pessoas acham que têm pleno domínio da situação, mas não somos avatar. O quanto você se concentra nessa vida real e quanto você se distrai nesse mundo virtual? É a pergunta que tem que se fazer.

Qual a dica que você dá para alguém se reconhecer viciado em internet?
O primeiro sinal é saber de onde vêm suas maiores alegrias. Você fica ansioso (a) para chegar em casa e ver seu filho e seu marido ou esposa? Ou os momentos de sua vida são quando você está no Facebook?

Você consegue se desconectar do celular para curtir o real? Os momentos mais felizes de sua vida, que tem mais serotonina e dopamina liberadas, são os de olhar a vida dos outros? Ou seja, sua vida real é tão chata que não traz essa satisfação? Acho que é um sinal de alerta.

Quando quero uma vida espiritual plena, sentir a presença do Espírito Santo, o que eu faço? O que vale a pena? Talvez o que vale a pena é você se desconectar mais.

A matéria acima é uma republicação da Revista Comunhão. Fatos, comentários e opiniões contidos no texto se referem à época em que a matéria foi escrita.

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